Publicado em 16/06/2026
Foto: Nycolle Damacena
Por Redação
A pesquisa de vitimização apresentada no Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) foi coordenada pelo professor Dr. Ermício Sena, da Universidade Federal do Acre (Ufac), e desenvolvida pelo grupo de pesquisa Sujeitos, Ações e Percepções: Grupo de Pesquisa em Violência e Conflitualidades, liderado pela professora Dra. Marissol Brandt.
Segundo Ermício Sena, o levantamento tem como principal objetivo identificar a chamada “cifra obscura” da criminalidade, ou seja, os casos de violência e crimes que não chegam ao conhecimento das autoridades por meio de registros oficiais.
“A pesquisa busca compreender aquilo que está escondido dos dados oficiais. Muitas vítimas deixam de registrar ocorrências por acreditarem que o problema não será resolvido ou que a situação pode se agravar. Conhecer essa realidade é fundamental para diagnosticar a segurança pública e a percepção de insegurança da população”, explicou.
A presidente do TCE-AC, conselheira Dulce Benício, destacou a importância dos dados para a formulação de políticas públicas mais eficazes de combate à violência.
“Precisamos ampliar esse debate e garantir que os orçamentos públicos contemplem ações efetivas para enfrentar essa violência que muitas vezes permanece invisível. Os dados apresentados ajudam a compreender um problema complexo que afeta diretamente a sociedade”, afirmou.
Pesquisa ouviu 800 moradores
O estudo foi contratado pela Ufac e executado pelo Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), por meio da Fundação de Apoio e Desenvolvimento ao Ensino, Pesquisa e Extensão Universitária no Acre. Esta é a primeira pesquisa de vitimização realizada em uma cidade acreana.
Ao todo, foram entrevistados 800 moradores maiores de 16 anos, distribuídos pelas dez regionais de Rio Branco, entre os dias 24 de fevereiro e 6 de abril deste ano. A margem de erro é de 3,5 pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.
Além de mapear ocorrências de violência e criminalidade, o levantamento analisou a sensação de segurança da população, a confiança nas instituições e a avaliação dos serviços prestados pelas polícias Civil e Militar.
Segundo o relatório, a pesquisa incorporou indicadores voltados a temas emergentes, como violência doméstica, crimes digitais e percepção de justiça, oferecendo uma base mais ampla para orientar políticas públicas de segurança.
Passo importante para a segurança pública
Os resultados apontam que, em média, apenas 27,8% das vítimas registram boletim de ocorrência após sofrer algum crime.
Entre os delitos com menor índice de registro estão o constrangimento por insinuação de cunho sexual, os casos de discriminação e as fraudes praticadas pela internet. Já os crimes com maior percentual de notificação às autoridades são furto de veículo, agressão física e roubo de objetos de valor.
Para o sociólogo e especialista em segurança pública Marcos Rolim, um dos responsáveis pela pesquisa, o estudo representa um avanço importante para o Acre.
“A maioria das vítimas, no Brasil e em outros países, não registra ocorrência policial, inclusive em casos graves. Por isso, pesquisas de vitimização são ferramentas fundamentais para compreender a realidade da criminalidade e auxiliar os gestores e as forças de segurança na tomada de decisões”, destacou.
Além de Rolim e Marissol Brandt, participaram do debate o professor Marcos Montysuma, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e o professor Francisco Alves Neto, da Ufac, responsável pela mediação do encontro.
Desafios para o futuro
O relatório aponta que Rio Branco enfrenta desafios importantes relacionados à segurança pública, entre eles a elevada percepção de violência, a concentração da insegurança em áreas mais vulneráveis e o crescimento dos crimes digitais.
Entre as prioridades indicadas pelo estudo estão a redução das desigualdades territoriais na segurança, o fortalecimento da presença do Estado em regiões vulneráveis, o aumento da confiança da população nas forças de segurança, o aprimoramento das estratégias de combate aos crimes cibernéticos e a ampliação das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres vítimas de violência.
Os pesquisadores avaliam que os dados servirão como instrumento estratégico para monitorar tendências, qualificar o debate público e orientar ações mais eficazes de prevenção e enfrentamento da criminalidade em Rio Branco.


