Entre as eleições de 2022 e a deste ano, mais de uma centena dos nossos congressistas trocaram de partido.
Bastaria esta afirmação para revelar a irrelevância dos nossos partidos políticos. Afinal de contas, sendo exigido de todo e qualquer candidato que ele esteja filiado a um determinado partido — do contrário, a nossa Justiça Eleitoral não reconhece sua candidatura —, nada justifica que, passadas as nossas últimas eleições, os eleitos tenham se evadido dos partidos através dos quais foram eleitos. E o mais inaceitável: levando consigo os seus próprios mandatos. Em tempo: a grande maioria desses trânsfugas foi eleita graças aos votos de legenda dos partidos dos quais decidiram se evadir.
Das duas, uma: ou a nossa democracia acaba com esta libertinagem ou esta, por si só, desmoralizará a nossa própria democracia, posto que lesados serão os eleitores que confiaram seus votos a candidatos que, visando tão-somente a seus interesses, acabam trocando de partido.
No nosso país nunca foi praticada e tampouco exigida a fidelidade partidária dos seus filiados, em particular dos detentores de mandatos, e disso decorre a fragilidade do nosso sistema político-partidário. Por exemplo: dois dos nossos figurões políticos em atividade, tanto Ciro Gomes quanto Jair Bolsonaro, já foram filiados a mais de dez partidos políticos. Pior referência, ou mais precisamente, piores exemplos jamais poderíamos expor.
Nas democracias que verdadeiramente se prezam, politicamente, os seus cidadãos se aproximam e se aliam em razão dos programas dos seus respectivos partidos; mas, como no nosso país os nossos partidos não se dão ao respeito, para a satisfação dos nossos potenciais trânsfugas partidários, até uma janela para se evadirem dos seus partidos veio a ser aberta e legalizada. Reporto-me à tal janela partidária, que, na sua mais recente abertura, possibilitou a evasão de mais de uma centena dos nossos congressistas.
A nefasta polarização lulismo/bolsonarismo, ora em curso, decorreu da desmoralização dos nossos próprios partidos políticos e, para provar que sim, bastaria tomarmos como referência o PSD, mais conhecido como o partido do Kassab. A propósito, já em sua origem, o dito-cujo chegou a pregar que ele não seria de esquerda, nem de centro e nem de direita.
Dito e feito, afinal de contas, seus partidários encontram-se acomodados nas correntes políticas que melhor atenderem aos seus interesses eleitoreiros. Vide a malsucedida candidatura do ex-governador Ronaldo Caiado e seus miseráveis 3% de aceitação popular.
Lá das Minas Gerais, o seu ex-governador Romeu Zema, a despeito do seu comportamento anti-Lula ao longo de toda a sua fracassada candidatura presidencial, está correndo o sério risco de não alçar a votação que será obtida pelo candidato do recém-criado “Missão”, Renan Santos, cuja candidatura tem tudo a ver com o nosso bagunçado sistema partidário.

