Publicado em 15/07/2026
“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas.”
A expressão que encabeça este artigo é de autoria do escritor inglês Samuel Johnson e vem desde o longínquo ano de 1775. Portanto, a canalhice vem de muito longe e é usada para criticar o amor à pátria quando expresso por oportunistas para manipular as massas.
Lamentavelmente, no nosso país, declarar-se amante da nossa própria pátria se transformou, em todos os nossos ambientes políticos, na principal das nossas práticas, seja pelas mãos dos nossos atuais representantes, seja por aqueles que se propõem a nos representar. Vejamos:
Desde a proclamação da nossa República, no dia 15 de novembro de 1889, já passamos por quase uma dezena de constituições, todas elas vulneráveis a golpes de Estado propriamente ditos. A nossa presente Constituição, a 8ª, sendo uma das mais extensas do mundo, já foi tão emendada que há quem a denomine de colcha de retalhos.
Como cunhou o historiador romano Tácito: “Corruptissima re publica plurimae leges”, traduzindo: quanto mais corrupto é o Estado, mais numerosas são as suas leis. A título de esclarecimento: no Reino Unido sequer existe uma constituição escrita, e nos EUA, apesar dos seus mais de dois séculos de existência democrática, sua constituição só conta com sete artigos e 27 emendas. Enquanto cá, entre nós, a nossa Constituição consta de várias centenas de dispositivos e só se fala em reformá-la ainda mais. Em quantidade, já dispomos de muitas leis.
Refugiados no nosso Congresso Nacional, os nossos 81 senadores e 513 deputados federais, bem como nas Assembleias Legislativas estaduais e nas nossas 5.568 Câmaras de Vereadores, tudo pode parar, menos a fabricação de leis — a exemplo daquela que instituiu a maior roubalheira da nossa história: as emendas parlamentares aos nossos orçamentos públicos, nos nossos três níveis.
Tais emendas só se prestam, em primeiríssimo lugar, para desviar recursos públicos e para alimentar o nosso já abundante mercado eleitoral. Nas eleições deste ano, ora em curso, cada senador e cada um dos nossos deputados federais que vierem a concorrer às suas reeleições disporão de R$ 50 milhões, todos os anos, para se autofinanciarem.
Chega de patriotismo canalha; do contrário, democraticamente, continuaremos andando para trás e sendo ameaçados por novos golpes de Estado, a exemplo do que aconteceu no dia 8 de janeiro de 2023.
Quem diz que na referida data não houve tentativa de golpe apenas busca se refugiar dos seus efetivos propósitos. É disto que deveremos tratar, até porque, enquanto vida tiver, ainda que andando à base de bengalas, Jair Bolsonaro continuará conspirando contra a nossa própria democracia. Caso contrário, chegaremos a 2030 submetidos aos falsos patriotas.

