Publicado em 11/04/2026
EX-ADVERSÁRIOS - Kátia e Lula: filiação ao PT é “maturidade política” (//Reprodução)
Políticos moderados buscam partidos de direita e esquerda, independentemente de convicções ideológicas, como forma de sobreviver
Por Nicholas Shores | VEJA
As pesquisas de opinião vêm cristalizando a sensação de que a polarização política no Brasil pode não ser algo circunstancial. Em outubro, esquerda e direita, mais uma vez, tendem a rivalizar a disputa por votos. A não ser que algo de muito extraordinário aconteça, a eleição à Presidência da República deve ter como protagonistas o atual presidente, Lula, e o senador Flávio Bolsonaro, deixando pouco ou quase nenhum espaço para alguém que trilhe o caminho da moderação. Ocorre que a prevalência nas urnas de um dos campos, como aconteceu em 2022, leva o outro, derrotado, fatalmente à oposição, criando um círculo vicioso que alimenta o radicalismo e aprisiona uma considerável parcela da população que prefere se manter distante dos extremos. Esse cenário tem gerado um efeito colateral dentro do universo político. Personagens tradicionalmente ligados ao centro estão sendo empurrados para os extremos, num movimento que nada tem a ver com ideologia, programas ou convicções. É questão de sobrevivência.
A ex-senadora Kátia Abreu é, talvez, o exemplo mais curioso dessa situação. Ex-ministra da Agricultura do governo Dilma, é dona de um perfil que se encaixaria sem dificuldade em várias legendas. Fazendeira, ela já foi filiada ao PDS, que congregava os simpatizantes da ditadura na década de 80, ao PPB, que já teve o ex-governador Paulo Maluf como nome de maior expressão, ao DEM, que Lula um dia jurou exterminar, e até a semana passada pertencia ao PP, expoente do chamado Centrão. Além disso, ocupou a presidência da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, entidade que representa os interesses dos ruralistas. Por isso, era tratada pelos petistas jocosamente como “miss desmatamento” e, até 2010, foi uma aguerrida opositora do governo Lula. No sábado 4, Kátia Abreu trocou de partido pela décima vez. Para celebrar a data, publicou em suas redes sociais uma foto ao lado do presidente da República, rostos colados, sorriso amigável e a legenda “Kátia agora é PT”. O diretório do partido em Tocantins definiu a filiação como um “gesto de maturidade política”.
Apesar de toda maturidade, não se deve esperar de Kátia Abreu gestos mais radicais, como usar um boné do MST. É fato que, desde o governo Dilma, ela já havia se aproximado do PT, mas essa relação era mais pessoal do que política. Sem espaço entre as candidaturas de centro no Tocantins, a alternativa foi migrar para um dos lados. A ex-ministra não revelou se pretende disputar algum cargo eletivo em outubro, embora tudo indique que sim, desde que consiga driblar as restrições que existem contra ela dentro do próprio partido. “Vou discutir o assunto com o presidente. Ele está participando ativamente da montagem dos palanques nos estados”, desconversa. O movimento gerou protestos de integrantes da chamada Articulação de Esquerda, uma das alas da legenda no estado. “O PT não é o partido do latifúndio, do trabalho escravo nem da burguesia” foram as palavras de ordem contra a chegada da nova petista. Adesões recentes à direita também provocaram o mesmo tipo de desconforto. Em 2020, o senador Sergio Moro pediu demissão do cargo de ministro da Justiça, acusando o então presidente Jair Bolsonaro de tentar interferir indevidamente na Polícia Federal para blindar o filho Flávio Bolsonaro de investigações. Seis anos depois, o parlamentar deixou o União Brasil, partido de centro, e se filiou ao PL do agora candidato a presidente Flávio Bolsonaro, onde foi alçado à condição de pré-candidato a governador.
Tanto Sergio Moro quanto Kátia Abreu foram empurrados para os lados por circunstâncias regionais, uma dose de oportunismo político e a segurança de ter um palanque sólido, situação que os partidos de centro, devido principalmente à polarização, têm dificuldades para garantir. O ex-presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco, ganhou sua última eleição se apresentando aos mineiros como um ferrenho opositor à então candidata ao Senado Dilma Rousseff. Em fim de mandato, ele trocou na semana passada o PSD pelo PSB, ou seja, deixou o centro e migrou para a esquerda. “Quero estar ao lado deles, defendendo a democracia, as causas sociais, os mais necessitados e os trabalhadores, contribuindo também, de forma efetiva, nas discussões sobre responsabilidade fiscal, eficiência do Estado e desenvolvimento econômico”, justifica. O PSB também foi o destino da ex-ministra Simone Tebet, que se desincompatibilizou do Ministério do Planejamento e Orçamento e deixou o MDB, partido de centro pelo qual militou por quase trinta anos, para lançar-se ao Senado por São Paulo. “A visão do PSB me dá todo o conforto de ir para o partido sem mudar minha essência. Não vou mudar um milímetro naquilo que eu penso”, afirma ela, que representou a terceira via nas eleições presidenciais de 2022, tentou se afastar da radicalização durante a campanha e obteve apenas 4% dos 118 milhões de votos no primeiro turno.
A tendência de migração de políticos moderados em direção aos extremos ficou evidente na semana passada, quando terminou o prazo para mudanças partidárias. Na Câmara, o União Brasil e o PP, agrupados na maior federação partidária de centro, comandada por Antonio Rueda e pelo senador Ciro Nogueira, perderam catorze parlamentares. Do outro lado, o PL fechou a janela partidária com onze deputados e um senador a mais, se consolidando como a maior bancada do Congresso, enquanto o PT manteve o mesmo número de parlamentares: perdeu uma deputada e ganhou uma senadora. O deputado Mendonça Filho, que estava há quarenta anos no mesmo partido (contados desde a fundação do PFL, em 1985, que depois tornou-se o DEM, e este, por sua vez, se fundiu com o PSL para dar origem ao União Brasil), se transferiu para o PL. “Meu plano de voo era ser aliado de Flávio Bolsonaro, mas sem trocar de partido. Tendo em vista as dificuldades locais em Pernambuco e a perda de foco, de posicionamento e de coesão da bancada nacional, me vi cada vez mais fora do partido”, justificou Mendonça.
Para o analista político Thiago Queiroz, diretor da consultoria Consillium, a migração de políticos de centro para legendas do campo da direita e da esquerda é resultado de uma combinação de vários fatores. “Tensões internas, desalinhamentos regionais e conflitos de projeto provocados pela polarização impulsionam essa corrida aos extremos”, afirma. Na avaliação do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília, a janela partidária consolidou uma tendência iniciada na última década, em que o centro tem menor densidade, enquanto os polos, notadamente o campo conservador, se tornam mais capazes de atrair novos quadros. “Os partidos conservadores saem na frente da esquerda porque vêm fortalecidos das eleições municipais, com estrutura, dinheiro e elevada quantidade de prefeituras, o que pesa muito na hora de recrutar lideranças”, afirma. Basicamente, os parlamentares querem se associar a projetos presidenciais competitivos para ganhar voto, visibilidade e reduzir o custo de campanha. Em um ambiente de polarização consolidada, permanecer no centro passou a representar mais risco do que segurança.

