Publicado em 31/01/2026
Entre Brasil e EUA: o drama das famílias brasileiras separadas por Trump
Por Mariana Sanches Colunista do UOL
Quando saiu de casa, em Clermont, na Flórida, às 4h30 do dia 30 de julho, o brasileiro Dither Barzan, de 37 anos, não se despediu da mulher, nem das duas filhas, de 14 e 16 anos, que ainda dormiam naquela manhã.
Ele não imaginava que, seis meses mais tarde, não teria voltado a revê-las e viveria a quase sete mil quilômetros da própria família, na casa dos pais, no Tatuapé, zona leste de São Paulo.
Dono de uma pequena empresa de construção civil, Barzan costumava fazer viagens de bate e volta a Miami, um trajeto de cerca de quatro horas, para atender seus clientes. Mas, quando retornava de um desses trabalhos, pouco depois das 18h daquele dia 30, ele recebeu a ordem da polícia estadual para parar no acostamento.
Ainda com as roupas de trabalho na obra, Barzan teve tempo de notar que sua caminhonete não excedia o limite de velocidade da pista.
“O agente veio até a janela do carro e a única coisa que perguntou foi: ‘qual é o seu status imigratório?’ Ali era o começo do fim do sonho americano”, relatou Barzan à reportagem do UOL.
A história da família de Barzan é uma forma de separação familiar 2.0 promovida pelo segundo mandato do republicano Donald Trump, que completou seu primeiro ano no último dia 20 de janeiro.
O UOL mapeou seis famílias brasileiras separadas entre os dois países e entrevistou três delas.
Embora não existam dados oficiais de quantos dos mais de 3.500 brasileiros deportados sob o segundo mandato de Trump foram separados da família, uma pesquisa do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania sugere um padrão.
Quase 70% dos deportados ouvidos disseram ter deixado ao menos um familiar para trás, o que implicaria em mais de 2.000 famílias brasileiras divididas à força pelo governo Trump.
A primeira gestão do republicano, entre 2017 e 2021, ficou marcada pela separação de cerca de cinco mil crianças de várias nacionalidades –algumas delas bebês– de seus pais, com quem tinham recém-cruzado a fronteira entre México e Estados Unidos.
Agora, com as menores taxas de detenção de migrantes na fronteira em 50 anos, tais cenas não voltaram a se repetir. A política de deportação em massa de Trump tem separado famílias de uma maneira diferente.
Como aconteceu à Barzan, há milhares de histórias de famílias com pais apartados de seus filhos, ou maridos separados de suas esposas, depois de presos e retirados do país onde viveram por anos ou décadas.
‘Campo de concentração’
Algemado pelo policial, Barzan iniciava naquela noite um périplo de mais de três meses por uma série de centros de detenção sob comando do ICE (a Agência de Controle de Migração e Alfândega, na sigla em inglês), em quatro estados diferentes, até que terminasse deportado, em 6 de novembro.
“Foram meses em cárcere, tratado como o bandido que eu nunca fui. Considero que fui sequestrado pelo governo americano e mandado para um campo de concentração”, afirma Barzan, que não tem nenhum registro criminal.
As condições de detenção que Barzan descreve impressionam: o brasileiro diz ter passado períodos de mais de 12 horas algemado pelos pés, as mãos e a cintura, ter tido acesso a apenas um banho por semana e ter sido mantido sob temperaturas baixíssimas tendo apenas um alumínio térmico para tentar se aquecer.
Barzan chegou ao Brasil 20 quilos mais magro do que estava no dia em que foi preso, diagnosticado com depressão severa e dependente de medicação para dormir.
O UOL questionou o ICE sobre o relato de Barzan mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
Era o fim de uma trajetória iniciada em maio de 2018. Ele, a esposa, as duas filhas e os dois enteados viajaram para a Flórida, onde pretendiam passar 20 dias de férias pelos parques de diversão do Estado. Uma semana depois, tinham tomado a decisão: nunca mais deixariam os EUA.
“Nos preocupava a questão da segurança, ali sentíamos que poderíamos criar nossas filhas com tranquilidade e oportunidades”, diz Barzan.
Ainda chegaram a renovar o visto de turismo em duas ocasiões, mas depois ficaram sem qualquer status legal no país.
Mesmo assim, Barzan e a família não se sentiam sob ameaça quando Donald Trump voltou à Casa Branca com um discurso anti-imigração e prometendo promover a maior deportação em massa da história do país.
“Eu, inclusive, era Trump, porque era a favor de tirar do país quem não estivesse agregando e não merecesse viver ali. Mas não era meu caso, sempre paguei todos os impostos. Mas na cadeia do ICE eu descobri que nós, imigrantes, somos só mais um número”, relata.
Como a esposa e as filhas de Barzan tampouco têm status legal —e continuam nos EUA—, elas terão suas identidades protegidas nesta reportagem. A mulher só sai de casa depois de checar os múltiplos grupos de migrantes de WhatsApp onde há monitoramento de ações do ICE na região.
Ainda assim, fazer as compras da família no Walmart virou um tormento, pelo risco de se deparar com agentes de imigração no estacionamento do supermercado.
Nenhuma das três pode deixar os EUA para visitar Barzan, sem o risco de serem impedidas de retornar a Clermont. E ele não tem autorização para voltar ao país para revê-las.
O plano da família é permanecer assim, à distância, ao menos até que as duas adolescentes, sob tratamento psicológico pelo trauma da separação, concluam o ensino médio.
“Eu devo isso a elas, é o melhor pra elas agora. Mas é muito difícil estar longe. Foi o primeiro Natal que passei sem as minhas meninas, é horrível”, diz Barzan.
Finanças estranguladas
Além dos aspectos emocionais, pesam ainda questões práticas para o sustento e a manutenção da família nos EUA.
“Só a prestação da nossa casa lá dá quase R$ 22 mil por mês, eu não consigo sustentar esse gasto do Brasil. Já vendemos dois carros, estamos vendendo o último agora e teremos que nos desfazer da nossa casa também”, diz Barzan.
A mulher dele, que não trabalhava fora antes de sua detenção, tem feito diárias de limpeza, mas os ganhos, de cerca de US$ 2.000 mensais, estão longe da renda que a família tinha antes, entre US$ 8.000 e US$ 12.000. Tudo isso deixa o futuro ainda mais incerto.
“A deportação em si costuma causar a separação de famílias, o que chama a atenção com Trump é a intensidade disso agora”, afirma Felipe Alexandre, do escritório de advocacia Alexandre Law Firm & Associates, que atua em quatro Estados e passou a lidar mensalmente com dezenas de casos de brasileiros nesta situação.
Segundo dados da Polícia Federal, 3.526 brasileiros foram deportados em 2025, em voos fretados pelo ICE. A cifra é superior às deportações registradas pelo órgão em 2023 e 2024 somados.
“Notamos que a questão da separação familiar, dos homens sozinhos e trabalhadores —inclusive chegando com calças sujas de tinta— e dos maus tratos nos centros de detenção parecem ser uma constante nessas deportações”, afirma o antropólogo Julio Davies.
Ele é um dos integrantes do Observatório de Deportações, grupo de pesquisadores dedicados ao assunto, que vem trabalhando junto ao governo federal no programa de acolhida “Aqui é Brasil” para entender o perfil desta população forçosamente devolvida ao Brasil.
Um funcionário do governo do Estado de Massachusetts, que atua junto a comunidades migrantes e vulneráveis na região de Boston, área de concentração de brasileiros, sugeriu ao UOL que o ICE tem um alvo claro: os homens provedores das famílias.
“A partir do momento que eles prendem o pai, que é o provedor maior da residência, a mulher e os filhos terão dificuldades de se manter. Então o ICE retira a figura do homem e na prática essa mulher e essas crianças não terão condições de ficar nos EUA e acabarão saindo voluntariamente”, afirma o servidor público que conversou com a reportagem em condição de anonimato por não ter autorização para comentar o assunto publicamente.
O UOL perguntou ao ICE se prender os provedores financeiros das famílias é uma estratégia deliberada, mas não obteve resposta.
Dados dos brasileiros deportados sob a atual gestão Trump confirmam a observação: quase 85% dos cidadãos recebidos no programa de acolhida eram homens adultos.
Ao mesmo tempo, autoridades brasileiras em Boston contabilizam um número crescente de brasileiros pedindo documentos de cidadania para retornar voluntariamente ao Brasil. Quase sempre são mulheres e crianças.
A família do locutor brasileiro Frilei Brás, de 39 anos, viveu exatamente esta situação. A mulher e os seis filhos de Brás até tentaram permanecer nos EUA depois que ele foi forçado, repentinamente, a voltar ao Brasil.
Monitorado pelo ICE havia sete anos, Brás recebeu ordem de partir em junho, sob pena de detenção caso resistisse.
Ele chegara aos EUA quase 20 anos antes, depois de atravessar a fronteira com o México, em busca de ganhar dinheiro suficiente para voltar financeiramente estável ao Brasil.
Lá conheceu sua esposa, e juntos, decidiram viver em Stoughton, em Massachusetts. Nenhum dos dois tinha status legal, mas seus seis filhos são cidadãos americanos.
Viralizou nas redes sociais um vídeo em que ele se despede dos filhos, em lágrimas, antes da partida de seu voo. Um dos menores se agarra ao pescoço do pai, em desespero.
“Foi um momento terrível, um dos momentos mais tristes da minha vida, deixá-los para trás”, diz Brás, que afirma ter gravado as cenas para expor o grau de sofrimento da família.
Quatro meses depois, porém, ficou claro para todos que seria impossível seguir em países separados. Em outubro, finalmente a mulher de Brás e as crianças desembarcaram no aeroporto de Confins, na Grande Belo Horizonte.
Filhos sem pais
“Essa é uma ligação do centro de detenção de Orange County. Para atender, aperte 0.”
A gravação automática, em inglês, iniciava a conversa diária entre Rafaelle Sousa, de 41 anos, e seus filhos, de 6 e 9 anos.
Pouco depois, a oração noturna deles seria interrompida por outra gravação: “Você tem apenas mais um minuto”, anunciava a voz robótica do sistema de telefonia da prisão do ICE na Flórida, onde ela estava detida.
A dinâmica durou quase dois meses, período em que a família sonhava que a maranhense fosse solta a tempo de passar o Natal em casa, na região de Miami.
“A gente perguntou pro meu filho o que ele queria ganhar, e a resposta dele foi: ‘só queria a mamãe aqui'”, conta Sousa ao UOL, em entrevista ainda dentro da detenção.
De fato, dois dias antes da véspera de Natal, Sousa deixou a carceragem do ICE. Mas não foi pra casa. Foi embarcada em um avião fretado pelo governo dos EUA e aterrissou no Aeroporto de Confins, Minas Gerais, algumas horas mais tarde.
Dez anos depois de se mudar para os EUA, com um visto de turista, ela voltava ao Brasil compulsoriamente e sem seus filhos.
“É uma crueldade fazer isso com meus filhos porque a mãe deles não tinha um papel correto para viver aqui”, diz o companheiro de Sousa, um carioca de 41 anos, cuja identidade será preservada nesta reportagem pelo temor dele de retaliação.
Ele hoje tem autorização de residência permanente no país e os dois filhos do casal são americanos natos. Tendo sido criados em comunidades pobres do Rio, Sousa e o companheiro não querem tirar os filhos do conforto e da segurança da Flórida, onde eles nasceram.
A situação da família, porém, poderia ser muito pior. Depois que Sousa e Brás foram retirados do país, seus filhos foram capazes de ficar com o pai ou a mãe.
Caso ambos tivessem sido detidos e deportados, e como originalmente as crianças não tinham documentação brasileira, apenas americana, por lei, elas seriam encaminhadas para uma família provisória ou algum abrigo juvenil e não poderiam viajar junto aos pais.
Segundo as autoridades brasileiras atuando nos EUA, nenhuma criança do Brasil foi retirada dos pais no atual processo de deportação do governo Trump.
“Uma separação dessas é nosso maior pesadelo, a gente sabe que se acontecer, não consegue reunir mais”, afirma um embaixador que conversou com a reportagem sob reserva por não ter autorização para comentar sobre assuntos internos dos Estados Unidos.
Diante do risco, apenas no Consulado de Boston, que atende uma região onde se concentra parte significativa da comunidade brasileira nos EUA (com uma população estimada em 450 mil brasileiros), no último ano, mais de cinco mil registros de nascimentos de crianças e adolescentes brasileiros foram expedidos —a média anual era de cerca de 1,200 por ano.
Não há um boom de fertilidade na comunidade, o que há é um enorme temor de que os pais sejam deportados e deixem para trás seus filhos.

