Publicado em 14/06/2026
Foto: Matheus Alexandre
Por Alessandra Karoline
Em um passo histórico para a integração entre a medicina convencional e as práticas tradicionais de cuidado, o Ilê Axé Iemanjá Ogunté — amplamente conhecido na região como o Terreiro da Cabocla Jarina, localizado no Polo Belo Jardim rural — sediou no último sábado (13) o projeto “Feiras de Saúde: Saberes Ancestrais dos Terreiros e o Cuidado na Atenção Primária à Saúde”.
O evento reuniu cerca de 150 pessoas e teve como principais objetivos promover o bem-estar social, fortalecer o acolhimento tradicional e combater o preconceito institucional. A iniciativa buscou aproximar os serviços essenciais do Sistema Único de Saúde (SUS) das comunidades de matriz africana, unindo a estrutura clínica à força da ancestralidade.

Durante todo o sábado, os moradores da capital acreana tiveram acesso gratuito a uma ampla gama de atendimentos médicos e preventivos. A estrutura do evento contou com consultórios itinerantes dedicados a exames oftalmológicos e procedimentos de saúde bucal.
Equipes de enfermagem e de assistência social também realizaram testes rápidos para a detecção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), como HIV, hepatite B e sífilis, oferecendo orientações sobre prevenção e tratamento imediato, além de diversos serviços de cidadania.

A anfitriã do evento, a Ialorixá Gezilda de Iemanjá Ogunté, celebrou a oportunidade e destacou a união de esforços das diferentes esferas públicas para a realização do encontro.
“Hoje tenho a honra de sediar a primeira feira de saberes ancestrais com atenção primária à saúde aqui no estado do Acre, acontecendo no meu terreiro aqui no Polo Belo Jardim rural. E com os dispositivos e com a ajuda do governo federal, estadual, municipal aqui nos prestigiando nesse dia, nessa ação maravilhosa, ministrada e sendo apoiada pelo Ministério da Saúde.” — Ialorixá Gezilda de Iemanjá Ogunté

Para as lideranças locais, a feira representou um momento crucial de inclusão e de acesso a direitos que muitas vezes são negados ou dificultados para os povos de terreiro. Mãe Ruby de Oxum destacou a importância de levar a comunidade para o espaço de cuidado e o impacto que a ação gera na autoestima e na saúde coletiva.
“Hoje eu consegui trazer os filhos do meu terreiro para poderem colocar aí nessa feira a caderneta de vacinação em dia, né? Poder acessar aí, principalmente, consultas e trazer também ali conscientização sobre a saúde. Porque nossos terreiros, eles sempre acabam sendo invisibilizados, acabam ficando ali para depois. E essa feira, ela tem contribuído para a gente abrir um pouco mais os nossos olhos, para a gente poder se cuidar e cuidar dos nossos também.” — Mãe Ruby de Oxum

Além dos cuidados clínicos e dos serviços de apoio social, o projeto preparou um ambiente acolhedor e festivo. Pensando nas famílias presentes, a programação incluiu um espaço especial voltado para o público infantil, repleto de atividades lúdicas e recreativas.
A identidade cultural e a celebração das tradições também foram marcantes ao longo de todo o dia, com apresentações e atrações musicais regionais que reforçaram o orgulho e a resistência das comunidades tradicionais no Acre.

Entrevistas concedidas a Matheus Alexandre

