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Entre Bêbados e Loucos: Saliza transforma vivências em manifesto poético e político na UFAC

Publicado em 24/03/2026

Por Ádrya Miranda

O que acontece quando a pesquisa acadêmica encontra a urgência da vida? Para a artista e pesquisadora Saliza, o resultado é o espetáculo “Entre Bêbados e Loucos: a libertinagem do corpo-terra em que habito”. Apresentado no último sábado (22/03), o trabalho é fruto de sua dissertação no Mestrado em Artes Cênicas da Universidade Federal do Acre (UFAC) e utiliza o conceito de perfovivência para dar visibilidade a corpos historicamente marginalizados.

A Força da “Não-Literalidade”

O espetáculo não é apenas um relato biográfico, mas uma construção estética refinada. Para o orientador de Saliza, Helder Carlos de Miranda, a potência do trabalho reside na forma como a artista traduz a realidade em arte.

“Ela é uma pessoa que confronta a existência e traz conceitos maravilhosos. Este espetáculo surge das discussões que temos tido e das experiências da Saliza desde a graduação, passando pela sala de aula e pela escola. O diferencial da Saliza é que ela não é literal; ela é poética”, afirma o orientador

O Desafio da “Perfovivência”

Saliza explica que o maior desafio foi atravessar a própria história para tornar pública uma pesquisa que é, ao mesmo tempo, autobiográfica e coletiva. Ao revisitar memórias de mulheres trans e travestis, ela encara figuras sociais impostas, como a “louca” (patologização) e a “bêbada” (marginalização).

“O momento de ‘parir’ a performance veio junto com o desafio de me expor, de permitir que outras pessoas acessassem essas camadas tão íntimas da minha existência”, revela a artista.

A Densidade Sonora: Voz e Baixo

Para sustentar essa carga emocional, a música desempenha um papel vital. A parceria com a baixista Isabel Darah trouxe a gravidade necessária para a cena. O som do baixo não apenas acompanha, mas atravessa o corpo e dá profundidade à atmosfera do espetáculo.

 Foto: Ádrya Miranda

Essa colaboração entre as artistas não é de hoje, e essa trajetória conjunta permitiu uma entrega ainda mais visceral. Sobre o processo criativo, afirma Isabel Darah:

“O contrabaixo é um instrumento denso, então me projetei dentro de um manicômio para ouvir essa paisagem sonora. Usei o baixo melódico e pedais de modulação para trazer as perturbações desse ambiente o mais perto que pude. foi uma experiência incrível traduzir esses sentimentos e poder transpô-los nas certezas da Saliza.

Um Convite ao Confronto e ao Futuro

A apresentação deste sábado marcou a segunda execução da obra, que ainda busca fomento e leis de incentivo para amadurecer e circular. Durante a performance, o sentimento dominante é o de convocação. Saliza propõe um “corpo-terra” que ocupa o centro do espaço cultural para dizer: “estamos aqui”.

O desejo da artista é que a obra ultrapasse as fronteiras do Acre e da academia, atingindo diferentes públicos.

“Quero que as pessoas possam confrontar os seus próprios privilégios e repensar a forma como olham para os nossos corpos”, finaliza.

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