Publicado em 18/04/2026
Psicanalista alerta sobre uso de ferramentas de inteligência artificial como conselheiros e terapeutas, o que pode reforçar ideias problemáticas; especialista será um dos palestrantes do São Paulo Innovation Week
ChatGPT está fascinado em dizer o que você quer mas isso não vai curar sua autoestima, diz Christian
Uso de ferramentas de IA como terapeutas têm se popularizado, mas interação pode piorar saúde mental, alerta psicanalista. Crédito: edição: Larissa Kinoshita
A epidemia de solidão e de transtornos mentais levou muitas pessoas a buscar na inteligência artificial generativa a figura de um conselheiro ou terapeuta. Esse tipo de uso, porém, pode iludir e trazer mais isolamento e sofrimento psíquico, segundo alerta feito pelo psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao Pulsa.
Ele diz que ferramentas como o ChatGPT são desenvolvidas para agradar o usuário e ratificar suas crenças. Esse perfil bajulador, afirma, pode até produzir alívio imediato, mas, ao não trazer reflexões incômodas próprias de um processo terapêutico, acaba reforçando ideias problemáticas e agravando sofrimentos.
“O ChatGPT está fascinado por dizer o que você quer. […] E não vá dizer que isso é a cura para o mal universal da baixa autoestima. A gente gosta disso e acha que isso cura, mas cura até a página três e, depois, pode ser bem pior, porque as suas ideias problemáticas vão ser confirmadas”, diz o especialista.
Dunker afirma que manter a saúde mental em tempos de hiperconexão e relações permeadas pela tecnologia requer preservar espaços de experiência fora das plataformas. Para ele, o uso saudável exige ampliar repertórios, circular entre linguagens e não se deixar capturar pela lógica da facilidade permanente. Do contrário, adverte, “você morre de embolia narcísica”.
O psicanalista criticou ainda a cultura da alta performance e das “superpessoas” amplificada pelas redes sociais, atribuindo a ela parcela da culpa pela atual crise de saúde mental. Para Dunker, a busca pelo desempenho máximo cria uma despersonalização que aumenta o sofrimento emocional.
Ele diz que essa despersonalização também acontece na medicina, no tratamento de transtornos mentais. Ele critica o que chama de “homogeneização da linguagem da ciência”, alegando que, no caso dos distúrbios psíquicos, seria necessário considerar as nuances e a realidade de cada sujeito.
Christian Dunker será um dos palestrantes do São Paulo Innovation Week, festival global de tecnologia e inovação realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos. O evento acontece entre 13 e 15 de maio, no Pacaembu e na Faap. Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista. Ela foi editada para fins de clareza e concisão.
Muitos dos seus livros tratam da questão dos relacionamentos, sobre como eles se constroem. E, hoje, a gente vê os relacionamentos muito permeados pelas tecnologias. Na sua visão, como as tecnologias estão afetando as relações tanto do ponto de vista positivo quanto do negativo?
A chegada de novas tecnologias inventa novos sujeitos, novas almas, novas formas de estar no mundo. E aí a gente vai ter tanto uma certa resistência ao novo quanto aquela turma que vai experimentar, criar e explorar as novidades e usos não previstos daquela tecnologia. Então, a gente pode descrever uma ampla gama de efeitos imprevidentes: o uso de tecnologias digitais para articular afetos e para monetizar afetos destrutivos, como ódio, competitividade, identidades em confronto, para exacerbar e tracionar aquilo que já era um problema antes, como racismo, assédio, violência, com uma ausência de mediadores para tratar conflitos. A gente tem que aprender quais são as boas práticas e quais são as práticas problemáticas.
Você tem também um impacto bastante interessante na forma como os amores, os laços, as amizades e as companhias se produzem, em escala muito mais extensa, impensável para gerações anteriores. Então, você tem um gap geracional que vem junto com isso, e que envolve você responder à nova tecnologia com novas formas de sedução, novos entendimentos do que que vem a ser um amor e isso tudo convoca também uma aprendizagem, uma reformulação de quem somos.
Os efeitos mais pervasivos hoje em discussão são sobre a saúde mental, porque se você entra nessa nova tecnologia sem esses mediadores nem cauções, a chance de você produzir formas de sofrimento para as quais a gente não está preparado é muito grande. Então, há uma sincronia entre a chegada de uma nova linguagem – e agora da inteligência artificial – e o que muitos chamam de uma crise na saúde mental.
A gente teve nos últimos anos um debate muito acirrado sobre o real papel das redes sociais no aumento de relatos de transtornos mentais, principalmente entre os jovens. Tivemos o livro Geração Ansiosa, do psicólogo americano Jonathan Haidt, defendendo que as redes sociais são a principal causa do fenômeno, mas muitos especialistas criticaram o livro, alegando que alguns dados estavam enviesados e que a obra tratava a questão de forma simplista. Como você vê essa controvérsia?
É uma ótima questão porque a gente não tem só o trabalho do Haidt, tem a (psiquiatra americana) Anna Lembke, tem inúmeros psiquiatras, psicopatologistas e psicólogos às voltas com esse enfrentamento, essa demanda social. E, de fato, o livro do Haidt reúne muitas pesquisas que são aproximativas, que retratam uma correlação, mas correlação não é causalidade. Mas a causalidade pode ser indireta: isso (tecnologias e redes sociais) afeta processos educativos, relações parentais, que afetam a saúde mental. Então acho que uma pesquisa como essa necessariamente vai incorrer numa espécie de simplificação.
Mas a pergunta é: o discurso sobre a saúde mental antes disso não simplificava? A ideia de que as depressões são como diabetes mental, que só falta um neurotransmissor, de que, no fundo, os transtornos mentais são todas afecções do cérebro, dificuldades neurológicas? Ou seja, a ideia de que nós estávamos e que continuamos numa compreensão muito simplificadora é o que, enfim, nós estamos concordando. Por quê? Porque você tem um incremento do interesse nessa matéria, tem pesquisas mostrando como isso é importante para a geração Z, de como isso se tornou um ponto de preocupação. E o nosso discurso parece que não está à altura do nosso tempo.
Então, vai parecer simplificado, vai parecer assim: bom, agora que eu sei de tudo isso, como é que eu diminuo o meu sofrimento? Como eu articulo diagnóstico com prognóstico, intervenção e tratamento? A gente teve uma integração científica sem precedentes, eu consigo levantar facilmente artigos (científicos) cruciais. Isso está gerando políticas públicas e formas mais inteligentes de a gente lidar com problemas específicos como a customização de tratamentos? Eu acho que não. Daí essa impressão que está muito simples.

E por que, mesmo nesse momento sem precedentes de acesso à informação, tantas pessoas estão em sofrimento psíquico e a gente não consegue aprofundar esse debate e buscar melhores soluções?
Acho que você tem um problema mais ou menos estrutural, que é essa globalização do saber científico. A gente nem fala mais em trials (estudos clínicos), a gente fala em meta-análises, ou seja, pesquisas sobre pesquisas que se aglomeram. Isso tudo produziu uma homogeneização brutal da linguagem da ciência. Ou seja, os saberes locais, os saberes, vamos dizer, mais adequados para aquela região, para aquela língua, para aquela religião, eles foram sendo englobados por essa língua geral. E aí você quer transportar essa língua geral para situações reais. Situações reais têm especificidades. Ou seja, você tem um choque de tradução, um choque de aumento de demanda por aumento de especificidade ao mesmo tempo que o tratamento vem em massa. Ele obedece a grandes diretrizes. Mas essas grandes diretrizes podem não ser adequadas para você. E isso é uma especificidade da saúde mental. Talvez a medicina no sentido mais amplo suporte isso muito melhor. Então, em partes, a causa de pelo menos alguma parcela desse sofrimento é a impessoalização, é a racionalização, é a ideia de “(tudo igual) para todo mundo.”
Quer dizer, a impessoalização nesse caso pode estar aumentando o sofrimento psíquico na sua visão?
Acho que sim. Não é um fator absolutamente determinante, mas ele joga um peso, ou seja, a cultura do autoaperfeiçoamento, a cultura do desempenho, eu digo, a cultura das superpessoas se estabeleceu até as crises mais recentes. E isso era aceito de forma inquestionável. E agora a gente diz: “Mas realmente a gente precisa de tantas superpessoas? A gente precisa de corpos assim? A gente precisa de gênios cognitivos? Senão você não existe? Não é ninguém?”
A gente tem que levar em conta que essa cultura se desenvolveu de forma acelerada a partir da transformação dos nossos modos de trabalhar e de consumir, a partir do neoliberalismo que, entre outras coisas, produz segmentação de consumo, então, você vai produzindo classes específicas, nichos, bolhas, mas é um processo em que as pessoas até já se preparam para essa despersonalização, que não funciona tão bem quando você diz assim: “Sou um depressivo, como qualquer outro”, “sou um bipolar, como qualquer outro”. É difícil, porque os tratamentos padrão avançaram até um certo limite que é mais ou menos onde a gente está agora.
Voltando à questão das relações, hoje a gente está vendo as pessoas terceirizando muitas das suas intervenções para a inteligência artificial generativa. Como você vê o impacto dessa terceirização tanto do ponto de vista cognitivo quanto para os relacionamentos? Já vi gente relatando que prefere desabafar com a IA do que com o marido, porque a IA está sempre disponível e é mais acolhedora.
Você já tem as primeiras pesquisas dizendo que o uso extensivo de IA tem prejuízo cognitivo, de memória, de imaginação, de racionalidade, então a primeira ideia é que acontece perda daquilo que você não usa, daquela função que não está sendo demandada. E aparece um uso muito curioso de pessoas que utilizam a IA como terapeutas, amigos, parceiros. A gente fez um experimento com uma jornalista que se colocou como uma paciente e eu supervisionava o tratamento dela com a IA como terapeuta. O resultado foi muito ruim, foi péssimo. Eu dou aula de clínica há 30 anos e eu não tenho nenhum aluno, mesmo inexperiente, que faria o mesmo.
“Uma tecnologia desse tipo vai devorar você se você não criar litorais entre saberes, litorais entre experiências, litorais que te ensinem essa passagem. Se você não tomar cuidado, você morre de embolia narcísica”.
-Christian Dunker, psicanalista e professor da USP
Quais foram os principais erros?
Uma boa terapia vai te levar para aquilo que você não está podendo ou não está querendo escutar ou pensar. Ela não é como um amigo que diz o que você quer ouvir. Ela é mais como um inimigo que, com carinho e cuidado, vai te dizer verdades amargas e que serão transformativas. Bom, o ChatGPT está fascinado por dizer o que você quer. Isso não só não é uma boa atitude para transformar pessoas, mas tem um efeito contrário. Ele não faz perguntas que te balançam, mas ainda confirma o que você acha. E não vá dizer que isso é a cura universal para o mal universal da baixa autoestima. A gente gosta disso e acha que isso cura, mas cura até a página três e, depois, pode ser bem pior, porque as suas ideias diferentes, as suas ideias que estão levando você a maus tratos, a encrencas na vida, as suas ideias problemáticas, elas vão ser confirmadas.
Agora, o que isso reflete? Por que as pessoas procuram tão massivamente uma tecnologia que entrega o que entrega? A crise de certos sentimentos sociais são muito ruins para a saúde mental. A gente vive uma expansão de solidão, de falta de amigos, de falta de jantar com a sua família, de falta de ‘você não está sozinho no mundo’. A ideia de a sua melhor versão, você S.A., você em performance máxima, faz mal para as pessoas. Isso está agindo. A ideia de que você pode se relacionar com o outro numa ideia de troca predatória faz mal para as pessoas.
E como resistir ao uso excessivo de IA tendo em vista que, como você falou, as pessoas gostam dessa bajulação? Como a gente pode usar a IA e demais tecnologias de forma mais saudável?
É muito legal entrar numa outra linguagem se você cria um campo intermediário em que tem essa linguagem, mas tem outras que já estão em você, que já estão na sua cultura, na sua família, na sua escola, na sua comunidade, na sua instituição. Então, você precisa entender que aquela situação se resolve com uma ampliação do seu universo. O que é um uso problemático? É um uso “em vez de”. Por exemplo, “eu uso o chat para encontrar pessoas, depois eu saio com elas e daí começa uma outra história”. Isso é diferente de: “Não, eu já tive experiências difíceis, então eu só uso mesmo o chat”.
Então, novas tecnologias provocam mais trabalho, ou seja, você tem que ter mais leitura, outras linguagens, multilinguagens, multiexperiências, capacidade de viver em diferentes mundos. E isso não combina muito com o império da facilidade.
Eu tenho um canal de YouTube que tem meio milhão de inscritos. Eu vi meus colegas adoecerem com canais de YouTube porque aquilo detona a pessoa, você começa a falar o que o outro quer ouvir, você facilmente morre num cancelamento à toa. Por que eu acho que para mim funciona? Tem YouTube, mas tem universidade. Eu posso atender alguns pacientes online, mas eu tenho que atender presencial. Porque uma tecnologia desse tipo vai devorar você se você não criar litorais entre saberes, litorais entre experiências, litorais que te ensinem essa passagem. Se você não tomar cuidado, você morre de embolia narcísica. Lá dentro, você é o super. E aqui fora?
O que o público pode esperar da sua palestra no São Paulo Innovation Week?
Minha apresentação vai focar bastante na psicanálise nesse contexto de reposicionamento da ciência. A gente vai passar por essa ideia bastante popular de que a psicanálise morreu, de que é uma coisa muito antiga, mas também sobre um fenômeno brasileiro muito importante que de repente a gente aqui começou a fazer um tipo de psicanálise que o resto do mundo está olhando. Porque a psicanálise do Brasil baixou da elite, ela entrou no debate popular, entrou na linguagem digital. E isso produziu uma espécie de contrabalanço para uma linguagem que fora do Brasil é muito hegemonicamente das psicoterapias baseadas em evidência, análise experimental do comportamento, terapias cognitivo-comportamentais. Então, está acontecendo aqui um choque que não acontece no resto do mundo. Isso eu acho superlegal porque promove a ciência, a formação de políticas públicas mais lúcidas e o debate.

