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sábado, 28 de março de 2026
O RIO BRANCO
Política

‘PT envelheceu e não há gente nova dizendo não para Lula’, diz biógrafo

Publicado em 28/03/2026

Por Adriana Negreiros Do UOL, em São Paulo

Nas mais de 20 viagens internacionais que fez com Lula para entrevistá-lo, o escritor Fernando Morais ouviu do presidente relatos de uma intimidade que, por vezes, soavam desconcertantes. Nessas horas, alertava-o de que estava ali como jornalista, empenhado em coletar informações para os livros que escreveria, e não como amigo. Os dois se conhecem há cerca de 50 anos e têm quase a mesma idade — Morais, 79; Lula, 80.

Tudo o que ele lhe contava, advertia Morais, poderia ser usado na biografia.

A reação de Lula mediante o lembrete era sempre a mesma: “Fernando, você cuida da porra do seu livro e eu cuido da porra da minha vida”.

A história não está no segundo volume da biografia “Lula”, recém-lançada pela Companhia das Letras (352 páginas; R$ 89,90, livro físico, e R$ 39,90, e-book), mas é contada por Morais para reforçar um traço do personagem que ele constrói no livro: um homem espontâneo, que diz palavrões e age por impulso.

“Do contrário seria um Lula de bronze montado a cavalo na praça, e o leitor gosta de gente”, diz Morais.

Com o segundo volume, que acompanha Lula de 1982 a 2002, Fernando Morais considera encerrada a biografia do “operário que chegou à Presidência”. Falta ainda a do presidente, que constará do terceiro volume, ainda sem data para lançamento.

Aos 80 anos, cercado por aliados e assessores que não ousam discordar dele, Lula entra na sua última disputa presidencial com uma diferença marcante do líder que Morais apresenta em seu novo livro — um político que detestava o isolamento e tinha no entorno gente disposta a lhe dizer não, ainda que ele costume “espernear” quando contrariado, como revela o biógrafo.

Uma exceção apontada por Morais é o ex-deputado federal José Dirceu, que nem no governo está.

“O PT envelheceu e essa geração nova tem no Lula uma figura muito reverencial”, diz o biógrafo.

Fernando Morais lança o segundo volume da biografia Lula, pela Companhia das Letras Imagem: Daniela Toviansky – 23.mar.26/UOL

Nessa entrevista ao UOL, Fernando Morais afirma que Lula precisou “vencer o PT” para se firmar como um político conciliador — exemplo desse seu caráter, diz, foi a aproximação com o ex-governador do Ceará Tasso Jereissati, então presidente nacional do PSDB, com quem planejou formar uma chapa para concorrer à Presidência em 1994.

Também chama a atenção para um aspecto revelado no livro: ao longo de sua trajetória, Lula não conseguiu formar herdeiros de seu projeto político.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Dos que dizem não, só sobrou Dirceu

Na biografia, Fernando Morais descreve situações em que Lula é confrontado por seus interlocutores no PT — hoje, afirma, o presidente não conta mais com aliados dispostos a apontar seus erros.

“Desse anel político que cercava o Lula e tinha coragem de dizer não para ele, só sobrou o [ex-deputado federal] José Dirceu. É o único que continua dizendo não para o Lula quando acha que tem que dizer.”

“O [ex-deputado federal] Luiz Gushiken, que infelizmente morreu, era uma referência muito forte disso. Era um quadraço político, capaz de dizer “Lula, não faz isso que é besteira, você está indo para o caminho errado”.”

“E tem uma coisa curiosa: às vezes, o Lula esperneia muito. São dois traços que aparecem nesse livro. O primeiro é que ele esperneia quando é contrariado. Mas, muitas vezes, acaba aceitando a sugestão que não engoliu primeiro.”

“Ele tem uma absoluta incapacidade de perder uma eleição. Entra em depressão profunda. Todas as vezes em que perdeu [foram três derrotas na disputa presidencial: 1989, 1994 e 1998], a primeira decisão dele é a seguinte: ‘Não volto mais, não brinco mais. Não quero mais participar, não vou ser candidato’. Todas as vezes, acabou voltando.”

“O partido envelheceu. Não há gente nova dizendo não para o Lula. Essa geração nova que chegou ao PT tem nele uma figura muito reverencial. Esse povo não conviveu com o Lula em porta de fábrica, e sim com o Lula presidente da República, o que já dificulta um pouco dizer: ‘Meu caro, você está errado’.”

Na parede do escritório, uma caixa de charutos cubanos, presente de Lula (à esq.) e um bilhete do líder cubano Fidel Castro a Morais, em 1977: desejo de “maiores êxitos” ao “jovem e brilhante” escritor Imagem: Daniela Toviansky – 23.mar.26/UOL

A falta de herdeiro político

Ao longo da trajetória como líder político, Lula não conseguiu formar quadros que possam sucedê-lo, avalia Morais. O escritor afirma, porém, que essa é uma preocupação atual do presidente.

“Era óbvio que havia três herdeiros: Dirceu, Gushiken e o [ex-ministro] Antonio Palocci. O Gushiken morreu, Palocci saiu pela porta dos fundos, sobrou Dirceu. Mas é difícil imaginá-lo como herdeiro do Lula tendo hoje 80 anos. Então há uma preocupação do Lula em rejuvenescer e refrescar o partido.”

“Um exemplo é a vereadora de São Paulo Luna Zarattini [a mais votada na história do PT]. O plano dela era esperar para ser candidata a prefeita de São Paulo nas próximas eleições. Lula já a orientou a ser candidata a deputada federal.”

“A mesma coisa com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Moisés Selerges. Há muito tempo não aparece uma liderança sindical disputando a eleição. Ele vai ser candidato a deputado federal.”

“Há uma preocupação dentro do partido. No livro, dá para ver claramente que as pessoas vão passando, que não surgiu uma geração de herdeiros do Lula.”

“Curiosamente, Lula cobrava muito isso do [então presidente da Venezuela] Hugo Chávez. Dizia: ‘Você vai morrer um dia, eu vou morrer um dia, nós todos vamos morrer um dia. Tem que pensar em quem vai te suceder’. Deu o que deu na Venezuela.”

O escritor Fernando Morais gesticula durante entrevista em seu escritório em São Paulo, com estatueta do líder chinês Mao Tse-Tung ao fundo Imagem: Daniela Toviansky – 23.mar.26/UOL

O lado negociador

A ideia de um Lula “paz e amor” em contraposição à do líder radical é uma construção midiática, segundo Fernando Morais. Ele afirma que o presidente sempre teve espírito conciliador, mas não pôde manifestá-lo desde a eleição de 1989 devido a resistências no PT.

“Não é uma casualidade que Lula tenha sido formado na luta sindical. Durante o dia, punha 150 mil pessoas no estádio de Vila Euclides [em São Bernardo do Campo]. De noite, era obrigado a ir para Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] negociar com os patrões.”

“Esse lado dele de dar porrada no Trump e depois fazer as pazes não tem novidade nenhuma. Esse Lula negociador, que é capaz de distribuir patadas e depois abraçar, soprar e morder ao mesmo tempo é o Lula verdadeiro.”

“O retrato do Lula radical, do porra-louca, que distribuía patada para todo lado é um traço do Lula. O Lula verdadeiro é esse Lula que negocia.”

“Até hoje, ele dá a impressão de que leva a sério o seguinte conselho do [economista] Celso Furtado [morto em 2004]: ‘Lula, aprenda a conviver com a extrema esquerda, porque é ela que permite que a gente não vá muito para extrema direita’.”

“Dentro do PT, Lula convive com tendências de extrema esquerda que fazem e dizem o diabo dele.”

Escritório do escritor Fernando Morais no bairro de Higienópolis, em São Paulo Imagem: Daniela Toviansky – 23.mar.26/UOL

A chapa que uniria PT e PSDB em 94

O segundo volume da biografia de Lula revela os bastidores de uma negociação que poderia ter resultado na aliança PT-PSDB na Presidência: uma chapa formada por Lula e pelo então presidente nacional dos tucanos, o cearense Tasso Jereissati.

“Se dependesse mais dele e menos do PT, Lula teria manifestado isso [o espírito conciliador] na primeira e na segunda eleição [1989 e 1994]. Ele só conseguiu vencer o PT na terceira eleição [2002], quando chamou o [empresário] José Alencar [então no PL] para ser companheiro dele.”

“Isso talvez tivesse permitido que ele ganhasse a eleição do Fernando Collor em 1989, em vez de fazer uma chapa puro sangue [o vice foi José Paulo Bisol, do PSB]. Então, quando descobri que ele tinha mantido um namoro secreto com o Tasso, em 1994, fui atrás do assunto.”

“Os dois tinham encontros secretos, tiveram um almoço no restaurantezinho vagabundo que tem perto do Instituto Lula [em São Paulo], na maior moita. Tasso não queria, mas acabou falando comigo sobre a dobradinha. Era Lula presidente e Tasso vice, já estava montado. Eles trocavam bilhetinhos. Tenho uma foto da agenda do Lula: almoço com Tasso Jereissati.”

“Paralelamente, Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda de Itamar Franco, veio com o Plano Real, que passou que nem um caminhão. Como escrevo no livro, o casamento entre Lula e Tasso não morreu de morte morrida, mas de atropelamento. Foram atropelados por um caminhão sem freio, pilotado pelo FHC.”

“Se Lula tivesse feito aquela aliança com Tasso, já teria se vacinado contra os preconceitos do mercado e da elite. Isso teria mudado a história do Brasil.”

Fernando Morais usa meias de morcegos durante entrevista em São Paulo; na parede, foto de Chávez Imagem: Daniela Toviansky – 23.mar.26/UOL

US$ 50 mil para Lula, US$ 5 milhões para Collor

Ao ouvir histórias de Lula, algumas delas engraçadas, Morais preocupou-se em não transformar o livro em um “conjunto de anedotas”, como a que envolve o banqueiro Joseph Safra (1938-2020), que era o homem mais rico do Brasil.

“Em 1989, Safra se encanta com Lula e faz uma doação de US$ 50 mil para a campanha. Era a maior doação que a campanha tinha recebido.”

“Foi uma alegria no comitê de campanha, abriram uma garrafa de champanhe nacional para celebrar. Aquela era uma campanha miserável, franciscana, que tinha como único bem um caminhão do Palocci em Ribeirão Preto (SP).”

“Muitos anos depois, quando Lula já era ex-presidente, ele encontrou Safra, que disse a ele: ‘Saí do encontro com você, fui encontrar o Fernando Collor e doei US$ 5 milhões para ele’.”

Detalhe da mesa do escritor Fernando Morais em seu escritório no bairro de Higienópolis, em São Paulo Imagem: Daniela Toviansky – 23.mar.26/UOL

3º mandato não deve ser biografado

No terceiro volume da biografia de Lula, Morais pretende descrever a trajetória do petista entre o primeiro governo (2003-2006) e a vitória sobre Jair Bolsonaro (PL), em 2022. Não tem planos de descrever o terceiro e um eventual quarto mandato — que, na sua avaliação, definirá, caso ocorra, como Lula entrará para a história, em comparação com o ex-presidente Getúlio Vargas (1882-1954).

“Acho que nossos tataranetos, quando olharem para esse período, vão ver o Lula como figura mais expressiva do que Getúlio Vargas. E isso quem está falando é um getulista.”

“Estamos na iminência de tê-lo diante do quarto e último mandato. É esse mandato que vai determinar se ele vai entrar para a história pela porta da frente.”

“Hoje, se desistir de ser candidato, Lula já faz parte da história do Brasil. De igual para igual com Getúlio Vargas, talvez com mais relevância.”

“Mas estou convencido de que, se ele for reeleito presidente, é esse mandato que vai determinar a porta da história pela qual ele vai entrar.”

 

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