Publicado em 20/04/2026
Foto: Uêslei Araújo-Sema
Por Alessandra Karoline
De acordo com dados do SEEG e do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, o estado registrou emissões líquidas de 30,5 MtCO₂e (milhões de toneladas de CO₂ equivalente). Embora o número ainda seja expressivo, o estado celebra uma tendência de queda iniciada após o pico histórico de 2022, impulsionada por uma redução drástica no desmatamento.
O perfil das emissões acreanas é o que especialistas chamam de “típico de fronteira florestal”. Isso significa que a maior parte dos gases de efeito estufa não vem de chaminés de fábricas, mas do chão: 74,8% das emissões decorrem da mudança de uso da terra e florestas (desmatamento), seguidos por 22,5% da agropecuária.
A “Montanha-Russa” das Emissões
A última década (2015–2024) foi marcada por oscilações severas. Entre 2019 e 2022, o estado viveu um aumento vertiginoso na perda de cobertura vegetal. Contudo, entre 2022 e 2023, o Acre registrou uma queda acentuada de 52% nas emissões líquidas. Esse recuo foi sustentado por uma redução de 70% na taxa de desmatamento em 2023.
Apesar do avanço, 2024 trouxe um alerta: o desmatamento voltou a subir 31,3%, totalizando 37,7 mil hectares derrubados. No ranking nacional de emissões líquidas, o Acre ocupa hoje a 17ª posição, mantendo-se em uma situação melhor que vizinhos como Rondônia (12º) e Mato Grosso (1º), mas ainda distante da performance do Amazonas e Amapá, que registram emissões líquidas negativas (removem mais carbono do que emitem).
Fogo: O Vilão Silencioso
O relatório aponta que o maior desafio atual pode não ser o corte raso da floresta, mas as queimadas. Em 2024, a área queimada no Acre saltou 15%, atingindo 309,4 mil hectares.
O uso do fogo está intrinsecamente ligado à pecuária: 69% das queimadas ocorrem para manejo ou consolidação de pastagens. O problema é que esses incêndios frequentemente fogem do controle e invadem florestas primárias. Em 2024, 31% da área atingida pelo fogo era de formação florestal, gerando uma degradação invisível que empobrece o solo e libera estoques massivos de carbono.
Pecuária e Agricultura: Desafios de Eficiência
O setor produtivo acreano enfrenta uma encruzilhada tecnológica. O estado possui um rebanho bovino de 5,19 milhões de cabeças (2,18% do total nacional), mas a eficiência ainda é um gargalo. A pecuária acreana emite, em média, 1,85 tCO₂eq por animal, índice superior à média brasileira (1,64) e à média da região Norte (1,82).
Na agricultura, o cenário é semelhante. Culturas como milho, mandioca e soja dominam o campo, mas a intensidade de emissões por hectare (2,44 tCO₂eq/ha) supera a média nacional (1,49 tCO₂eq/ha). Além disso, o produtor sofre com a “gangorra climática”: a alternância entre inundações severas e secas prolongadas desarticula o calendário de plantio e eleva os prejuízos.
O Caminho da Conservação
Para os especialistas do Anuário, o sucesso do Acre em conter a crise climática depende do Plano Estadual de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas. O foco agora deve ser o monitoramento em tempo real e o apoio técnico aos produtores para que adotem práticas de baixo carbono.
“Somente a integração entre o combate ao desmatamento e a gestão rigorosa do fogo pode evitar que os avanços obtidos sejam revertidos por eventos climáticos extremos”, conclui o relatório.
O Acre em Números (2024/2025):
Emissões Líquidas: 30,5 MtCO₂e
Setor Poluidor nº 1: Desmatamento (74,8%)
Perda Florestal (2015-2024): 670 mil hectares
Rebanho Bovino: 5,19 milhões de cabeças
Área Queimada (2024): 309,4 mil hectares (alta de 15%)
Setor de transportes é responsável por 96% das emissões setoriais de CO2, superando a média nacional; estado busca diversificar matriz energética para reduzir dependência externa.
O cenário energético e de transportes no Acre ainda é marcado por uma forte dependência de fontes externas e combustíveis fósseis, aponta o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas 2026. De acordo com dados do Observatório do Clima (SEEG) e da TEMA, o estado apresenta uma baixa diversificação em sua matriz, com uma capacidade de geração própria reduzida e uma participação de fontes renováveis locais ainda considerada pequena.
Embora a integração ao Sistema Interligado Nacional (SIN) tenha trazido maior segurança ao suprimento elétrico, o estado ainda utiliza a geração termelétrica fóssil como suporte. Especialistas indicam que o fortalecimento de fontes renováveis já implementadas, como a solar, é o caminho estratégico para reduzir emissões e ganhar eficiência econômica. Atualmente, o perfil de consumo é predominantemente urbano, servindo como suporte ao funcionamento econômico básico da capital e do interior.
Transportes: O gargalo das emissões
O setor de transportes aparece como um dos maiores desafios para a política climática acreana. O modo rodoviário domina as emissões de CO2e, respondendo por 96% do total do setor — índice superior à média brasileira, que é de 92%.
Dentro deste cenário, o transporte individual motorizado (carros e motocicletas) é o maior poluidor, representando 44% das emissões, seguido de perto pelas atividades de transferência (transporte de cargas intermunicipal e interestadual), com 42%.
A matriz de combustíveis no estado também destoa do panorama nacional: a participação de fontes renováveis no consumo energético dos transportes é de apenas 20%, enquanto a média do Brasil chega a 26%. O diesel, combustível fóssil de alta emissão, lidera o consumo com uma fatia de 42%.
Mobilidade Elétrica: Avanços e Limites
A transição para veículos eletrificados no Acre ainda dá os primeiros passos. A infraestrutura de recarga é classificada como incipiente: o estado conta com apenas um carregador rápido (DC) de acesso público, localizado em Rio Branco.
A frota de veículos eletrificados no estado possui a seguinte composição:
Híbridos (HEV): 42% (combinam motor a combustão e elétrico sem recarga externa);
Elétricos a bateria (BEV): 39% (movidos exclusivamente a eletricidade);
Híbridos Plug-in (PHEV): 19% (permitem recarga em tomada).
Para incentivar a migração, o Governo do Estado mantém a política de isenção de IPVA para veículos elétricos e híbridos. Contudo, o anuário destaca que, sem a ampliação da rede de carregadores e o fortalecimento da geração renovável local, o potencial de redução de emissões da frota elétrica permanece limitado, uma vez que a energia utilizada para recarregar os veículos ainda depende, em parte, de fontes não renováveis.
Panorama da Energia e Transportes no Acre (2025/2026)
| Indicador | Acre | Brasil (Média) |
| Emissões do Modo Rodoviário | 96% | 92% |
| Uso de Renováveis nos Transportes | 20% | 26% |
| Emissões: Transporte Individual | 44% | 39% |
| Infraestrutura de Carga Rápida (DC) | 1 unidade |

