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Lição de Vida, Ciência e Resiliência: A Trajetória e os Alertas da Dra. Célia Rocha no ‘Boa Noite Rio Branco’

Publicado em 23/05/2026

Foto reprodução: Jornalista Antônio Muniz e a Dra. Celia Rocha

Há 47 anos no Acre, a médica pneumologista relembra o milagre que a manteve viva após sobreviver a uma das maiores tragédias aéreas do estado e faz um alerta severo sobre automedicação, imunidade e o avanço das doenças respiratórias.

RIO BRANCO – O programa Boa Noite Rio Branco, da TV Rio Branco (Canal 8.1), recebeu uma das figuras mais emblemáticas e queridas da medicina e da sociedade acriana: a médica pneumologista Dra. Célia Rocha. Em uma conversa franca, emocionante e repleta de ensinamentos conduzida pelo jornalista Muniz, a médica — paraibana de nascimento, mas acriana de coração — relembrou a sua impressionante história de sobrevivência, celebrou seus múltiplos talentos e fez um alerta contundente à população sobre o avanço da Influenza e os perigos dos maus hábitos de saúde.

Doutora Célia é membro da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia . Com quase 48 anos de carreira, formou-se em medicina com residência no Rio de Janeiro, pós-graduação pela PUC-RJ e especialização em gestão hospitalar pela São Camilo, em São Paulo. No entanto, sua trajetória é marcada por um divisor de águas: o dia 30 de agosto de 2002, data do trágico acidente com o voo 4823 da Rico Linhas Aéreas, em Rio Branco.

O Milagre da “Fênix” Acriana

Durante a entrevista, Dra. Célia detalhou pela primeira vez na TV a extensão dos ferimentos que sofreu no acidente aéreo que chocou o país. Na época, ela atuava como subsecretária de Saúde do Estado e retornava de uma agenda de trabalho em Cruzeiro do Sul.

“Eu passei três meses e 16 dias na UTI do Hospital Nove de Julho, em São Paulo, para onde fui transportada em estado gravíssimo. Passei por 38 cirurgias. Eu sou, na verdade, reconstituída de placas e parafusos de titânio pelo corpo inteiro”, revelou a médica.

Com uma serenidade impressionante, ela relembrou a gravidade das lesões: teve scalp total (arrancamento do couro cabeludo), fraturou as duas órbitas do ombro, a mandíbula (que se deslocou até os ouvidos), a coluna em dois lugares, além de ter braços, joelhos e pés esmigalhados. “Na hora do impacto, todas as minhas costelas quebraram e perfuraram os dois pulmões. Tive hemorragia torácica e abdominal. Onde tinha orifício no meu corpo, havia um aparelho colocado”, contou.

Espírita kardecista, a médica rejeita o tom de pretensão, mas aceita o título de sobrevivente. “Eu me tornei uma fênix. Nasci de novo. Digo que estou viva pela estrita misericórdia de Deus. Ele não me deu um carma, me deu uma moratória.”

Histórias Cruzadas pelo Destino

A médica relembrou com emoção como o destino desenhou a tragédia para outras pessoas naquele mesmo voo. Ela citou o caso de uma amiga e técnica de planejamento da saúde, Rosângela (esposa do neurologista Dr. Paulo Jorge), que não deveria estar naquela viagem, mas antecipou o retorno a pedido do marido e acabou falecendo. O mesmo ocorreu com o então deputado federal Ildefonso Cordeiro e sua esposa, que forçaram a compra de passagens de última hora para retornar a Rio Branco devido a compromissos políticos. “Você não é dono de absolutamente nada, não sabe o que vai te acontecer daqui a um segundo”, refletiu.

Foto reprodução: Dra. Celia Rocha

Uma Vida Plena: Música, Esporte e Literatura

Apesar das limitações físicas impostas pelo passado, Dra. Célia Rocha mantém uma rotina impressionante. Atleta na juventude — quando jogou basquete, praticou corrida de revezamento e foi piloto de rali no Nordeste —, ela revelou que mantém os treinos diários em uma academia montada em sua própria casa.

“Depois de ter sido totalmente quebrada, trucidata, mais do que nunca tenho que reforçar a atividade física. Nós temos que ter um envelhecimento com responsabilidade e independência. Não depender de ninguém para levantar da cama, tomar banho ou dirigir.”

Além da rotina fitness, a médica é conhecida por seu talento musical (toca violão, bateria e canta em inglês e francês) e por transitar com naturalidade entre grandes nomes da cultura. O programa exibeu fotos históricas da médica ao lado de ícones como Gilberto Gil, o saudoso João Donato e o artista plástico Sansão.

Foto reprodução: Dra. Celia Rocha

Lançamento de Autobiografia

Para celebrar sua trajetória, a médica anunciou o lançamento de sua autobiografia, escrita pelo jornalista Peter Lucena. O livro, que narra sua vinda para o Acre de Fusca pela Transamazônica nos anos 80 carregando apenas um estetoscópio, um violão e seus sonhos, será lançado em Rio Branco no dia 17 de julho, data de seu aniversário. Posteriormente, a obra também será lançada na Academia Paraibana de Letras, em João Pessoa (PB).

O Alerta da Especialista: Influenza, Mutações e o Perigo da Automedicação

No bloco final do programa, vestindo o jaleco da experiência, a pneumologista demonstrou profunda preocupação com o atual cenário epidemiológico do Acre, intensificado pelas recentes mudanças bruscas de temperatura e frentes frias na região.

Dra. Célia alertou que fatores como o desmatamento estão aproximando o homem de patógenos silvestres, citando os alertas mundiais para a varíola dos macacos (mpox) e o vírus ebola. “Os vírus vão sofrendo inúmeras mutações, tornando-se mais fortes e resistentes”, explicou, prestando uma homenagem à pesquisadora Margarete Dalcomo, da Fiocruz, ao defender maior valorização da ciência no Brasil.

A Cultura da Automedicação

O principal puxão de orelha da especialista foi direcionado ao hábito cultural do brasileiro de se automedicar.

“Temos um problema sério no Brasil que se chama automedicação. Do Oiapoque ao Chuí, as pessoas sentem algo e correm para a farmácia. Nos EUA e na Europa não se compra medicamento sem receita. A Organização Mundial da Saúde faz um apelo: não temos muitos antivirais e antibióticos no mundo. Vai chegar um momento em que não teremos com o que medicar a população mundial devido à resistência bacteriana e viral.”

A recomendação da médica é clara: ao menor sinal de alteração no organismo, deve-se procurar um especialista ou a unidade de saúde mais próxima, abandonando o hábito de consumir remédios por conta própria.

“Imunidade não é remédio de farmácia, é o que se come”

A médica encerrou a entrevista criticando duramente a degradação da cultura alimentar moderna, apontando o consumo excessivo de fast-food e alimentos ultraprocessados pelas famílias.

Como exemplo alarmante, a Dra. Célia relatou um atendimento recente em seu consultório: “Atendi uma mãe de classe alta, com um carrão, cuja filha de seis anos me confidenciou que o seu café da manhã diário era pipoca de micro-ondas para aguentar o período escolar. Gente, isso é chamar a morte. A imunidade não se compra em cápsulas na farmácia. A imunidade é o alimento de qualidade que a gente consome em casa: verduras, legumes, frutas, ovos e azeite de oliva”, finalizou de forma categórica.

Veja o entrevista na íntegra no canal do YouTube do programa “Boa Noite Rio Branco | TV Rio Branco:

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