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domingo, 29 de março de 2026
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Ações de busca da PF no caso Master têm sequência de indícios de vazamento

Publicado em 29/03/2026

Imagem: Arte UOL/IA

Por Fabio Serapião e Natália PortinariColunistas do UOL

Quando agentes da Polícia Federal chegaram à mansão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, às 6h do dia 14 de janeiro, encontraram algo que não esperavam: um advogado já estava postado no portão externo.

Os seguranças do imóvel, armados e contratados por empresa privada, se recusaram a deixá-los entrar, segundo os policiais. A PF diz que teve de forçar a entrada —o que a defesa nega.

A cena se repetiria, com variações, em ao menos cinco outros endereços naquela manhã —em São Paulo, Minas Gerais, no Rio de Janeiro e na Bahia.

Documentos obtidos pelo UOL mostram sinais de que, em cada um deles, os investigados souberam com antecedência da operação: camas abandonadas às pressas, apartamentos sendo esvaziados para mudança, suspeitos que teriam “ido à academia” antes do amanhecer e não voltaram enquanto a polícia estava no local.

A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada naquela manhã, investigava crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro.

Ao todo, 42 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em cinco estados, com bloqueio de bens que ultrapassaram R$ 5,7 bilhões. O UOL procurou a PF para comentar sobre os indícios de vazamento, que disse que não comentaria o caso.

Primo, academia e quarto vazio

A cerca de 1.500 quilômetros de São Paulo, em Trancoso, na Bahia, os agentes chegaram à casa de Felipe Vorcaro —primo do banqueiro e administrador de empresas ligadas ao grupo— e encontraram o quarto do casal com a porta aberta, o ar-condicionado ligado e os lençóis revirados, “com aparência de que as pessoas que ocupavam o imóvel teriam saído repentinamente”, segundo o relatório policial.

Uma babá com um bebê de seis meses e outros familiares estavam no local. Disseram que Felipe e a mulher haviam ido à academia.

Os sogros chegaram cerca de 20 minutos depois da polícia, num carrinho de golfe. O casal, porém, não retornou ao condomínio enquanto os agentes ainda estavam lá.

A consequência foi direta: sem os suspeitos, não havia celulares, tablets, notebooks ou qualquer mídia digital a apreender —exatamente os itens que o mandado autorizava buscar.

“Somente havia pertences relacionados aos demais ocupantes do imóvel”, registrou a PF. A única apreensão foi uma câmera de vigilância.

Apartamento em mudança e arsenal escondido

No Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro, o apartamento do investidor Nelson Tanure —suspeito de fraudes com fundos de investimento e de manter sociedade oculta com Vorcaro— foi encontrado sendo esvaziado.

Não havia pertences pessoais, nem funcionários, nem familiares. Nenhum celular, veículo, joia ou valor em espécie foi localizado.

Em Belo Horizonte, na casa de André Beraldo de Morais, suspeito de operar empresas laranjas para desvio de recursos do Master, o cenário era de fuga às pressas: roupas jogadas pelo chão nos quartos do casal e das crianças, camas desarrumadas.

Um cachorro de pequeno porte —”talvez da raça maltês”, anotou a PF com precisão incerta— estava bem cuidado dentro da casa. Os donos, não.

No quarto do casal, havia uma arma carregada de fácil acesso. Numa sala-cofre que precisou ser arrombada por um chaveiro, os agentes encontraram o que descreveram como “um grande arsenal de armas e munições”. Todas foram apreendidas.

Em Nova Lima, também em Minas Gerais, a PF foi recebida na residência de Fernando Vieira —outro suspeito de operar empresas fantasmas— por policiais militares à paisana que se identificaram como seguranças privados da família.

“Não foi possível saber qual unidade da PM-MG os policiais militares estão lotados”, registrou a PF, sinalizando que o caso exige apuração à parte. Diversas armas e munições de calibres variados foram apreendidas no local.

Buscas frustradas

Por trás dos problemas operacionais havia também um conflito institucional. O pedido de busca e apreensão tinha sido feito meses antes da operação.

A PF solicitou prazo adicional para confirmar os endereços atualizados dos alvos —pedido que o então relator do caso, ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, não aprovou.

A decisão teve consequências práticas. Endereços desatualizados, somados aos indícios de vazamento, resultaram em buscas amplamente frustradas em termos de apreensão de evidências digitais —exatamente o tipo de material que os investigadores buscavam.

O único que não sabia

Nem todos os alvos foram avisados, ou ao menos não demonstraram ter sido.

Na busca ao apartamento de Silvio Barreto da Silva, diretor da Lormont Participações —empresa pela qual Nelson Tanure possuía R$ 52 milhões em títulos num fundo de investimento—, os agentes tocaram a campainha repetidamente sem obter resposta.

A portaria informou que o investigado tem problemas de audição. Um chaveiro abriu a porta. Os policiais encontraram Barreto da Silva dormindo em sua cama.

A defesa responde

Os advogados de Daniel Vorcaro contestam a versão da Polícia Federal sobre o que ocorreu na mansão do banqueiro no Jardim América. Negam que os seguranças tenham resistido à entrada dos agentes e afirmam que a PF atirou nas fechaduras sem aguardar que o cliente abrisse a porta.

Sobre a presença de um advogado no portão externo antes mesmo da chegada dos agentes –episódio que a PF interpretou como indício de que Vorcaro foi avisado da operação–, a defesa ofereceu uma explicação.

Na véspera, o cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel, havia sido preso ao tentar embarcar para Dubai no Aeroporto de Guarulhos.

Diante disso, os advogados anteciparam que uma operação poderia ocorrer na manhã seguinte e foram ao local preventivamente.

Zettel também figurava entre os alvos da fase.

 

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