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Marcas da desinformação: Como o Acre tenta superar o trauma de 2017 para elevar a vacinação contra o HPV

Publicado em 02/06/2026

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Por Redação

O Brasil enfrenta um desafio histórico para atingir as metas de vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV), e o cenário é ainda mais complexo no Acre. Enquanto a média nacional de cobertura vacinal atingiu 86% entre meninas e 74,5% entre os meninos no último ano, o estado acreano amargou os índices mais baixos do país: apenas 59% e 50%, respectivamente.

O motivo do forte recuo tem raízes em um episódio marcante ocorrido em 2017, quando 74 adolescentes locais apresentaram sintomas como dores de cabeça, desmaios e convulsões após receberem o imunizante. Embora uma extensa investigação científica tenha comprovado que os componentes da vacina não causaram as reações, o caso foi amplamente explorado por grupos antivacina, gerando uma onda prolongada de hesitação na região.

Renata Quiles, atual coordenadora estadual do Programa Nacional de Imunizações (PNI) no Acre, vivenciou a crise de perto. “Saímos de 14 para 127 casos notificados em seis meses por um comportamento de massa, estimulado pelo medo e pelo que se veiculava”, relembra.

Uma força-tarefa enviou 12 jovens com sintomas graves para a Faculdade de Medicina da USP. Os exames diagnosticaram que, à exceção de dois irmãos com epilepsia genética, os demais sofriam de Crise Psicogênica Não Epilética (CNEP) — uma resposta física involuntária ao estresse do ato de se vacinar, sem qualquer relação biológica com o imunizante.

Foto: Luan Martins/Sesacre

Em nota conjunta, as Sociedades Brasileiras de Pediatria (SBP) e de Imunizações (SBIm) alertam que plataformas como YouTube, TikTok e Kwai atuam como gatilhos para novos casos de CNEP ao propagar conteúdos falsos que atribuem caráter de “sequela” à vacina.

Muitos pais, que já resistiam à imunização por associá-la precocemente à atividade sexual dos filhos, abandonaram o esquema vacinal. “Depois disso, a vacina de HPV ‘flopou’ e as campanhas nas escolas acabaram”, lamenta Mayra Moura, diretora da SBIm. Nos anos de 2018 e 2019, a procura no Acre desabou para menos de 10%.

A rejeição à vacina cobra um preço alto em vidas. O câncer de colo de útero, cujo surgimento está 99% atrelado ao HPV, deve registrar 19 mil novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028. O Acre ocupa a preocupante 5ª posição nacional em incidência da doença.

Estatísticas do HPV no Brasil Dados Anuais
Mortes anuais por cânceres causados por HPV: ~ 7,5 mil óbitos
Efetividade da vacina distribuída pelo SUS: 90% ou mais
Público-alvo principal no SUS: Meninos e meninas de 9 a 14 anos

Para combater o fantasma das fake news, municípios acreanos têm apostado na criatividade e no treinamento de profissionais de saúde. Em Porto Walter, cidade na fronteira com o Peru, as taxas de cobertura subiram para 72% (meninas) e 68% (meninos) graças a uma iniciativa cultural.

O coordenador de imunizações local, Anderson Cleiton Baraúna, criou o “Cinema da Imunização”. Os jovens que se vacinavam nas escolas ou postos ganhavam ingressos para o cinema com direito a pipoca e refrigerante. “Colocamos equipes de prontidão na porta do cinema para vacinar quem faltava. Conseguimos imunizar mais de 200 adolescentes”, comemora.

Paralelamente, o PNI foca na capacitação em comunicação para profissionais que atuam em áreas isoladas e aldeias indígenas. Segundo Renata Quiles, a resistência começa a dar trégua: “As pessoas viram que a vacina continuou sendo aplicada e ninguém mais apresentou nada daquilo. A população acreana gosta de se vacinar, ela só havia se tornado seletiva”.

Fonte: Agência Brasil

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