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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
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Quem tem o direito de criticar a captura de Maduro pelos americanos?

Publicado em 04/01/2026

Comemoração da captura de Maduro de venezuelanos no Chile: seriam todos eles de extrema direita? (Javier Torres/AFP)

Só quem usou da mesma veemência para condenar os abusos praticados pelo tiranete venezuelano – e nenhum deles está à esquerda

Por Vilma Gryzinski | VEJA

Foi visitar Vladimir Putin em 2025 e se desmanchou em rapapés? Não tem o
direito de criticar a intervenção-relâmpago americana que levou Nicolás
Maduro para uma viagem indesejada aos Estados Unidos. Não condenou de
forma veemente, pública e categórica a eleição presidencial roubada pelo
tiranete? Examine a sua própria consciência. Acha que existem casos
“excepcionalíssimos” em que se pode instaurar a censura no Brasil? E por que
não admitir a excepcionalidade do caso do venezuelano, à frente de um regime
que se tornou especialista no transporte e proteção do tráfico de drogas em
grande escala?

Não é preciso ser especialista em direito internacional – e aparentemente
metade da humanidade agora entrou para a categoria – para entender os riscos
da intervenção ordenada por Donald Trump, um caso nunca visto de captura
de um presidente – ainda que ilegítimo – em pleno domínio de suas
atribuições.

Um ser maligno como Putin pode alegar o mesmo, ou coisa pior, para tentar
raptar Volodimir Zelenski na Ucrânia – não que não tenha tentado, mas os
ucranianos são um osso duro de roer.

Mas os que hoje choramingam por Maduro perderam a razão e não adianta
agora vir dizer que a intervenção e os bombardeios na Venezuela “ultrapassam
uma linha inaceitável”. O certo, aliás, seria dizer ultrapassam a linha do
aceitável, mas o pessoal do Itamaraty deve ter sido pego de surpresa na
madrugada de sexta para sábado, quando estava de folga de seus brilhantes
planos para fazer a diplomacia brasileira seguir no seu caminho de glórias
colossais e ter um papel na “resolução de conflitos”, como chama tudo o que
não gosta.

Também é errado achar que só a direita tem motivos para comemorar. As
tiranias à la venezuelana ultrapassam amplamente as diferenças ideológicas.
Seriam todos os venezuelanos que saíram para comemorar nas ruas de
Santiago perigosos integrantes da extrema direita? É claro que não. É claro que
quem tem uma gota de decência não pode lamentar o fim espantoso de
Maduro e excelentíssima esposa, que terão que responder por crimes como
tráfico de drogas e até posse de metralhadora.

A excelentíssima, por sinal, tem uma certa experiência, visto a prisão no Haiti,
a remoção para os Estados Unidos e a condenação dos dois sobrinhos – um
deles filho de criação – envolvidos no negócio de sempre. Um deles chegava a
reclamar, em gravações feitas pelos americanos, que “é muito difícil traficar
drogas; é muito estressante”. Apelidados de “narcosobrinhos”, eles foram
soltos em troca de cidadãos americanos presos em retaliação na Venezuela.

Agora, não há reféns para trocar por Maduro e a excelentíssima, uma militante
de alto coturno que fez carreira nas esferas do poder chavista e tem – ou tinha
– o hábito de usar grifes caríssimas, como Chanel e a bolsa Dolce & Gabbana
de 3,5 mil dólares que desfilou quando foi recebida com o marido com todas as
honras em Brasília, uma vergonha que ficará marcada no currículo brasileiro.

A esquerda deveria fazer uma bela autocrítica e reconhecer como o apoio a
Maduro é contra todos os princípios éticos e prejudicial a ela mesma. Nem que
seja por autointeresse: a miséria galopante instaurada pelo chavismo entrou
na imaginação popular e se tornou exemplo de tudo o que não deve ser feito.
Identificar-se com esse tipo de desastre é entrar numa armadilha – embora
irresistível para o pensamento deturpado pelas lentes ideológicas.

 

 

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