Publicado em 20/04/2026
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Por Alessandra Karoline
Publicação revela avanço desigual na governança, custos bilionários de desastres e o papel estratégico das 27 unidades federativas na implementação de metas globais.
O combate às mudanças climáticas no Brasil deixou de ser uma pauta exclusiva do Governo Federal para se tornar uma obrigação fiscal e social dos estados. É o que revela a 2ª edição do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, lançado pelo Centro Brasil no Clima (CBC) e pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS). O documento sistematiza dados das 27 unidades federativas e reforça que a ação subnacional é o único caminho para que o país cumpra seus compromissos internacionais.
A publicação destaca que o planejamento de longo prazo nos estados é fundamental para reduzir desigualdades e mitigar os riscos de eventos extremos, cujos prejuízos materiais e humanos já pressionam os orçamentos locais. “O custo da inação já supera o da prevenção”, destaca o relatório.
Retrato da Desigualdade e Avanços
O Anuário mostra que a governança climática no Brasil caminha em ritmos diferentes. Enquanto estados como Acre, Espírito Santo e Rio Grande do Norte tornaram-se referências ao adotar o Orçamento Climático — ferramenta que rastreia recursos destinados a ações ambientais no Plano Plurianual (PPA) —, outras regiões ainda carecem de planos estruturados e enfrentam limitações fiscais.
Para Fernanda Westin, coordenadora do Anuário, a publicação qualifica o debate público: “Lançamos o Observatório Estadual de Mudanças Climáticas, uma plataforma que oferece transparência sobre governança, emissões e indicadores socioeconômicos, auxiliando em decisões públicas e privadas mais seguras”.
Acre: O paradoxo entre a riqueza cultural e os desafios da pobreza no extremo oeste da Amazônia
Localizado no extremo oeste da Amazônia, o Acre carrega em seu território uma história de resistência e misticismo. Berço da luta de Chico Mendes e herdeiro do ciclo da borracha, o estado se consolidou como um guardião vital de áreas protegidas e um polo de identidade indígena e espiritual, sendo a casa do Santo Daime. No entanto, dados recentes do IBGE e do IPEA (2024-2025) revelam que, por trás da exuberância cultural e ambiental, o estado enfrenta gargalos socioeconômicos profundos.
Atualmente, o Acre apresenta a maior taxa de pobreza do Brasil: 46% de sua população vive abaixo da linha de pobreza. O número é alarmante quando comparado à média nacional de 23,1%. Com a terceira menor população do país, o estado possui um PIB per capita de R$ 31.676, valor significativamente inferior à média brasileira de R$ 53.887.
A economia local, que tem como pilares a pecuária e o manejo florestal sustentável, ainda busca fórmulas para converter seu potencial em distribuição de renda. O índice de Gini do estado, que mede a desigualdade, gira em torno de 0,50, acompanhando a tendência de alta concentração de riqueza vista no restante do país.
Educação como Pilar de Resiliência
Apesar do cenário de vulnerabilidade econômica, o sistema educacional acreano apresenta um desempenho que surpreende especialistas. O estado mantém um fluxo escolar de 91%, demonstrando a capacidade das escolas em manter os alunos em sala de aula mesmo diante de adversidades financeiras nos lares.
No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), o Acre alcançou a nota 4,7 nos anos finais do ensino fundamental. O resultado é considerado intermediário, mas sinaliza uma “resiliência educacional” importante, funcionando como um contraponto à baixa performance dos indicadores de renda e desenvolvimento humano (IDH-M de 0,710).
Identidade e Patrimônio
Para além dos números, o Acre reafirma seu papel estratégico na Amazônia. A manutenção de sua identidade extrativista e o respeito às terras indígenas são vistos por observadores internacionais como modelos de conservação. O desafio para os próximos anos, conforme indicam os dados, reside em equilibrar a preservação desse patrimônio imaterial com políticas públicas que retirem quase metade da população da linha de pobreza.
Panorama Socioeconômico: Acre vs. Brasil
| Indicador | Acre | Brasil |
| Taxa de Pobreza (2024) | 46% | 23,1% |
| PIB Per Capita (2023) | R$ 31.676 | R$ 53.887 |
| IDH-M (2021) | 0,710 | 0,766 |
| Fluxo Escolar (2023) | 91% | – |
| IDEB (Fundamental II) | 4,7 | – |

