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domingo, 26 de abril de 2026
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Política

Janja e Michelle ganham protagonismo na corrida pelos votos decisivos das mulheres

Publicado em 26/04/2026

Em meio a intrigas, gafes e polêmicas, elas se tornam trunfos nas campanhas dos favoritos à presidência

Por Daniel Pereira, Ricardo Chapola | VEJA

DESAFIO - Lula e Janja: agenda para reconquistar o espaço perdido entre as mulheres (Evaristo Sa/AFP)

O Brasil só teve uma presidente da República, Dilma Rousseff, eleita em 2010, reeleita em 2014 e derrubada por um processo de impeachment em 2016. Em 135 anos de história, o Supremo Tribunal Federal (STF), a mais alta corte do Judiciário, contou com apenas três mulheres em seu quadro de juízes — a primeira delas, Ellen Gracie Northfleet, foi nomeada por Fernando Henrique Cardoso em 2000. Senado e Câmara jamais foram comandados por parlamentares do sexo feminino. A próxima corrida ao Palácio do Planalto deve ser disputada só por homens. A exceção à regra pode ser Samara Martins, pré-candidata pelo nanico UP. Apesar de historicamente terem uma participação residual nas cúpulas dos Três Poderes, as mulheres serão decisivas, mais uma vez, na campanha eleitoral deste ano, já que formam a maioria da população e, principalmente, do eleitorado. Uma maioria considerável, que levou os líderes das pesquisas a dedicar atenção à voz e às demandas femininas — não para lhes dar protagonismo no processo político, mas para conquistar seus preciosos votos.

Segundo o último Censo do IBGE, as mulheres representam 51,5% da população, e os homens, 48,5%. Elas são 6 milhões a mais do que eles. No caso da composição do eleitorado, o descompasso é ainda maior. Até o início deste mês, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrava 156,7 milhões de cidadãos habilitados a votar, dos quais 82,8 milhões de eleitoras e 73,9 milhões de eleitores, uma diferença de 9 milhões de votos, ou mais de quatro vezes a vantagem registrada por Lula ao bater Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022 (2,1 milhões de votos). Na campanha passada, o apoio feminino foi decisivo para a vitória do petista. O segmento continua sendo uma das principais bases do presidente, mas tem se afastado dele de forma gradativa. A última pesquisa Genial/Quaest mostrou que a aprovação das mulheres ao governo caiu de 48% em janeiro para 45% em abril, nível que ainda supera a média nacional, de 43%, puxada para baixo pelos homens. Já um levantamento do Datafolha revelou que, na simulação de segundo turno, a vantagem de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro na população feminina caiu de 13 pontos, em março, para 4 pontos, em abril.

Ciente da sangria, o presidente intensificou a agenda para tentar reconquistar o espaço perdido. Em fevereiro, ele anunciou um pacto nacional contra o feminicídio, que promete envolver representantes dos Três Poderes na luta contra esse tipo de crime, que bateu recorde em 2025. “Vamos desconstruir, tijolo por tijolo, essa cultura machista que nos envergonha a todos. É preciso punir, de forma exemplar, os agressores, mas também é necessário educar os meninos, conscientizar os jovens e os adultos”, declarou Lula na solenidade. A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, teve papel de destaque na adoção dessa e de outras iniciativas voltadas para as mulheres. Ela também tenta educar o próprio marido, que volta e meia dá declarações machistas. Foi o que ocorreu quando Lula, sentindo-se bem-humorado e esbanjando mau gosto, condenou a violência doméstica, mas ressaltou que se o agressor for corintiano, como ele, está perdoado. “Tudo bem”, disse.

HERANÇA - Flávio e Fernanda: candidato tenta se livrar do estigma do pai (Reprodução/Instagram)

Neste mês, o presidente sancionou leis destinadas à proteção das mulheres que preveem o uso imediato de tornozeleira eletrônica por agressores e a tipificação do crime de vicaricídio, que é o assassinato de filhos ou parentes num contexto de violência doméstica. No início de seu terceiro mandato, em tentativa de demonstrar compromisso com a pauta feminina, Lula recriou o Ministério das Mulheres, atualmente comandado por Márcia Lopes. O problema é que a pasta, o conjunto da Esplanada e a Presidência padecem de falta de foco. A conquista do voto feminino depende cada vez menos de gestos simbólicos, feitos sob medida para agradar a setores progressistas, e cada vez mais de ações capazes de melhorar a qualidade de vida das mulheres e de seus familiares. Nesse segmento, a demanda prioritária é por mais segurança, saúde e educação. “O voto feminino tem uma relação muito direta com a realidade prática das pessoas. A violência que atinge as mulheres e seus filhos é um elemento”, diz Flávia Biroli, professora de ciência política da Universidade de Brasília (UnB).

Nas últimas décadas, houve uma mudança de comportamento da população feminina durante as disputas eleitorais. “Elas deixaram para trás um viés conservador, que predominou no século XX, e passaram a defender pautas que podem resultar em mais bem-­estar social e proteção à família”, afirma Débora Thomé, professora de ciência política do IDP. Esse movimento ganhou força durante a pandemia de covid, quando a preocupação com a vacinação e as críticas à gestão negacionista de Jair Bolsonaro ajudaram a unificar o discurso e os votos de perfis diferentes de mulheres, beneficiando Lula na eleição de 2022. Em 2026, esse fator agregador deixou de existir, aumentando a possibilidade de o voto feminino variar conforme as diferenças sociais, regionais e religiosas. “Nesta eleição, é tudo mais sutil. Não é tão clara a ideia de que as mulheres vão votar na esquerda como em 2022, ou que vão votar na direita porque são evangélicas. Tudo está mais mesclado, mais indefinido”, analisa a professora do IDP.

MADRINHA – Celina e Michelle: cabo eleitoral quase imbatível entre as evangélicas (Gabriela Matias//)

Empatado com Lula nas simulações de segundo turno, Flávio Bolsonaro está pegando carona na desaprovação ao governo, especialmente na área da segurança. Em linha com sua estratégia de tentar se apresentar como um quadro moderado, ele também começou a fazer gestos voltados para as mulheres. Um deles é se contrapor ao pai, considerado a personificação da misoginia por setores da esquerda. Jair Bolsonaro, como se sabe, disse que não estupraria uma deputada do PT porque ela não merecia e também afirmou que teve uma filha, depois de quatro rebentos homens, porque deu uma fraquejada. Para tentar se dissociar desse passivo, o primogênito do ex-presidente divulgou um vídeo nas redes sociais no qual apresenta a mulher, Fernanda, faz menção às duas filhas e narra sua rotina familiar. “Não é à toa que você é um Bolsonaro moderado. Eu reeduquei ele”, conta Fernanda. “Doutor Flávio é muito carinhoso comigo. Eu choro assim, mas é de gratidão”, acrescenta uma secretária que trabalha na residência do casal.

A peça foi ao ar depois que o senador fez uma trapalhada. Primeiro, como forma de acenar ao eleitorado feminino, ele lançou a deputada Soraya Santos (PL-­RJ) na eleição para uma vaga no Tribunal de Contas da União (TCU). Depois, às vésperas da votação, rifou a colega de partido para fortalecer a candidatura de um deputado do União Brasil, legenda que Flávio Bolsonaro quer atrair para sua coligação. Um quadro do PT, o deputado Odair Cunha, acabou vencendo o páreo. Hoje, a principal aposta do senador para crescer entre as mulheres é contar com a ajuda da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que não queria o enteado na corrida presidencial e vem se movimentando de forma independente, não raro em direção diferente à das articulações pretendidas pelos filhos de Jair Bolsonaro. A sensação de empoderamento não ocorre por acaso. Pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal e presidente do PL Mulher, Michelle se tornou um fenômeno político e eleitoral. Ela é madrinha de uma série de candidaturas, como a de Celina Leão ao governo do Distrito Federal. Michelle também é vista como um cabo eleitoral quase imbatível entre as mulheres evangélicas. “Você tem um dom de se comunicar com o povo que é impressionante. O Brasil precisa de sua liderança”, disse o mandachuva da sigla, Valdemar Costa Neto, ao parabenizar a ex-pri­meira-dama por seu aniversário, comemorado no mês passado.

“MULHER DO LULA” - Dilma: a primeira presidente foi um ponto fora da curva (Roberto Stuckert Filho/PR)

Há pontos em comum no protagonismo atual de Janja e de Michelle. Ambas são consideradas estratégicas nas respectivas campanhas, mas, até agora, ganharam mais destaque por causa de polêmicas. Entre outros tropeços e gafes, a primeira-dama já causou constrangimentos na China ao criticar o TikTok na frente do presidente Xi Jinping, xingou o empresário Elon Musk e foi uma das principais entusiastas do desfile de Carnaval em homenagem ao marido, que resultou em uma saraivada de críticas ao mandatário. No caso de Michelle, o problema é familiar. Há dúvida no campo oposicionista sobre o quanto ela se envolverá na campanha de Flávio Bolsonaro. Um amigo dela criticou recentemente a candidatura do senador, dizendo que ele não seria capaz de se conectar com os mais pobres — ou “com a empregada doméstica”, nas palavras do tal amigo. O episódio, que parece de pouca importância, ganha relevância ao mostrar que a disputa pelo espólio eleitoral de Jair Bolsonaro continua pegando fogo dentro da família. “O Flávio Bolsonaro vai ganhar a eleição. Se ganhar sem o apoio da Michelle, vai bater no peito e falar: ‘eu não preciso de você, o PL não precisa de você, ninguém precisa de você’. Agora, se ganhar com o apoio dela, quem vai bater no peito é a Michelle”, declara um estrategista da campanha do Zero Um, apostando as fichas num entendimento. Ele afirma ainda acreditar que as mulheres evangélicas vão aderir a Flávio Bolsonaro com ou sem ajuda da ex-­primeira-dama, por rejeitarem Lula.

ATIVISMO - Erika Hilton: campanha pelo projeto da misoginia e críticas à postura da direita em relação ao tema (Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados)

A situação não é tão consolidada como diz o estrategista. A professora Débora Thomé lembra que a rejeição a Lula não beneficiará necessariamente Flávio Bolsonaro. As pesquisas, segundo ela, indicam que as mulheres gostariam de um novo governo, mas sem deixar claro qual governo seria. A janela de oportunidade, portanto, estaria aberta para todos os pré-candidatos. A disputa promete ser acirrada. No fim de março, o Senado aprovou um projeto que prevê a inclusão da misoginia entre os crimes de preconceito previstos na Lei do Racismo. Estrelas do bolsonarismo criticam o texto por supostamente ser capaz de tolher a liberdade de expressão. Antes da votação, a presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres da Câmara, deputada Erika Hilton (PSOL-SP), disse que Flávio Bolsonaro estava impedindo a tramitação de “um avanço importante na proteção de mulheres e meninas de todo o país”.

Pressentindo o risco de desgaste, Flávio Bolsonaro avalizou o projeto, que acabou aprovado por unanimidade. Cobrado por sua base mais fiel, o senador agora defende ser necessário, durante a tramitação na Câmara, tomar cuidado com a definição de misoginia, para que não seja ampla demais e, assim, prejudique a liberdade de expressão. O candidato está tentando se equilibrar entre as mulheres e os correligionários. Vislumbrando uma oportunidade de marcar diferenças no campo da direita, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), terceiro lugar nas pesquisas, declarou apoio integral ao texto. Lula fez o mesmo. O presidente, como se sabe, repetirá a chapa com Geraldo Alckmin em outubro. No caso de Flávio, persiste a indefinição. Nas últimas semanas, cresceram as especulações sobre a possibilidade de ele convidar uma mulher para ser sua vice. A lista de nomes cotados inclui a vereadora Priscila Costa (PL), pré-candidata ao Senado pelo Ceará, e a senadora e ex-ministra Tereza Cristina (PP-MS). A ideia é ter uma presença feminina ao lado do senador na propaganda e nas urnas.

DESEMPENHO – Simone Tebet: terceiro lugar na última eleição presidencial, com pouco mais de 4% dos votos (//Divulgação)

Cobiçadas como eleitoras, as mulheres desempenham papel coadjuvante na disputa por cargos de primeiro escalão no Executivo e no Legislativo. Em 2022, a ex-ministra Simone Tebet ficou em terceiro lugar na eleição presidencial, com pouco mais de 4% dos votos. Outras três concorrentes, num total de onze candidatos, não atingiram nem 1% dos votos. Em 2018, só duas mulheres concorreram ao Planalto entre treze postulantes. A ex-ministra Marina Silva, a mais bem colocada, ficou com 1%. Apresentada inicialmente ao eleitorado como “a mulher do Lula”, Dilma Rousseff é o ponto fora da curva. “Eu queria ser lembrada de que também posso ser candidata a presidente. As mulheres precisam ser mais valorizadas”, disse recentemente a senadora Tereza Cristina. Em 2026, mais do que nunca, a vitória na corrida ao Palácio do Planalto passa por elas.

 

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