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Cultura

Recorde de pesquisas

Publicado em 04/04/2026

ELEIÇÃO - A sede do Executivo: sondagens quase diárias dos institutos (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Em caso de irregularidades, o TSE pode aplicar multas elevadas

Por Mauro Paulino | Veja

Nunca se viu tanta pesquisa eleitoral. Isso é bom ou ruim? Do ponto de vista científico, quanto mais, melhor. Diversos estudos, com métodos diversos, medindo os mesmos fenômenos, conferem convergência de evidências. Há nessa eleição pelo menos dez institutos que divulgam regularmente seus levantamentos com ampla repercussão em outros tantos veículos de comunicação. Até este momento o foco está concentrado na disputa pela Presidência que, dominada por Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), desperta desde já plena atenção do eleitorado. Independentemente dos critérios, estratégias e desenhos amostrais de cada empresa, os dados convergem para resultados semelhantes: Lula, estável em alto patamar, lidera os cenários de primeiro turno, seguido de perto por Flávio Bolsonaro, em ascensão desde que Jair Bolsonaro (PL), inelegível e preso, definiu que o filho seria o herdeiro de seu espólio eleitoral. Nas simulações de segundo turno há, neste momento, rigoroso empate técnico. Se a eleição fosse hoje, seria possível dizer que haveria segundo turno e impossível afirmar quem seria eleito. É a convergência de resultados que garante a consistência das afirmações acima.

Os métodos de apuração avançaram e cada instituto desenvolveu sua própria maneira de abordar os entrevistados de forma a representar os eleitores brasileiros em suas proporções reais. Os mais tradicionais mantêm a estratégia ainda considerada predominantemente a mais segura: as entrevistas presenciais face a face, em que pesquisadores treinados vão ao encontro dos entrevistados. Há quem os aborde nas ruas, como o Datafolha, e os que preferem fazê-lo nas residências, como a Quaest. Há quem use forma híbrida, como Ipsos-Ipec, mas sempre com os pesquisadores olhando nos olhos dos respondentes. Mas há também os que desenvolveram formas de encontrar as pessoas on-line, através de recrutamento digital aleatório, como o AtlasIntel. Nesse caso, os entrevistados são selecionados enquanto navegam rotineiramente pela internet. Há vantagens e desvantagens em cada uma das alternativas, mas de forma comum há sempre a garantia do anonimato dos entrevistados e sigilo das respostas.

O casamento entre jornalismo e pesquisas eleitorais perdura por todo o período de redemocratização. Isso se justifica não apenas pela relevância da informação que permite ao eleitor fazer as contas e entender as nuances do processo, mas também pela busca do jornalismo de precisão. A ciência dos percentuais, derivados da lei das probabilidades e amostras populacionais, encontrou no jornalismo a mediação necessária para transformar números em informação relevante. Se a opinião pública existe, então é notícia. Vale aqui destacar o pioneirismo do Datafolha, criado pela Folha de S.Paulo na década de 1980, com o objetivo de aliar o rigor técnico dos levantamentos estatísticos à agilidade requerida pela redação de um jornal diário. O objetivo era adaptar os métodos mais utilizados na academia e em campanhas eleitorais ao instrumento de investigação jornalística. Foi então desenvolvida uma metodologia para servir a essas características. A isso somou-se a adaptação dos jornalistas aos conceitos técnicos das pesquisas. Dessa forma, Folha e Datafolha lançaram para o público conceitos como margem de erro e intervalo de confiança. Hoje, a interação entre jornalistas e pesquisadores integra a cobertura do processo eleitoral em todos os meios.

“Em caso de irregularidades, o TSE pode aplicar multas elevadas”

O TSE tem papel central na regulação das pesquisas divulgadas. Sua função é garantir transparência e condições mínimas de confiabilidade para que o público possa julgar os dados por conta própria. O principal instrumento é o registro obrigatório. Toda pesquisa eleitoral, para ser divulgada, deve ser previamente cadastrada no sistema do TSE com uma série de informações detalhadas: quem contratou, quem executou, valor pago, metodologia, plano amostral, margem de erro, nível de confiança e questionário aplicado. Esse conjunto permite que especialistas, partidos, imprensa e qualquer cidadão escrutinem cada levantamento. Esse modelo parte de um princípio básico que é o de assegurar a transparência suficiente para que cada pesquisa divulgada possa ser auditada publicamente. É um dos mais rigorosos sistemas de controle e de exigências que existe para divulgação de dados. Em caso de irregularidades comprovadas, o TSE — e também os Tribunais Regionais Eleitorais — pode aplicar sanções que vão de multas elevadas até a suspensão da divulgação. Partidos, coligações e candidatos podem questionar judicialmente pesquisas que considerem irregulares.

A multiplicidade atual de levantamentos aumenta a importância da transparência, mas também exige maior capacidade de interpretação por parte de quem divulga e analisa os dados. A coexistência de diferentes pesquisas divulgadas quase diariamente pode gerar ruídos que interferem na interpretação final das informações. Um exemplo é a repetição da mesma notícia dia após dia como se a cada divulgação houvesse uma novidade. A redundância é a marca da divulgação dos levantamentos eleitorais em 2026. Quando vários institutos apontam na mesma direção contribuem para o acúmulo de evidência, mas exigem sofisticação na leitura. Nem sempre uma nova pesquisa trará novidade nas posições dos concorrentes, mas pode trazer dados segmentados que contribuem para explicar o quadro. Ou perguntas diferentes que abrem novas perspectivas e projeções. Cabe aos analistas relacionar dados da mesma pesquisa, comparar informações dos diferentes levantamentos, traduzir e hierarquizar, em vez de apenas repetir informações já repisadas à exaustão.

As pesquisas eleitorais cumprem um papel que vai muito além de mostrar a chamada “corrida de cavalos”. São instrumentos sistemáticos de leitura contínua da opinião pública. Isso tem implicações políticas, institucionais e até democráticas. Em um ambiente de alta polarização, esse papel se torna ainda mais relevante. É a história contada.

Mauro Paulino é analista de eleições e opinião pública. Foi diretor-geral do Datafolha por 25 anos

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

 

 

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