Publicado em 01/06/2026
Foto: Reprodução
Por Redação
O Brasil enfrenta um paradoxo histórico no sistema de acolhimento infantil. Embora o número de pessoas dispostas a adotar seja cinco vezes maior do que a quantidade de menores que aguardam por um lar, milhares de meninos e meninas passam a infância e a adolescência em abrigos. O motivo desse descompasso não é a burocracia, mas a rejeição do perfil real das crianças pelos futuros pais.
Dados divulgados pelo Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), extraídos do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), expõem essa realidade em diferentes escalas:
No Brasil: São 33.225 pretendentes habilitados para apenas 6.173 crianças aptas a ganhar uma família.
No Acre: Há 62 pretendentes na fila para 12 crianças disponíveis.
Em Rio Branco: A capital acreana registra 36 interessados para apenas quatro crianças cadastradas.
O filtro do preconceito e o perfil real
Especialistas e magistrados apontam que a conta não fecha porque a maioria absoluta dos cadastrados busca um padrão idealizado: crianças brancas, recém-nascidas ou muito pequenas, sem irmãos e sem qualquer histórico de problemas de saúde.
A realidade dos abrigos, contudo, é o oposto desse desejo, evidenciando reflexos estruturais do racismo e do preconceito social no país. No banco de dados do SNA, as características das crianças disponíveis desenham um cenário bem diferente das expectativas da fila de espera.
| Perfil Real nos Abrigos Brasileiros | Porcentagem |
| Crianças e adolescentes negros | Mais de 70% |
| Grupos de irmãos | Cerca de 85% |
| Faixa etária majoritária | Entre 4 e 17 anos |
Além desses fatores, a recusa em aceitar crianças com deficiências ou doenças crônicas restringe ainda mais as chances de uma integração familiar rápida, fazendo com que muitos jovens atinjam a maioridade institucional e precisem deixar os abrigos sem nunca terem sido adotados.
Campanhas incentivam a “Adoção Necessária”
Para tentar reverter esses indicadores, o Judiciário acreano e entidades ligadas à defesa da infância utilizam o Dia Nacional da Adoção para promover o conceito de “adoção necessária”. O objetivo é sensibilizar a sociedade e incentivar os candidatos a flexibilizarem seus critérios de escolha.
“A ampliação do perfil aceito pelos pretendentes — abrindo espaço para grupos de irmãos, crianças pretas ou pardas e adolescentes — é o único caminho eficiente para dar um lar a quem realmente espera por um”, avaliam os técnicos do setor psicossocial do Tribunal.
A mudança de mentalidade na hora de preencher a ficha de intenções é o principal gargalo a ser superado para que as vagas de afeto nos lares acreanos e brasileiros finalmente encontrem quem mais precisa delas.

