Publicado em 09/03/2026
Atualmente, a Polícia Militar do Acre conta com a força de trabalho de 302 mulheres. Foto: Diego Gurgel/Secom
A história da participação feminina na segurança pública é marcada por coragem, resistência e conquistas progressivas. Se hoje a presença de mulheres nas fileiras da Polícia Militar do Acre (PMAC) está cada vez mais consolidada, houve um tempo em que vestir a farda era um território quase exclusivamente masculino.
Neste Mês da Mulher, as trajetórias de policiais como a coronel Margarete de Oliveira, a soldado Jucyellen Lima do Nascimento e a aspirante Lourdes Sampaio ajudam a mostrar como a atuação feminina vem transformando a corporação ao longo de quase quatro décadas.
Para a vice-governadora do Acre, Mailza Assis, ampliar a presença feminina nas forças de segurança fortalece as instituições e aproxima a polícia da sociedade. “Ampliar a presença feminina na segurança pública é fundamental para tornar as instituições mais fortes, humanas e representativas da sociedade. As mulheres trazem sensibilidade, capacidade de diálogo e uma visão estratégica que contribui para a prevenção da violência e para o fortalecimento da confiança entre a população e as forças de segurança”, destaca.

A vice-governadora também deixa uma mensagem às mulheres que desejam seguir carreira na área. “Vocês têm competência, preparo e determinação para ocupar esses e outros espaços que desejarem. A presença feminina nas forças de segurança é um avanço para toda a sociedade e inspira novas gerações a acreditarem que o lugar da mulher também é na linha de frente da proteção da população”.
As pioneiras
A presença feminina na Polícia Militar do Acre começou oficialmente em 1985, quando a corporação abriu, pela primeira vez, vagas para mulheres. Entre as cinco aprovadas estava Margarete de Oliveira Melo, que anos depois se tornaria coronel da instituição.

Margarete fez o curso de oficial no Rio Grande do Sul e se tornou a primeira oficial feminina do Estado do Acre. A partir daí, acumulou marcos históricos, tornando-se a primeira aspirante, primeira tenente e primeira capitã da corporação. “Quando entramos na corporação, a profissão era totalmente masculina e a recepção não foi nada fácil. Foram anos de batalha para conquistar o nosso espaço, nem todos aceitavam a presença feminina no quartel. Muitos até queriam, mas infelizmente a maioria não era favorável”, lembra.
Ao longo da carreira, Margarete também protagonizou outros feitos importantes, como ser a primeira mulher a dirigir uma viatura da corporação, a primeira a comandar um batalhão e a chefiar o Gabinete Militar do Estado, responsável pela segurança do chefe do Executivo à época.
Para ela, a presença feminina trouxe um diferencial importante para a atuação policial. “A população só tem a ganhar com a inserção feminina na Polícia Militar”, afirma.
Hoje cedida ao Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), onde atua em projetos de inclusão, a coronel deixa uma mensagem para as novas gerações: “Não desistam dos seus sonhos. Se eu tivesse que fazer tudo de novo, eu faria. Não é preciso ter músculos ou testosterona para realizar seus objetivos. Acredite no seu potencial, porque ele é ilimitado”.

O olhar institucional
Atualmente, as mulheres representam cerca de 13% do efetivo da corporação, que conta com aproximadamente 2.340 policiais militares. Ao todo, são 302 mulheres em atividade.
A comandante-geral da PMAC, coronel Marta Renata Freitas, explica que o cenário acreano acompanha a realidade nacional. Dados de relatórios do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indicam que a presença feminina nas corporações militares do país também permanece abaixo de 13%.
“A participação feminina ainda é pequena em termos numéricos, mas representa um avanço importante quando comparamos com o início da inserção das mulheres na corporação”, destaca. Segundo a comandante, as policiais ainda enfrentam desafios estruturais decorrentes da própria formação histórica das instituições militares, tradicionalmente organizadas sob uma lógica masculina.

Um exemplo foi a existência de quadros separados para homens e mulheres, o que limitava a progressão na carreira feminina. Mesmo realizando os mesmos concursos e formações, as policiais só podiam ascender até o posto de capitão. A unificação ocorreu apenas em 1998, permitindo que as mulheres passassem a disputar os mesmos cargos e postos.
“Por muito tempo, a mulher foi vista quase como um corpo estranho dentro da estrutura institucional. Somente em 2022 passamos a receber uniformes e coletes balísticos adequados ao corpo feminino. São mudanças importantes, mas as barreiras culturais não se rompem de imediato”, afirma.

Em 11 de dezembro de 2024, a própria coronel Marta Renata entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a assumir o comando-geral da PMAC. Para ela, ocupar o cargo representa um marco institucional, mas também um desafio constante.
“Não gosto de romantizar esse processo, porque não é fácil. A presença feminina em posições de comando ainda é constantemente observada e avaliada. Mesmo assim, é motivo de satisfação poder abrir caminhos e trazer outras mulheres para posições de liderança”, afirma.
Na ocasião da posse da atual comandante-geral, o governador Gladson Camelí destacou o caráter histórico da escolha, enfatizando que não se tratava apenas de uma questão de gênero, mas de reconhecimento à coronel, que dedicou os últimos 19 anos à Polícia Militar.

Mulheres na linha de frente
Se as pioneiras abriram caminhos e as gerações seguintes consolidaram a presença feminina na corporação, a nova fase da Polícia Militar do Acre também se caracteriza pela ampliação do espaço das mulheres em áreas operacionais especializadas.
Um exemplo é a soldado Jucyellen Lima, que há cerca de quatro anos integra a corporação e recentemente se destacou por ser a única mulher a concluir o curso da mais recente turma de Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam), uma das formações operacionais mais exigentes da instituição.

A formação teve duração de quase três meses e incluiu uma série de etapas físicas e psicológicas, além de treinamentos operacionais intensivos. “Foi uma experiência diferenciada. No serviço convencional, já realizamos atividades operacionais, mas o curso traz uma visão muito mais ampla e exige bastante preparo físico e psicológico”, relata.
Para a soldado, a presença feminina em unidades especializadas tem sido cada vez mais aceita dentro da corporação. “Hoje existe mais abertura e incentivo para que mulheres participem de cursos operacionais. Não há ninguém dizendo que mulher não pode estar aqui. Pelo contrário, há interesse em ampliar essa presença, mas é necessário se especializar e se preparar para o desafio”, afirma.

A militar também avalia que o fortalecimento da liderança feminina na corporação contribui para dar maior visibilidade ao trabalho das policiais militares. Para ela, a escolha da atual comandante-geral representa um avanço simbólico importante para a instituição.
A nova geração de oficiais
Enquanto algumas mulheres conquistam espaço nas unidades operacionais, outras começam a trilhar caminhos nos quadros da corporação. É o caso da aspirante Lourdes Sampaio, destaque em sua turma de formação de oficiais.
O caminho até alcançar a patente de aspirante, no entanto, não foi simples. De acordo com a militar, o processo de formação exige dedicação intensa e uma série de renúncias pessoais ao longo da preparação. A rotina inclui treinamentos físicos, formação acadêmica e desenvolvimento de competências emocionais necessárias para o exercício da função.
“O processo de formação é bastante exigente e requer entrega, resiliência e equilíbrio emocional. Tornar-se aspirante não significa apenas concluir uma etapa acadêmica, mas assumir uma grande responsabilidade com a instituição e com a sociedade”, explica.

Durante essa trajetória, Lourdes encontrou inspiração em outras mulheres que fazem parte de sua vida pessoal e também da corporação. A mãe foi a primeira referência, mas, ao longo da formação, a aspirante afirma ter se espelhado em diversas policiais militares que conheceu dentro da instituição.
Para ela, a presença feminina no ambiente militar contribui para ampliar perspectivas dentro da gestão e do comando. Lourdes acredita que a diversidade de experiências e visões fortalece as decisões institucionais e aprimora o trabalho desenvolvido pela corporação.
“A liderança feminina pode trazer novas perspectivas para a instituição, especialmente por meio da escuta atenta e de uma sensibilidade estratégica. Não se trata de competir por espaço, mas de somar e agregar diferentes visões para fortalecer o trabalho da Polícia Militar”, ressalta.
Da primeira viatura conduzida por uma mulher, em 1985, às formações de elite e ao oficialato, a presença feminina na Polícia Militar do Acre revela uma trajetória construída com perseverança, coragem e competência.
O que começou com apenas cinco pioneiras transformou-se em um movimento contínuo de ocupação de espaços, qualificação profissional e reconhecimento institucional. No Mês da Mulher, as histórias de Margarete, Jucyellen e Lourdes representam momentos diferentes da mesma linha do tempo.
(Agência de Notícias do Estado Acre)

