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domingo, 12 de abril de 2026
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Alçados a governadores, nove ex-vices têm seis meses para deixar a sombra dos padrinhos

Publicado em 12/04/2026

NA ESTRADA - Mateus Simões assume no lugar de Romeu Zema: turnê por vinte regiões do estado (Gil Leonardi/Imprensa MG//)

A missão deles é convencer o eleitor a mantê-los em seus cargos em outubro

Por Anna Satie e Bruno Caniato | VEJA

As eleições de 2022 foram marcadas por uma histórica onda de reeleição nos estados: dos vinte governadores que buscaram a renovação do mandato, dezoito foram bem-sucedidos. A taxa recorde de reconduções (90%) produziu uma legião de governantes que obrigatoriamente teriam de passar o bastão de seu grupo político em 2026, uma vez que a lei veta o terceiro mandato consecutivo. Por isso, nada menos que onze chefes de Executivos estaduais renunciaram nos últimos dias para tentar alçar novos voos políticos. A troca de guarda detonou uma outra corrida pelo poder, de tiro curto e resultado incerto: a de nove vices que assumiram o posto principal já de olho em renovar o mandato em outubro. O desafio não é simples: em seis meses, terão uma intensa maratona para fazer seus nomes junto ao eleitorado e conquistar a permanência no cargo.

Segundo maior colégio eleitoral do país e tradicional fiel da balança na disputa presidencial, Minas Gerais ilustra bem as dificuldades. Empossado há menos de três semanas, Mateus Simões (PSD) patina entre o quarto e o quinto lugar nas sondagens AtlasIntel e Real Time Big Data, sem chegar a dois dígitos nas intenções de voto. O endosso do presidenciável Romeu Zema (Novo), que deixou o Palácio Tiradentes com mais de 60% de aprovação entre os mineiros, não se traduziu até agora em apoio eleitoral ao discípulo. Ciente da dificuldade, Simões deu início a uma turnê. Até julho, ele vai transferir provisoriamente a capital para vinte regiões do estado — a última foi Pouso Alegre, entre os dias 6 e 7 abril, onde fez anúncios de obras e programas e colocou órgãos públicos para atender à população. Um desafio será superar os gargalos deixados por Zema — eleito e reeleito sobre a plataforma de alinhamento ideológico ao bolsonarismo, o ex-governador fez pouco para melhorar os indicadores sociais e não construiu alianças sólidas com prefeitos. “Não há estratégia de marketing ou controle da máquina pública que supere a falta de entregas à população e a ausência de palanques municipais”, avalia Eduardo Grin, cientista político da FGV-SP.

DESAFIO - Hana Ghassan: empatada com rival na corrida para suceder a Helder (Marcos Santos/AG. Pará//)

O político mineiro está longe de ser o único com uma batalha difícil pela frente: até em estados onde os governadores eram amplamente aprovados, seus herdeiros também enfrentam obstáculos. É o caso do Pará, onde Helder Barbalho (MDB) deixou o governo com 79% de aprovação, segundo o Real Time Big Data, mas sua sucessora, Hana Ghassan (MDB), ainda não deslanchou: tem apenas 26% dos votos e aparece em empate numérico com Daniel Santos (Podemos), ex-prefeito de Ananindeua, a segunda maior cidade paraense. No Espírito Santo, apesar da aprovação de 79% ao ex-governador Renato Casagrande (PSB), seu aliado Ricardo Ferraço (MDB) tem 35% das intenções de voto e está também empatado numericamente com o ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos).

Em outros locais, o antigo titular do posto pode mais atrapalhar do que ajudar. É o que ocorre no Distrito Federal, onde Celina Leão (PP), apesar de ter cerca de 40% das intenções de voto, vê o envolvimento do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) com o escândalo do Banco Master virar motivo de desgaste. Há estados, no entanto, em que a força do antigo titular do cargo se impõe. Em Goiás, Daniel Vilela (MDB) vive uma situação confortável. Herdando os louros do presidenciável Ronaldo Caiado (PSD), que deixou o Palácio das Esmeraldas com 85% de aprovação, o novo chefe do Executivo lidera com folga as sondagens eleitorais para outubro — ele tem quase 20 pontos a mais que o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), segundo o Paraná Pesquisas de abril.

A troca de guarda nos estados também produz situações inusitadas. A principal delas se dá no Rio de Janeiro, onde a saída de Cláudio Castro (PL) criou um caos: como ele não tem vice (que renunciou em 2025), o cargo está ocupado pelo desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça. Até quinta, 9, estava em andamento no STF a votação que pode determinar eleição direta para um mandato-tampão. Já no Amazonas, o governador Wilson Lima (União Brasil) e seu vice, Tadeu de Souza (PP), renunciaram em uma só tacada, o que obrigou o presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade (União Brasil), a assumir o cargo. Ele pode tanto disputar essa eleição como buscar outro caminho político, como ser candidato a vice pela chapa de oposição encabeçada pelo senador Omar Aziz (PSD), como vinha negociando.

NA DIANTEIRA - Vilela, herdeiro de Caiado: cenário favorável (Cristiano Borges//)

O principal desafio dos neogovernadores é o desconhecimento do eleitorado. Embora ocupem cargos estratégicos no pleito, ajudando a compor palanques, muitos vices permanecem à sombra dos titulares, com baixa exposição durante o mandato. Em Minas, 36% dos eleitores disseram ao Real Time Big Data que não conhecem Mateus Simões o suficiente para votar nele. Percentual parecido tem Hana Ghassan, no Pará (37%). “O conhecimento pelo grande público desses nomes ainda é muito recente. Uma virada depende de uma participação mais incisiva do ex-governador na campanha”, diz o cientista político Paulo Ramirez, da ESPM.

Há boas vantagens, no entanto, em estar no comando do estado durante a campanha eleitoral. A principal, claro, é o controle da máquina, com o orçamento e o aparato do Estado à disposição para priorizar projetos que possam render a simpatia do eleitorado. “Não tenho dúvida de que esses governadores já têm um calendário estruturado de inauguração de obras, de aparições públicas para se fazerem conhecer”, avalia Lucas Thut Sahd, diretor do Real Time Big Data, que aponta ainda que é comum que ex-vices só ganhem tração nas pesquisas mais perto da reta final de campanha. Além de tudo, a mídia voluntária possibilitada pela cobertura rotineira das atividades dos governantes ajuda a alavancar seu potencial eleitoral.

FIM - Garcia: derrota encerrou a hegemonia tucana em SP (Rubens Cavallari/Folhapress/.)

Outra vantagem é a possibilidade de ter mais apoio político. As corridas regionais não estão, obviamente, dissociadas dos interesses dos partidos em ampliar sua influência nacional. Dos dezoito governadores que buscarão a reeleição em outubro, catorze são de partidos do Centrão que têm como prioridade declarada a expansão de suas bancadas no Congresso, o que demanda palanques estaduais estruturados e candidatos competitivos. Siglas como PSD, MDB, Republicanos, União Brasil e PP têm na manga o controle de grossas fatias do fundo eleitoral e do tempo de propaganda gratuita na TV e no rádio, que utilizam para compor coligações nas arenas estaduais.

O resultado dessa equação, no entanto, é imprevisível. Um exemplo é o de Rodrigo Garcia, que assumiu o governo de São Paulo em abril de 2022, após a renúncia de João Doria, e nem sequer chegou ao segundo turno para governador, enterrando os quase trinta anos de hegemonia do PSDB no estado. Há também casos de sucesso, como o de Antonio Anastasia, que foi vice de Aécio Neves e conseguiu se reeleger e consolidar uma imagem própria junto ao eleitorado, que o consagrou senador na eleição seguinte.

REVÉS - Celina: suspeitas sobre Ibaneis podem atrapalhar (George Gianni/GDF//)

Para os governadores que recém ascenderam ao cargo, o curto espaço de tempo até o teste das urnas é um desafio inegável, mas não insuperável. Casos recentes demonstram que é possível transformar ilustres desconhecidos em candidatos vitoriosos, aliando o uso eficaz da poderosa máquina pública a estratégias eficientes de campanha e capacidade de articular alianças com caciques locais e nacionais. Os próximos meses colocarão à prova a habilidade dos novos governantes em enfrentar os palanques, converter os resultados de seus padrinhos em votos e convencer o eleitorado de que a continuidade é mais segura do que a mudança — o relógio para a disputa já está correndo.

 

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