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domingo, 3 de maio de 2026
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IA, genoma, crise política e nas artes: as rupturas do século 21 que dissolveram nossa visão de mundo

Publicado em 03/05/2026
Por Philip Yang | Folha de São Paulo

Fundador do Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole) e conselheiro do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais)

[RESUMO] No início do século 20, quatro grandes rupturas (Revolução Russa, teoria da relatividade de Einstein, abstracionismo na pintura e dodecafonismo na música) alteraram a compreensão humana sobre o mundo, forjando a moldura intelectual e espiritual de um período de convulsão, com duas guerras mundiais. Cem anos depois, nos deparamos novamente com quatro grandes transformações (IA, edição genômica, crise das democracias liberais e fragmentação da autoria artística) que estremecem o modo como ordenamos a vida. Autor analisa o que podemos aprender com acertos e erros do século passado para construir uma sociedade mais livre e justa.

1) Introdução

Houve um momento, nos anos de universidade, em que me dei conta de que quatro grandes rupturas alteraram, quase simultaneamente, a relação entre o homem e o mundo. Concentradas no início do século 20, elas pareciam atingir os próprios fundamentos da existência humana.

Percebia, não sem espanto, que, tomadas em conjunto, essas revoluções —na política, na ciência e nas artes— configuravam um dos momentos mais densos da história contemporânea. Em menos de duas décadas, socialismo, relatividade, abstracionismo e atonalismo desestabilizavam, cada qual em seu campo, referências antes tidas como inabaláveis.

A revolução de 1917 na Rússia surgia quando Schoenberg levava às últimas consequências a crise da tonalidade, abrindo caminho para uma espécie de igualitarismo entre os 12 sons da escala cromática. Nas artes visuais, Kandinsky e Mondrian rompiam com a representação figurativa do mundo. Na física, Einstein redefinia a relação entre tempo e espaço, abalando uma das bases mais estáveis da cognição humana.

Ilustração de Adams Carvalho – Adams Carvalho

Em frentes distintas, referências organizadoras da vida ruíam. A propriedade privada, o tempo e o espaço absolutos, a figura como eixo da representação, a centralidade tonal deixavam de parecer fundamentos naturais ou necessários.

Essas transformações não se limitaram à esfera intelectual ou ao espaço interno das sociedades: também ajudaram a remodelar o horizonte geopolítico do século, abalando formas de representação e organização da experiência e as próprias bases sobre as quais se imaginava uma ordem internacional.

Aquela epifania juvenil talvez não fosse mais que uma intuição ainda informe, mas teve a persistência das ideias que permanecem.

O que elas produziram, além do que prometeram, é o tema deste ensaio.

2) Não um acaso — uma homologia

Seria fácil tratar a simultaneidade desses quatro eventos como mero acaso. Mas há algo mais preciso: uma homologia. Em todos os casos, um centro organizador —tido como natural, eterno ou indiscutível— foi posto em xeque.

Na política, esse centro era a propriedade privada; na ciência, o tempo e o espaço absolutos; na pintura, a figura; na música, a tonalidade. Em cada campo, havia uma hierarquia silenciosa.

Quase ao mesmo tempo, essa hierarquia cede. Einstein mostra que o tempo não é absoluto; Lênin materializa em revolução a crítica de Marx à propriedade privada como privilégio historicamente construído; Kandinsky e Mondrian libertam a pintura da obrigação de representar; Schoenberg emancipa os 12 sons da gravitação tonal.

Eles não precisavam se conhecer para fazer, em seus campos, a mesma pergunta radical: o que acontece quando nenhum elemento goza de privilégio natural sobre os demais? O que é uma composição sem tônica, uma sociedade sem proprietário, um tempo sem relógio universal?

Havia, naqueles anos, um terreno comum para esse paralelo. Nietzsche anunciara a morte de Deus; Bergson questionava o tempo vivido; Freud, a irrupção do inconsciente no coração do sujeito moderno. O positivismo do século 19, que prometera uma ordem racional e permanente do mundo, dava sinais de esgotamento. O zeitgeist tinha rosto, e revolucionários de campos distintos respiravam o mesmo ar.

3) Quatro revoluções e seus destinos

Toda revolução nasce como promessa e encontra, cedo ou tarde, a resistência do real: interesses estabelecidos, limites cognitivos, inércia institucional, efeitos imprevistos. As quatro rupturas do início do século 20 não foram exceção. Cada uma abriu espaços novos de possibilidade e viu esses espaços serem colonizados, ampliados ou desviados por forças que seus protagonistas não previram.

3.1) O socialismo: da utopia à burocracia

A Revolução Russa de 1917 foi uma das apostas mais audaciosas da história humana. Depois de séculos de czarismo, concentração extrema da riqueza e uma ordem agrária brutal, ela prometia não apenas mudar um regime, mas reorganizar a própria ideia de sociedade.

A revolução que prometera abolir a dominação terminou por reproduzi-la sob novas formas. Ainda assim, seria simplista reduzi-la a isso: sua promessa de igualdade, justiça social e superação da miséria exprimia um diagnóstico real das contradições do capitalismo industrial.

Mas construir uma nova ordem econômica em escala continental, sem precedentes históricos, exigiu centralização crescente. Isso gerou burocracia; a burocracia, opacidade; a opacidade, repressão; a repressão, uma nova classe dirigente.

Não faltaram apenas virtudes morais ou vocação democrática nos dirigentes. Faltou arquitetura institucional: transparência, correção de erros, circulação descentralizada de informação e limites ao poder.

A utopia igualitária esbarrou na dificuldade de coordenar sistemas complexos sem freios institucionais e sem processamento eficiente do conhecimento disperso e dos sinais de mercado. Nesse vácuo, o autoritarismo deixou de ser desvio e tornou-se forma de governo.

3.2) A física: do cosmos ao cogumelo atômico

Em 1905, Albert Einstein publicou os artigos que mudariam a física para sempre. Entre eles estava a relatividade restrita, cujo argumento central é simples de formular e vertiginoso de assimilar: não existe um tempo absoluto, idêntico para todos os observadores. Tempo e espaço não são recipientes fixos; dependem do movimento do observador.

Da mesma matriz teórica emergiu a fórmula mais célebre da ciência moderna: E = mc².

A física nascida do desejo de compreender a estrutura do universo revelou-se também capaz de produzir a arma mais devastadora já criada. Einstein, pacifista convicto, viveu sob o peso dessa contradição: em 1939, assinou a carta a Roosevelt que ajudou a desencadear o Projeto Manhattan, que culminaria na bomba atômica, e viveu o bastante para temer o que sua ciência ajudara a tornar possível.

Mas o destino da física moderna não se esgotou na bomba. A mecânica quântica revelou partículas em estados simultâneos e entidades separadas que permanecem entrelaçadas —e desse universo nasceram, por caminhos indiretos, os transistores e toda a infraestrutura da revolução digital.

3.3) O abstracionismo: geometria do espírito

Das quatro revoluções, o abstracionismo talvez seja a que mais pede explicação, porque seu gesto inaugural parece menos dramático, mais inofensivo.

Durante séculos, a pintura ocidental foi concebida como janela para o mundo: perspectiva, figura, profundidade, chiaroscuro. Romper com isso era mexer no próprio estatuto da arte e da imagem.

Havia ainda a pressão da fotografia, que passava a realizar com eficácia crescente o que a pintura fizera por séculos: registrar o visível. Se a máquina podia representar melhor, restava à pintura perguntar-se o que mais podia ser.

Kandinsky deu esse passo com plena consciência teórica: cor e forma, libertas do objeto, deveriam agir sobre a alma como a música.

Mondrian levou a ruptura ao extremo: reduziu a linguagem a linhas, ângulos retos e cores primárias e fez dela um princípio de organização do ambiente humano.

Na arquitetura, a mesma lógica produziu conquistas e excessos. A Bauhaus, escola de arte alemã, democratizou o design; mas, no espaço urbano, a geometria pura e a recusa do ornamento produziram cidades concebidas para o automóvel, não para a vida compartilhada.

Jane Jacobs documentou o dano: ao varrer a vida orgânica dos bairros em nome da ordem racional, o urbanismo modernista destruiu o que os tornava habitáveis. Mas a ruptura mais funda ainda estava por vir —não no espaço construído, mas na própria natureza da imagem.

3.4) O dodecafonismo: a revolução que criou um novo continente

Se o abstracionismo libertou a pintura do dever de representar objetos, o dodecafonismo procurou libertar a música de uma ordem tonal que estruturou a escuta ocidental por séculos.

A música ocidental organizava-se em torno da tonalidade: uma hierarquia entre as notas na qual uma delas, a tônica, funcionava como centro gravitacional. No final do século 19, Wagner, Scriabin e Debussy haviam levado essa linguagem ao limite da ambiguidade.

Schoenberg deu o passo seguinte: declarou que nenhuma nota tinha mais direito do que outra ao centro da obra. O compositor organizaria as 12 notas numa série —e essa série, não a tonalidade, passaria a fornecer a coerência interna da obra.

A ruptura não foi apenas técnica. Foi uma nova gramática da escuta. Sem a âncora da tônica, o ouvinte perdia o mapa cognitivo que orientara a experiência musical ocidental durante séculos. Não era um novo estilo — era um novo continente perceptivo.

Dentro do campo erudito, o legado foi extraordinário: Berg, Webern, Boulez, Nono e Ligeti construíram sobre aquela ruptura um repertório que redefiniu o horizonte da música de concerto. Mas a nova linguagem permaneceu inacessível às massas. A indústria cultural do século 20 consolidou outro universo —canção popular, jazz, rock, pop— que preservou a tonalidade.

Essa bifurcação entre vanguarda e massa não foi exclusividade da música. De modos distintos, todas as quatro revoluções do início do século 20 abriram um campo radicalmente novo para os que podiam acompanhá-las —e deixaram para trás o espaço mais vasto da experiência comum.

4) Limites cognitivos das rupturas? A moldura das catástrofes

As quatro revoluções não se desdobram num vazio. Foram a moldura intelectual e espiritual de duas Guerras Mundiais —e isso obriga a perguntar se havia entre elas e as catástrofes algo mais do que coincidência.

A Primeira Guerra irrompeu em 1914, no coração do período em que essas rupturas fermentavam. O front das trincheiras e o das vanguardas eram contemporâneos.

Não se trata de afirmar que as revoluções intelectuais causaram as guerras. Mas é difícil ignorar que o colapso das referências simbólicas —da tonalidade, da figura, do tempo absoluto, da ordem política tradicional— e o colapso da ordem geopolítica ocorreram no mesmo espaço temporal.

O sentido dessa causalidade sempre será debatido; o que parece inegável é que desorientação simbólica e desorientação política se reforçaram. Quando o chão simbólico desaparece, o chão político também cede. A desorientação coletiva fabrica líderes que prometem certeza, nostalgia de ordens perdidas, inimigos que expliquem o caos e violência como atalho para a reconquista de sentido.

O nazismo foi, entre outras coisas, uma tentativa delirante de restaurar hierarquias que a modernidade, pela democracia liberal e pelo igualitarismo socialista, buscava dissolver. A pureza da raça como substituto da certeza figurativa perdida. O führer como nota fundamental de uma sociedade que havia abandonado a tônica.

E vale especular, com cautela, sobre os limites biológicos e cognitivos da espécie diante de rupturas radicais.

Talvez a justiça social seja um horizonte plausível, mas a igualdade totalizante, uma abstração. Talvez o ouvido humano não disponha facilmente de aparato para escutar 12 sons sem hierarquia tonal. Talvez sociedades complexas não consigam organizar produção e distribuição sem mercado. Talvez o espaço-tempo, real como descrição do universo, não encontre equivalente em nosso aparato perceptivo.

Nada disso invalida as rupturas; sugere apenas uma diferença persistente entre o que a mente pode conceber e o que instituições e afetos conseguem habitar.

5) Rupturas do nosso tempo

Neste primeiro quarto do século 21, a estrutura reaparece. O presente reúne rupturas homólogas às do primeiro quarto do século passado, frentes múltiplas de desestabilização, mais ramificadas e interdependentes do que as de cem anos atrás.

Se o século 20 podia ser lido em quatro movimentos, o presente nos chega mais denso: IA, genoma, política e criação se entrelaçam. Há um espelho entre os dois séculos, distorcido e aumentado: o socialismo ecoa, por inversão, no declínio da democracia liberal; a física, no Crispr; o abstracionismo, na imagem sintética; o dodecafonismo, na IA e na dissolução da autoria.

5.1) A inteligência artificial

O advento da inteligência artificial generativa é a ruptura mais difícil de subestimar, pois dissolve a fronteira que o humanismo moderno supunha estável entre autor e ferramenta.

Durante séculos, a ferramenta foi passiva: o pincel não pinta, o violino não toca. A IA generativa perturba essa distinção e reabre perguntas sem resposta fácil: o que é autoria quando a criação pode ser delegada, assistida ou simulada? O que é originalidade quando um sistema treinado em quase toda a produção humana gera variações infinitas?

A pergunta que o dodecafonismo fazia à nota, a IA faz à autoria humana. Ela se desdobra em três dimensões: ganha corpo na robótica, dissolve o vínculo entre imagem e realidade e remodela, pelas redes sociais, os humores coletivos.

5.1.1) A IA encarnada: robótica e o corpo que a máquina ganhou

A dimensão mais concreta da revolução da IA não está nas telas, mas no espaço físico. A convergência entre IA e robótica produz sistemas que substituem ou ampliam capacidades humanas em tarefas antes dependentes de presença, habilidade e julgamento. O horizonte positivo é real: robôs cirúrgicos e sistemas autônomos já atuam com alta precisão em ambientes hostis.

Mas o mesmo sistema que opera numa estufa pode operar num campo de batalha. Drones autônomos, veículos não tripulados e sistemas de identificação de alvos por visão computacional obedecem à mesma lógica. A questão já não é só técnica nem ética individual: é de soberania e responsabilidade coletiva. Quem decide quando um robô pode matar? Por ora, ninguém decidiu.

5.1.2) Hiper-realismo sem realidade: o fim da ontologia da imagem

Durante um século e meio, a fotografia funcionou como garantia implícita: a imagem pressupunha um referente, um momento real capturado pela câmera. Podia-se manipular, enquadrar, mentir por omissão, mas algo precisava ter existido diante da lente. Esse pressuposto organizou o jornalismo, a evidência jurídica e a relação cotidiana entre ver e crer.

A IA generativa dissolve esse pressuposto. As imagens sintéticas de hoje geram uma hiper-realidade sem realidade. Rostos, cenas e vozes que nunca existiram tornam-se indistinguíveis do real. Trata-se da fabricação em escala industrial de imagens sem referente, distribuídas em plataformas em que a verificação chega sempre tarde.

Há aqui um eco invertido do abstracionismo: ali a ruptura era assumida; aqui, a imagem continua prometendo ser janela, mas essa promessa tornou-se estruturalmente inconfiável.

Só mais tarde eu perceberia que a literatura moderna, em Pound, já havia intuído algo semelhante: a fratura entre linguagem e mundo. Hoje, ela deixa de ser apenas forma e se torna conteúdo. Palavras e imagens, combinadas, passam a circular sem lastro confiável no real, mas com aparência de verdade, dando às “fake news” uma eficácia corrosiva até aqui inédita.

As consequências atravessam todos os campos. No político e no jurídico, a mentira ganha o rosto da evidência. No cotidiano, corrói-se a confiança básica no que se vê.

5.1.3) As redes sociais: a engenharia dos humores coletivos

As redes sociais operam sobre uma dimensão ainda mais sensível: a formação dos humores coletivos. O que nasceu como ferramenta de comunicação foi rapidamente convertido em máquina de engajamento. Algoritmos de recomendação aprendem que a emoção mais eficaz para manter o usuário conectado não é a alegria nem a curiosidade, mas a indignação.

Cada clique, pausa ou compartilhamento alimenta um modelo que aprende preferências e as radicaliza. O resultado não é apenas a polarização e a substituição gradual do espaço público por bolhas herméticas, nas quais cada grupo recebe confirmação contínua de suas crenças. Trata-se de algo ainda mais fundo: o modo como sociedades sentem, reagem e se reconhecem como coletividades.

Quando uma tecnologia modula humores em escala de massa, deixa de ser meio de comunicação e passa a reconfigurar o contrato social —não pela força nem pelo voto, mas pela pulverização da experiência comum.

Há ainda uma dimensão geopolítica mal equacionada. Plataformas digitais operam acima ou à margem das soberanias nacionais, influenciando eleições e agendas públicas em vários países. O contrato social deixa de ser apenas negociação interna entre governantes e governados: passa a ser atravessado por infraestruturas globais que nenhum Estado, isoladamente, consegue regular.

5.2) A edição genômica — Crispr

Nas ciências da vida, o Crispr/Cas9, reconhecido com o Nobel de Química em 2020, marca outra ruptura de primeira grandeza. Pela primeira vez, o genoma deixa de aparecer apenas como herança e destino e se torna objeto de intervenção deliberada. Cortar ou inserir sequências específicas de DNA em células vivas passa a ser tecnicamente possível com precisão sem precedentes.

Crispr-cas9, técnica de edição do DNA que pode mudar o mundo da biologia, medicina e agronomia

As implicações médicas são imensas: doenças genéticas que eram condenações perpétuas tornam-se potencialmente curáveis. Mas talvez o abalo mais profundo seja antropológico. Se o genoma é editável, a fronteira entre o que somos por natureza e o que escolhemos ser torna-se porosa.

5.3) O colapso das democracias liberais

No campo político, a homologia com 1917 existe por inversão. A Revolução Russa apostou que o Estado poderia suprimir o mercado e produzir igualdade radical. O século 21 apresenta o movimento contrário: a erosão das instituições que a democracia liberal ergueu para conter os excessos do mercado e do poder.

A eleição de Donald Trump, em 2016, sinalizou que essa erosão alcançara o coração histórico da democracia ocidental. Seguiram-se vitórias semelhantes no Brasil e na Europa Central e Oriental; partidos iliberais se tornaram forças decisivas, quando não governantes, em democracias antes consolidadas.

Esses movimentos compartilham uma gramática comum: hostilidade às mediações institucionais, fabricação do inimigo interno, personalização do poder em líderes que se apresentam como voz direta do povo contra elites corruptas. A corrosão de freios e contrapesos e a deslegitimação da imprensa e do Judiciário não são excesso retórico: são método.

Há aqui um paralelo incômodo com o destino do socialismo real. Assim como o experimento soviético expôs os limites de uma utopia incapaz de conter o poder que concentrara, o experimento liberal expõe hoje os seus: prometeu liberdade e prosperidade universais, produziu desigualdades corrosivas e não se reformou a tempo.

Em ambos os casos, o colapso da promessa abriu espaço para respostas que demoliriam o que restava do experimento. Quando toda voz parece valer o mesmo e desaparece a hierarquia epistêmica mínima, a promessa de democratização degenera em caos cognitivo, ambiente ideal para o autoritarismo.

5.4) A fragmentação da expressão artística e o paradoxo da autoria

Nas artes, a ruptura do presente não tem manifesto. A obra perde estabilidade: assume a forma de meme, remix ou circulação. A autoria torna-se instável, coletiva, às vezes anônima. Como antecipou McLuhan, a fronteira entre criador e público desaparece.

Essa fragmentação contém algo de libertador —a democratização das ferramentas de criação é real. Mas contém também uma perda: sem a resistência do meio e a disciplina técnica, a criação corre o risco de tornar-se apenas fluxo.

Diante disso, surgiram duas respostas contrárias: o mercado tentou, e por ora fracassou, restaurar tecnologicamente a escassez e a autoria via NFTs e certificação em blockchain; as práticas de criação colaborativa, no sentido oposto, dissolvem o autor em processos coletivos e anônimos.

A escolha entre as duas não é apenas estética. É a escolha entre insistir na ficção do autor soberano ou aprender a criar, e a responder, coletivamente.

Ilustração de Adams Carvalho – Adams Carvalho

6) O paralelo sombrio

Tomados em conjunto, esses processos constituem uma dissolução acelerada das referências sobre as quais o século 20 construiu, a tanto custo, uma ordem minimamente habitável.

Nessa condição, o diálogo não apenas se torna difícil; em muitos contextos, torna-se improvável. Estabelece-se uma linha curta entre algoritmos e canhões: conflitos ficam mais fáceis de acender e mais difíceis de encerrar, pela erosão da empatia mínima e pela disseminação industrial de narrativas de desumanização.

O mundo assiste ao ressurgimento de uma rivalidade estrutural entre grandes potências —desta vez, Estados Unidos e China—, que reencena, em outro registro, a lógica do confronto Leste-Oeste.

A guerra na Ucrânia, o conflito em Gaza e o risco de escalada no Oriente Médio tendem a ser absorvidos como guerras por procuração (conflitos locais atravessados pela disputa entre grandes potências). A isso se somam o rearmamento global, o uso unilateral da força pelos EUA e a ascensão de líderes que constroem poder sobre a destruição do tecido institucional.

A moldura se repete, não de modo idêntico. Mas as estruturas de risco são análogas o bastante para que a analogia deixe de ser acadêmica e se torne urgente.

7) O que podemos fazer —e por que ainda vale tentar

As rupturas do século 20 ensinam que o mesmo período que gestou as guerras gerou também ferramentas para pensá-las. A psicanálise ajudou a compreender os mecanismos do autoritarismo; a física que produziu a bomba produziu também físicos que lutaram contra seu uso irrestrito; a revolução soviética gerou dissidentes.

A questão, portanto, não é se as rupturas são boas ou más. A questão é quem as conduz, com que intenção e a serviço de quê —e se existem instituições e pessoas capazes de impor direção onde hoje há deriva.

Há, porém, uma constante: a tendência oligárquica do poder. Lênin suprimiu a propriedade privada, mas criou a nomenklatura; as plataformas digitais prometeram democratizar a informação e acabaram por produzir nova plutocracia.

A promessa de emancipação foi sempre capturada por nova elite. A questão é se esta rodada de dissolução de referências, mais veloz e radical, romperá essa constante, ou se o novo chão será colonizado antes que forças democráticas o habitem.

A pergunta decisiva não é apenas como regular a IA, mas se ela pode descolonizar o político. Por ora, o movimento é o oposto: a mesma tecnologia que poderia redistribuir conhecimento e tornar o Estado mais legível ao cidadão está sendo construída por forças que colonizam desde cedo os novos territórios. A concentração de capacidade computacional em meia dúzia de corporações exprime essa tendência no único chão ainda parcialmente aberto.

Governança importa como meio. O AI Act europeu, o código aberto e a auditoria independente podem manter esse território aberto o tempo suficiente para que outros atores, sociedades e Estados, aprendam a habitá-lo antes que a colonização se complete.

Trata-se de uma corrida contra o tempo. O obstáculo mais grave não é técnico, mas político: o descompasso entre potência tecnológica e consciência coletiva se desenrola numa ordem internacional em deterioração. Não há regulação nacional que alcance plataformas globais sem cooperação multilateral; não há contenção de tecnologias destrutivas sem Estados dispostos a ceder soberania em nome de segurança comum.

É por isso que a responsabilidade recai com mais peso sobre quem age sem esperar permissão estrutural: cientistas dispostos a responder pelas consequências do que descobrem, tecnólogos capazes de construir alternativas, legisladores que balizem o interesse público, cidadãos que exijam transparência, cidades que reaprendam a ser espaços de dissenso visível e convívio habitável —e intelectuais que nomeiem o que o poder prefere deixar sem nome.

O fascínio de juventude diante da homologia entre Schoenberg, Lênin, Mondrian e Einstein era fascínio pela capacidade humana de romper com o que parecia eterno. Essa capacidade em nada mudou.

O desafio do nosso tempo não pode se limitar a frear a captura, deve produzir rupturas de outra natureza: rupturas em código aberto, que dispersem poder e devolvam à sociedade a capacidade de compreender, disputar e reformar as estruturas que a governam.

Não se trata apenas de administrar o dano, mas de reabrir um futuro democratizante e desoligarquizante, em que o poder volte a ser visível, disputável e transformável.

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