Publicado em 04/04/2026
PLATAFORMA - Gilberto Kassab com o ex-governador de Goiás: discurso focado na área de segurança e no antipetismo (Tom Zé Fonseca/Estadão Conteúdo/.)
No campo da esquerda, pela primeira vez desde a redemocratização, Lula se consolida como o único nome na disputa presidencial
Por Pedro Jordão e Isabella Alonso Panho | VEJA
Na tarde da segunda-feira 30, o então governador de Goiás, Ronaldo Caiado, chegou à sede do PSD de São Paulo, no centro da cidade, acompanhado da mulher, dos filhos, do presidente da legenda, Gilberto Kassab, e de alguns poucos filiados e militantes para anunciar sua pré-candidatura à Presidência da República em 2026. Essa é a segunda vez que o fazendeiro e médico de formação almeja ocupar o Palácio do Planalto. A primeira foi em 1989, na primeira disputa presidencial após o fim da ditadura, quando se apresentava como o candidato da direita ruralista e teve apenas 1% dos votos. Seu desempenho era tão modesto que, durante um debate na televisão, o também candidato Lula se recusou a direcionar uma pergunta para Caiado, dizendo que só o faria quando ele superasse 1,5% nas intenções de voto. Nesse aspecto, o desafio político do goiano nascido em Anápolis não mudou tanto: atualmente, ele tem cerca de 4% dos votos nas pesquisas. Para dificultar ainda mais sua missão, terá de disputar os mesmos votos que outros quatro potenciais candidatos de direita. Um deles, Flávio Bolsonaro (PL), graças ao apoio do pai e ex-presidente Jair Bolsonaro, está muito à frente dos demais nas pesquisas.
A escolha de Caiado para representar o PSD nas urnas vem depois de várias semanas nas quais Kassab difundiu a promessa de que ofereceria uma alternativa à polarização entre lulismo e bolsonarismo nas eleições deste ano. Depois que sua primeira opção, o governador Ratinho Junior, do Paraná, desistiu do páreo, Kassab decidiu-se por Caiado em razão do desempenho dele nas pesquisas, que é levemente superior ao do governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, o terceiro nome na disputa interna.
Com isso, o PSD deixa de se posicionar como uma força de centro-direita na corrida ao Palácio do Planalto e passa a se acotovelar por espaço em um terreno eleitoral no qual o bolsonarismo tem domínio quase absoluto. O discurso de Caiado, aliás, é muito parecido com o de Flávio em todos os temas, da segurança pública à pauta de costumes, do antipetismo à acusação de que o Brasil não vive um Estado democrático pleno. A proximidade de Caiado com o bolsonarismo não é de agora. Ele esteve no palanque do ex-presidente em várias manifestações nos últimos anos e, no anúncio de sua candidatura, disse que pretende conceder indulto para tirar da cadeia Bolsonaro e os condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.
Em seus quase quarenta anos de vida pública, Caiado foi deputado federal por cinco mandatos e senador por um. Como governador (deixou o cargo na terça-feira), desfrutou de uma taxa de aprovação de 82%. O problema para ele é ganhar projeção nacional em um contexto de congestionamento de pré-candidaturas de direita. Nos bastidores do próprio partido, já há quem fale da possibilidade de a candidatura não vingar caso não atinja nos próximos meses pelo menos dois dígitos nas pesquisas, algo que o próprio Caiado obviamente nega, dizendo que Kassab assumiu um compromisso com ele.

A direita fracionada que irá às urnas tem, além de Caiado e Flávio, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), o empresário Renan Santos (Missão), um dos líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), e o ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo (DC). Caiado, Zema, Renan e Aldo somam apenas 10% das intenções de voto no primeiro turno (veja o gráfico). Essa proliferação de pré-candidaturas de direita, capazes de roubar alguns pontos percentuais de Flávio no primeiro turno, ocorre porque o senador não tem a mesma força de aglutinação política do pai. Além disso, alguns dos nomes do segundo pelotão da direita na disputa usam as candidaturas para ganhar musculatura política para o médio e o longo prazo. “Isso permite que eles negociem apoio a Flávio no segundo turno ou se posicionem para 2030, quando Lula estará fora”, diz Eduardo Grin, cientista político da FGV-SP.
O primeiro turno da eleição presidencial tende a funcionar, assim, como uma grande primária informal da direita brasileira, como já ocorreu em cidades como São Paulo, Curitiba e Goiânia nas últimas eleições municipais. Há riscos e vantagens diante desse quadro fragmentado. Se essas candidaturas da direita competirem entre si de forma predatória, atacando umas às outras, enfraquecerão esse campo político como um todo e entregarão vantagem a Lula. Se houver coordenação, união de estratégias e foco no adversário principal, a diversidade ampliará o alcance da direita no eleitorado. “O cenário se aproxima muito do que vimos nas eleições do ano passado no Chile, onde diferentes correntes da direita disputaram o primeiro turno e, no segundo, houve recomposição em torno do candidato mais competitivo contra o campo progressista, o que facilitou a vitória da candidatura de oposição, do campo conservador”, diz Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB). Segundo o especialista, o que pode unificar essas candidaturas é o discurso baseado na ordem, na crítica ao sistema, na moralidade e na promessa de mudança calcada em valores. Se essa pluralidade de candidaturas conseguir explorar os pontos negativos da campanha governista no primeiro turno, a direita entra mais competitiva no segundo. “Caso contrário, o congestionamento de candidaturas pode virar vantagem para quem já entra na disputa com maior unidade”, diz Medeiros.
Os eleitores podem ter certeza de uma coisa: haverá, entre esses candidatos, uma competição para ver quem consegue se apresentar como o mais antipetista. Caiado bateu bastante nessa tecla no lançamento de sua pré-candidatura: “Nós ganhamos do PT em 2018, depois ele voltou (à Presidência). Podemos voltar a ganhar. Não é difícil ganhar do PT. No segundo turno, ele estará batido. O difícil é governar para que o PT não seja mais uma opção para o país”. Romeu Zema, que pontua próximo ao goiano nas pesquisas, é outro que sempre inclui ataques ao partido de Lula em seus discursos, geralmente com ênfase em aspectos econômicos para se vender como uma alternativa à direita mais próxima do empresariado e do pensamento liberal. Há muitas especulações sobre uma possível aliança entre Flávio e Zema no primeiro turno, com o mineiro ocupando a vaga de vice. Isso reforçaria o palanque do Zero Um em um estado decisivo para a corrida ao Palácio do Planalto. Por enquanto, não há nada de concreto nessa direção. Nos bastidores, dirigentes do PL atribuem a boataria à turma de Zema. Em Minas, aliados do governador dizem que é justamente o contrário disso.
Enquanto isso, tanto Zema quanto Caiado precisam ficar atentos para o possível crescimento da pré-candidatura de Renan Santos, do Missão. Em algumas pesquisas, ele chega a superar os dois governadores. Renan, conhecido por integrar o movimento dos jovens de então que foram às ruas para pedir o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, se posiciona como um ultraliberalista ao estilo do presidente argentino, Javier Milei. Membro de uma geração que surfa com êxito nos algoritmos das redes sociais, ele é o único que descarta apoiar o filho de Jair Bolsonaro em um eventual segundo turno. “Flávio é um bandido, assim como Lula”, afirma. Já Aldo Rebelo, que foi filiado ao PCdoB por mais de trinta anos e comandou ministérios nos governos Lula e Dilma, mas aproximou-se de Jair Bolsonaro e outras lideranças de direita a partir de 2024, apresenta-se como independente no campo da direita e corre na lanterna das pesquisas eleitorais.
No campo da esquerda, pela primeira vez desde a redemocratização, Lula se consolida como o único nome na disputa presidencial. Em outros pleitos, houve uma pluralidade de nomes de esquerda ou de centro-esquerda, como Ciro Gomes, Marina Silva, Eduardo Campos (que morreu em um acidente aéreo durante a campanha), Eduardo Jorge, Heloísa Helena, Cristovam Buarque e, em 1989, Leonel Brizola. Todos eles disputaram contra o PT, fosse na figura de Lula, Dilma Rousseff ou Fernando Haddad.
Esse monopólio de Lula no campo da esquerda na disputa deste ano é fruto de dois fatores. O primeiro é a formação de alianças nesse campo, cujo objetivo era garantir uma base de apoio mais robusta para o governo, mas que tem como efeito um desincentivo ao lançamento de candidaturas alternativas. O segundo é a própria postura do presidente. “Lula não faz nenhuma questão de que cresçam outras lideranças enquanto ele estiver na cena política, e outros partidos do campo da esquerda não se dispõem a enfrentá-lo”, diz Eduardo Grin. Como resultado, se o cenário atual se mantiver, Lula não correrá o risco de ter que dividir votos, mas precisará enfrentar vários adversários à direita dispostos a conquistar o eleitorado com um forte discurso antipetista.

