Publicado em 24/05/2026
TORCIDAS - Neymar: a convocação do atacante, que declarou apoio a Jair Bolsonaro na campanha de 2022, foi comemorada pelo candidato Flávio Bolsonaro e precedida por um acalorado embate entre militante…
Patamar brasileiro se aproxima do período da ditadura militar, onde intolerância era absoluta e houve perseguição e morte de dissidentes
Por Laryssa Borges | Veja
O Brasil aparece como o quarto país mais polarizado do mundo, segundo ranking de 171 nações elaborado pela Our World in Data. Os dados se referem a 2025, mas revelam um movimento crescente e preocupante, o de populações altamente divididas cujas diferenças de opinião política afetam diretamente relacionamentos e interações que até pouco tempo atrás eram tidas como saudáveis e desejáveis.
De acordo com a entidade, cuja notoriedade ganhou corpo ao contabilizar casos de Covid em todo o mundo durante a pandemia, os brasileiros estão atrás apenas de Mianmar, que hoje responde em Cortes internacionais por perseguição a minorias étnicas, e de Turquia e Polônia, cujos governos recentes de direita geraram manifestações populares de rua, ataques à imprensa e fomento a teorias conspiratórias.
Segundo o levantamento, a polarização brasileira se assemelha aos momentos em que o país passou pela ditadura militar e fardados perseguiam dissidentes políticos e os cidadãos estavam divididos entre “nós” contra “eles”. Em 1964, por ano, ano do golpe, o índice de polarização política no Brasil era de 3,23 pontos.
Em 2025, o patamar chegou a 3,22 pontos em uma escala em que parâmetros próximos de zero se refletem em todo o mundo. Nos últimos dias, até mesmo a convocação do atacante Neymar Jr., do Santos, para a Copa do Mundo partiu o país entre bolsonaristas e lulistas. O futebol em si foi deixado de lado, conforme mostra edição de VEJA que chega neste fim de semana às bancas e plataformas digitais.
Bolsonarista declarado desde que pediu voto para o ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2022, Neymar provocou uma onda de reações esportivas – e políticas – depois de confirmado no elenco que vai à Copa. Horas antes da divulgação dos convocados, o PL, partido do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, publicou em suas redes sociais que “Flávio é Neymar” e “Neymar é Flávio”.
Instantes depois do anúncio de Ancelotti, o parlamentar e seu irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, também relacionaram o atleta à eleição presidencial. “A alegria venceu a perseguição. Em outubro ocorrerá de novo”, postou Eduardo, que na mesma mensagem acusou Lula de ter feito lobby junto a Ancelotti para que o camisa 10 não fosse escolhido. “Eu já sabia. Agora o hexa vem, Neymar Jr.”, escreveu Flávio, que publicou uma foto ao lado do jogador.
Na escala da Our World in Data, os Estados Unidos do controverso Donald Trump aparecem na 16ª colocação, embora pesquisas recentes tenham registrado, por exemplo, que 20% dos entrevistados são em alguma medida a favor de que “verdadeiros patriotas americanos possam recorrer à violência para salvar seu país”.
Os dados, neste caso, são do Public Religion Research Institute (PRRI). Na Argentina do também controvertido Javier Milei, o índice de polarização marca 1,90 pontos. A média mundial é de 0,29 ponto. Na América do Sul em geral, o índice de polarização é de 0,80.
Entre os poucos países com polarização controlada – Uruguai (-1,81 pontos) e Irlanda (-2,49 pontos) são alguns deles – a saída, além de fatores conjunturais, pode estar na regulação das redes, no enfrentamento à propagação de fake news e na rejeição de populistas de turno, dizem especialistas. Em todos os casos, a solução não parece fácil nem imediata. Com a proximidade das eleições presidenciais, menos ainda.

