24.3 C
Rio Branco
sábado, 16 de maio de 2026
O RIO BRANCO
BrasilGeral

Anúncios pagos sobre o STF explodem nas redes sociais e colocam Corte no centro do debate eleitoral

Publicado em 16/05/2026

Volume de anúncios sobre o STF triplica desde 2020 e mira eleição de 2026 Foto: WILTON JUNIOR

Políticos e pré-candidatos usam redes para criticar ministros e defender impeachment às vésperas da disputa eleitoral

Por Hugo Henud | Estadão

O Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ocupar espaço permanente na propaganda política digital no País. Em meio à aproximação das eleições de 2026, o volume de anúncios pagos sobre a Corte nas redes sociais cresceu mais de 50 vezes desde 2020. Políticos, pré-candidatos e páginas de grupos de militância intensificaram o uso de campanhas digitais para criticar ministros, defender mudanças no Supremo ou mobilizar apoiadores em torno da atuação da Corte.

Levantamento feito pelo Estadão na biblioteca de anúncios da Meta, considerando os quatro primeiros meses de cada ano desde 2020, mostra que o volume de resultados de campanhas pagas sobre o STF com circulação nas plataformas da empresa saltou de cerca de 95 resultados entre janeiro e abril de 2020 para aproximadamente 4,9 mil no mesmo período de 2026.

Volume de anúncios sobre o STF triplica desde 2020 e mira eleição de 2026 Foto: WILTON JUNIOR

Só entre janeiro e abril deste ano, foram identificados cerca de 4,9 mil resultados, número superior à soma dos três primeiros anos da série histórica, entre 2020 e 2022. O salto coincide com os primeiros anos do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, período em que o STF passou a se consolidar como alvo frequente de questionamentos por parte de políticos e grupos de militância nas redes sociais.

Os impulsionamentos abrangem plataformas da Meta, como Facebook, Instagram e WhatsApp. Em alguns casos, campanhas criadas em anos anteriores continuaram sendo exibidas e contabilizadas nos períodos analisados.

O movimento é liderado principalmente por políticos e, em especial, pré-candidatos ao Senado, que passaram a usar o tribunal como instrumento de posicionamento público às vésperas da disputa presidencial de 2026. Para especialistas ouvidos pelo Estadão, críticas à atuação de ministros e aos limites dos poderes da Corte fazem parte do debate eleitoral, embora ataques institucionais e a disseminação de informações falsas possam levar a questionamentos na Justiça Eleitoral.

As campanhas pagas vão desde críticas aos poderes do Supremo e à conduta de ministros do STF, como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, em meio às revelações sobre ligações de ambos com o Banco Master, até temas relacionados às polêmicas recentes envolvendo Gilmar Mendes e à rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo no Senado.

Um dos exemplos é o senador Carlos Portinho (PL-RJ), que, em campanha veiculada em março de 2026, defendeu a redução dos poderes do STF. Em outra peça impulsionada em 2025, o parlamentar afirmou que “o STF está preocupado com a possibilidade de um Senado alinhado ao presidente Bolsonaro depois das eleições de 2026”.

Na mesma linha, o senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), que pretende disputar a reeleição no Pará, comemorou em anúncios impulsionados a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF. O parlamentar afirmou que a votação “mostrou para o Brasil” que a composição do Supremo “é determinada pelo Senado Federal”.

O senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO), que busca a reeleição, veiculou em 2025 um vídeo no qual afirma ter assinado, ainda em 2024, um pedido de impeachment contra Moraes.

Pré-candidatos ao Senado também passaram a usar o STF como eixo de campanha. Levantamento da Quaest, divulgado em março, mostra que 66% dos brasileiros consideram importante votar em candidatos à Casa Alta que defendam o impeachment de ministros do Supremo.

Entre eles está o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), um dos principais nomes do PL para disputar o Senado em Goiás. Em vídeo impulsionado em janeiro de 2026, o parlamentar afirmou que “a única chance que o Brasil tem de virar a página e voltar a ter sanidade é se nós fizermos maioria no Senado”, porque “só o Senado tem a prerrogativa de fazer o impeachment do STF”.

O deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ), que já manifestou o desejo de disputar a Casa Alta pelo Rio, impulsionou um vídeo em 2025 chamado “Golpe de Estado do Supremo”, no qual critica os “poderes excessivos” dos ministros e mudanças feitas pelo ministro Gilmar Mendes nas regras de impeachment da Corte, que tornaram mais difícil a abertura desse tipo de procedimento no Senado.

Já o deputado federal Marcos Pollon (PL-MS), que conta com o apoio de Bolsonaro para disputar o Senado por Mato Grosso do Sul, explorou em anúncios o caso envolvendo o Banco Master. Em vídeo impulsionado em janeiro de 2026, o parlamentar relembra o contrato mantido pelo escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, com a instituição financeira.

Na mesma peça, Pollon também cita decisões consideradas atípicas tomadas pelo ministro Dias Toffoli enquanto era relator do caso Master no Supremo. Hoje, o processo está sob relatoria do ministro André Mendonça, após Toffoli deixar o caso depois de relatório da Polícia Federal apontar menções ao magistrado em mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, além de registros de conversas entre ambos. Como mostrou o Estadão, a empresa ligada a Toffoli também realizou negociações com um fundo vinculado ao cunhado de Vorcaro.

Mas o debate político sobre o STF nas campanhas digitais não se restringe à disputa pelo Senado. O pré-candidato à Presidência Renan Santos (Missão), em campanha impulsionada entre 7 e 8 de abril de 2026, aparece em um vídeo propondo “sete propostas” para o Supremo. Na gravação, inicia o discurso questionando: “você quer nunca mais ter um Alexandre de Moraes e Dias Toffoli ou os absurdos que acontecem no STF?”.

O deputado Kim Kataguiri, que concorre ao governo de São Paulo pelo Missão, também impulsionou conteúdo contra ministro do Supremo. Em um dos vídeos, o parlamentar divulga um abaixo-assinado pedindo a prisão de Moraes e afirma querer vê-lo “saindo do STF conduzido pela PF”.

Como mostrou o Estadão, ministros do STF acompanham com preocupação o avanço das campanhas eleitorais que passaram a adotar críticas à Corte como bandeira política na disputa de 2026. Nos últimos dias, críticas ao Supremo foram incorporadas aos discursos do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e, principalmente, do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo). Nesta sexta-feira, Zema foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por calúnia contra Gilmar Mendes, por conta de um vídeo com tom irônico em que ele insinua que o ministro teria blindado o colega Dias Toffoli no caso do resort Tayayá. O caso tramitará no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

No campo governista, o próprio PT aprovou, no último dia 26, um documento em que cobra a “autocorreção” do Judiciário.

Ao mesmo tempo, ministros da Corte também têm dado sinais de que podem atuar diretamente em casos com potencial impacto eleitoral e, na prática, contornar a atuação do Tribunal Superior Eleitoral ao reagirem a ataques e discursos de candidatos contra integrantes do Supremo.

Na avaliação do advogado eleitoral Alberto Rollo, críticas a ministros não são, por si só, irregulares. Para o especialista, não há problema na veiculação de conteúdos com questionamentos à atuação de integrantes do Supremo por parte de candidatos, e discussões sobre os limites da atuação da Corte podem integrar o debate eleitoral.

“É preciso ter atenção à liberdade de expressão e diferenciá-la do que é efetivamente crime contra a honra. Altas autoridades devem suportar um nível maior de críticas do que cidadãos comuns”, afirma.

Rollo pondera, no entanto, que caberá à Justiça Eleitoral avaliar eventuais casos em que o conteúdo divulgado contenha informações falsas ou descontextualizadas e produza impacto no equilíbrio da disputa, com eventual vantagem indevida a candidatos.

Já a professora da ESPM-SP Ana Laura Barbosa concorda que críticas fundamentadas à atuação da Corte fazem parte do debate político, mas ressalta que há um limite quando os discursos passam a buscar “descredibilizar as instituições ou o sistema eleitoral”.

A jurista, que participou da elaboração de um Código de Conduta para ministros do STF desenvolvido pelo Instituto FHC, afirma que ataques institucionais “não podem ser objeto de campanha”. “Então, vai depender de qual é o teor do discurso e das propostas realizadas”, diz.

Além de políticos, páginas e perfis nas redes também passaram a impulsionar campanhas em defesa da adoção de um código de conduta para ministros do Supremo. Os conteúdos reforçam posições semelhantes às defendidas pelo presidente da Corte, Edson Fachin, que tem se manifestado publicamente a favor da formalização de regras de conduta aplicáveis aos integrantes do tribunal.

Compartilhe:

Artigos Relacionados

Fraudes no INSS: PF deflagra nova fase de operação em oito estados

Redacao

Publicada lista de famílias pré-selecionadas para o Minha Casa Minha Vida no Acre

Kevin Souza

Pix terá novas regras importantes para quem usar a partir de 1º de novembro.

Raimundo Souza

Paulo Figueiredo: “Magnitsky vai arruinar vida de Alexandre de Moraes”

Kevin Souza

Desenrola para MEI e micro e pequenas empresas começa nesta segunda

Jamile Romano

Ministério da Saúde incorpora vacina contra a dengue no SUS

Marcio Nunes