Publicado em 11/05/2026
Foto: Andréia Oliveira
Por Alessandra Karoline
Em uma ação inédita para combater a invisibilidade social, o Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) coordenou uma expedição para chegar ao Seringal Remanso, no Núcleo de Base Sete Orquídeas. A localidade, situada a cerca de 74 quilômetros de Rio Branco, vive um cenário de abandono estatal que perdura por décadas, com famílias privadas de direitos básicos como educação, saúde e infraestrutura.
Liderada pela presidente do TCE-AC, conselheira Dulce Benício, a comitiva enfrentou dez horas de trajeto sob condições extremas, incluindo atoleiros e longas caminhadas a pé. A força-tarefa reuniu o secretário estadual de Educação, Reginaldo Prates, o secretário municipal de Saúde de Rio Branco, Rennan Biths, além de auditores, técnicos e apoio logístico do Corpo de Bombeiros e do Gefron.

Ao vivenciar as dificuldades de acesso enfrentadas diariamente pelos moradores, a conselheira Dulce Benício classificou a situação como inaceitável. Relatos colhidos no local indicam que pais sofrem pressões de órgãos de controle devido à evasão escolar dos filhos, embora o Estado não ofereça escolas na região.
“O que vemos aqui é uma extrema violação de direitos. Quem deveria garantir educação, saúde e dignidade não garante. Isso é um absurdo”, afirmou a presidente do Tribunal.
A ausência do Poder Público reflete-se em dados alarmantes e histórias de privação:
Educação: A escola local está desativada há mais de 21 anos. Crianças de 10 anos nunca frequentaram uma sala de aula, e jovens de 20 anos permanecem analfabetos.
Saúde: Sem postos ou atendimento médico, moradores relatam partos realizados em condições subumanas, debaixo de árvores ou em cocheiras. A vacinação infantil também é irregular devido ao isolamento.
Economia: Apesar da produção de castanha, borracha e farinha, o escoamento é impossibilitado pela precariedade do ramal, que desaparece durante o inverno amazônico.

A visita técnica resultou na assinatura de compromissos práticos para mitigar o sofrimento das mais de 400 famílias da região:
Educação: Início das aulas ainda em maio, em espaço cedido pela comunidade, até a construção de uma nova escola pela Prefeitura de Rio Branco.
Saúde: Envio periódico de equipes médicas itinerantes, com a primeira ação prevista para este mês.
Infraestrutura: Intermediação do TCE-AC junto ao Deracre para intervenções emergenciais no ramal, visando garantir a trafegabilidade mínima.
Para o secretário de Educação, Reginaldo Prates, a atitude do Tribunal de Contas de sair dos gabinetes para vivenciar a realidade local é “louvável” e essencial para que as políticas públicas deixem de ser teóricas e passem a ser efetivas nas áreas mais remotas da Amazônia.

