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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
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Brasil

Ataque dos EUA à Venezuela desafia diplomacia de Lula em ano eleitoral

Publicado em 04/01/2026

Lula ao lado de Mauro Vieira, ministro de Relações Exteriores
Imagem: Ricardo Stuckert / PR

Por Victoria BecharaDo UOL, em São Paulo

A ação dos Estados Unidos na Venezuela impõe desafios à diplomacia do governo Lula
(PT) em ano eleitoral. O presidente brasileiro, que busca a reeleição em 2026, terá de
se equilibrar entre a defesa da soberania venezuelana e a manutenção da relação com
o governo de Donald Trump.

O que aconteceu

Crise entre EUA e Venezuela deixa Lula em posição delicada. O presidente tem se
aproximado de Trump e conseguiu negociar a retirada da maioria das sanções contra o
país, incluindo o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros e a aplicação da Lei
Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Lula condenou bombardeio em Caracas e captura de Nicolás Maduro. O
presidente disse que a ação representa “uma afronta gravíssima à soberania da
Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade
internacional.” No entanto, evitou críticas diretas a Trump.

Situação exigirá muita habilidade diplomática do governo, avalia Marsílea
Gombata. Professora de relações internacionais na FAAP, ela afirma que o Brasil terá
de agir de forma estratégica para não fechar os canais de diálogo com os EUA. Ao
mesmo tempo, o país deve ficar em uma corda bamba, tentando se impor como a maior
economia da América Latina, sem abrir mão da tradição diplomática de mediação, não
interferência e defesa da soberania.

Tema deve ter impacto eleitoral. Na campanha de 2022, bolsonaristas tacharam Lula
como defensor de Maduro e da ditadura venezuelana. “O Brasil deve apoiar a soberania
e autonomia venezuelana, mas com muita cautela, porque esse é um assunto que dá
munição e combustível à oposição”, afirma Regiane Bressan, professora de relações
internacionais na Unifesp.

“Lula paga um preço pelo alinhamento ideológico que tem com a Venezuela”,
diz cientista político. Para Leandro Consentino, professor do Insper, o petista não
costuma ser firme ao condenar a postura de líderes de esquerda como Maduro. O
desafio do presidente brasileiro, afirma o professor, é criticar os ataques à Venezuela
sem passar a imagem de que é condescendente com uma ditadura.

Lula viu sua popularidade cair nas vezes em que falou sobre o tema. Em 2024,
pesquisas de opinião apontaram que a avaliação de Lula foi impactada negativamente
após ele afirmar que existia democracia na Venezuela, por exemplo. Nos últimos meses,
o presidente calibrou o discurso —ele não reconheceu o resultado das últimas eleições
e cobrou Maduro por mais transparência.

“Essa situação gera um ambiente de cautela para o governo”, diz Denilde
Holzhacker, cientista política e professora de relações internacionais
da ESPM. “Nos últimos meses, o governo Lula tentou se distanciar do Maduro
exatamente porque sabe que esse tem um impacto eleitoral interno e mobiliza a opinião
pública”, opina.

“Lula não pode se arriscar muito, tem que levar em conta o cálculo político, mas não
pode deixar de se posicionar —seria um grande erro, levando em conta o histórico da
diplomacia brasileira.”

-Marsílea Gombata, professora de relações internacionais na FAAP

Próximos passos

Reação do Brasil dependerá da transição na Venezuela. Para os especialistas
ouvidos pelo UOL, ainda há muitas incertezas sobre a reação interna no país. Ainda
não há definição sobre quem vai assumir o comando após a queda de Maduro e por
quanto tempo o país ficará sob intervenção do governo americano.

“Neste momento ainda há muitas incertezas sobre como vai ser a reação interna na
Venezuela, se os grupos de apoio a Maduro vão se posicionar, como os americanos
vão fazer esse processo de intervenção. Tudo isso vai ditar o caminho e quais vão ser
as ações não só do Brasil, mas de todos os países da região que já se posicionaram
contrários.”

-Denilde Holzhacker, cientista política e professora de relações internacionais
da ESPM .

Governo fez duas reuniões de emergência ontem. Lula, que está no Rio de
Janeiro, participou por videoconferência. Após a discussão, o governo brasileiro disse
que considera que a vice-presidente, Delcy Rodríguez, está no comando da Venezuela
na ausência de Maduro.

Brasil vai participar de reunião do Conselho de Segurança da ONU. O encontro
acontece na segunda-feira, quando o Brasil vai reiterar sua posição a favor da
soberania da Venezuela. Só então deve acontecer também algum contato com o
governo dos EUA, segundo a diplomata Maria Laura da Rocha, secretária-geral do
Ministério das Relações Exteriores.

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