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quarta-feira, 3 de junho de 2026
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ONG ligada a Dark Horse recebeu R$ 1 mi de Frias, mas projeto não avançou

Publicado em 03/06/2026

O Instituto Conhecer Brasil, comandado por Karina Ferreira da Gama, produtora do filme Dark Horse, recebeu emenda parlamentar de R$ 1 milhão do deputado Mario Frias (PL-SP) para executar um programa de empreendedorismo no interior de São Paulo. O projeto, no entanto, ainda não saiu do papel.

O que aconteceu
Deputado indicou verba para ONG em 2024 para criar o projeto “Jovens Empreendedores” em Pirassununga. A proposta era a implementação de uma metodologia de letramento digital e empreendedorismo para estudantes do 4º e 5º ano do ensino fundamental de escolas públicas municipais.

Diretores de escolas municipais e moradores da cidade afirmaram ao UOL que nunca ouviram falar do projeto. Os educadores, que preferiram não se identificar, também dizem desconhecer o ICB. Eles ressaltaram que já existe um programa de empreendedorismo nas escolas da rede municipal implementado pelo Sebrae, sem qualquer relação com o ICB.

Kayo Azevedo, o responsável técnico do projeto, diz que as atividades não aconteceram. Segundo ele, Karina informou há cerca de dois anos que o programa não seria realizado em Pirassununga e, desde então, não voltou a fazer contato. “Eu iria executar o projeto aqui na cidade, mas acabou não acontecendo nada”, disse Kayo, que é irmão de Raphael Azevedo, ex-chefe de gabinete de Mario Frias.

Antes de receber os recursos, a ONG apresentou ao Ministério da Ciência um plano de trabalho. No documento, um centro comunitário do bairro Jardim Redenção aparece como sede do projeto, mas o texto não deixa claro se as aulas ocorreriam nesse local ou nas escolas públicas.

A Prefeitura de Pirassununga cedeu o centro comunitário ao ICB em novembro de 2024. O acordo tinha duração de 12 meses, mas o UOL apurou que não houve nenhuma atividade relacionada ao projeto no espaço.

A prefeitura da cidade informou que não tem registros relacionados à execução do Jovens Empreendedores. Em nota, disse que só pode se posicionar oficialmente acerca de programas, projetos ou ações que tenham sido formalmente recebidos, pactuados, executados ou acompanhados pelos órgãos municipais competentes.

Prestação de contas incompleta e repasse a advogado de Frias

Com os recursos da emenda parlamentar, o ICB subcontratou sete empresas. Entre elas está a LP Consulting, que pertence ao advogado de Mario Frias, Fabio Lago Meirelles, e funciona no mesmo edifício da ONG. Segundo a nota fiscal apresentada na prestação de contas, o instituto destinou R$ 80 mil à empresa por serviços de contabilidade e assessoria jurídica.

O ICB também apresentou notas referentes à compra de livros e materiais didáticos, além de pagamento de R$ 50 mil em publicidade. A empresa contratada é a MM7, cujo dono é Marcelo Machado, que integra a diretoria de outra ONG presidida por Karina. O plano de trabalho previa a divulgação do projeto em redes sociais, com publicações regulares, newsletters, uma coletiva de imprensa virtual e parcerias com influenciadores. A reportagem, porém, não encontrou registros dessa divulgação.

Apesar dos gastos declarados, a ONG não apresentou documentos que comprovem a execução do projeto. Não foram entregues relatórios de atividades, listas de presença dos alunos nem registros fotográficos das ações realizadas, que são exigidos no termo de fomento assinado antes da liberação dos recursos. O prazo para prestação de contas da emenda terminou em abril e, até o momento, o instituto só apresentou as notas fiscais.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação diz ter notificado o ICB para que apresente a documentação necessária. Em nota, a pasta informou que, durante a avaliação técnica preliminar, identificou a necessidade de detalhamento das ações executadas e solicitou complementações à entidade. “O MCTI reitera que o processo segue os ritos rigorosos de auditoria interna e que eventuais irregularidades serão devidamente apuradas ao longo desta fase de análise da prestação de contas.”

Nos últimos dois dias, o ICB fez alterações em seu site. A entidade incluiu uma seção dedicada ao projeto Jovens Empreendedores, com uma imagem dos materiais do programa produzida por inteligência artificial e um link para a suposta plataforma digital do projeto, na qual é preciso login e senha para entrar. O instituto também publicou em seu canal no YouTube um vídeo com imagens do projeto geradas por IA.

O UOL tentou contato com Karina da Gama e enviou questionamentos por meio de sua assessoria, que não respondeu. Mario Frias, que também é produtor de Dark Horse, foi procurado e não se manifestou. O espaço segue aberto.

Investigações no STF e Polícia

Endereços do ICB e de Karina foram alvo de operação da Polícia Civil de SP na segunda-feira. A ação ocorreu no âmbito da investigação sobre irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de wi-fi em comunidades. O inquérito apura se os recursos foram desviados para o filme Dark Horse.

á as emendas destinadas por Mario Frias ao ICB são alvo do STF. O ministro Flávio Dino abriu processo para apurar se os recursos foram para a cinebiografia de Bolsonaro.

Ao STF, o deputado negou que os recursos tenham financiado o filme. Ele disse que as emendas se encontram “em fase de execução” e que a prestação de contas será realizada pelo ICB.

UOL

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