22.3 C
Rio Branco
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
O RIO BRANCO
BrasilGeral

O poder e o progresso na era da inteligência artificial

Publicado em 26/10/2025

Ilustração – Amarildo/Folhapress

Ana Paula Vescovi | Folha de São Paulo
Economista-chefe do Santander Brasil

  • Empresas que escolherem amplificar o capital humano em vez de substituí-lo farão a diferença

  • IA generativa redefine tarefas e papéis, mas também desafia o significado do trabalho

A inteligência artificial deixou de ser promessa para se tornar rotina nas grandes empresas. Segundo a McKinsey, 78% das organizações globais já a utilizam em pelo menos uma função de negócio. Os setores de tecnologia, telecomunicações, finanças e varejo lideram essa adoção, com taxas entre 30% e 40% de forma ativa, além de testarem pilotos ou protótipos.

Após 30 anos de dedicação à economia e ao “policy making”, fiz uma das escolhas mais instigantes da minha vida profissional: vir para Wharton, escola de negócios da Universidade da Pensilvânia, estudar as novas fronteiras da gestão e da liderança.

Um dos temas que mais me chamaram a atenção até agora foi o uso e a implementação da inteligência artificial nas empresas, uma abordagem que combina tecnologia, estratégia e psicologia do trabalho. Meu desafio tem sido conectar essa visão organizacional ao que a economia ensina sobre produtividade, progresso e desigualdade.

Como nos mostrou o prof. Stefano Puntoni, embora ampla, a adoção da inteligência artificial ainda não parece acompanhada de métricas claras. Ao perguntar a executivos quantos monitoravam o retorno sobre o investimento em GenAI, quase ninguém respondeu. A corrida pela eficiência é real; o aprendizado sobre seus efeitos, nem tanto.

Esse descompasso revela um ponto central: as organizações decidirão se querem usar a tecnologia para substituir pessoas ou para ampliar suas capacidades. A primeira opção gera ganhos rápidos e superficiais; a segunda cria inovação duradoura e confiança.

Como lembram Daron Acemoglu e Simon Johnson em “Poder e Progresso”, o avanço tecnológico nunca foi automaticamente sinônimo de prosperidade. Durante mil anos de história, o poder econômico se reorganizou em torno das máquinas. E nem sempre em favor da maioria.

Quando a tecnologia serve para concentrar controle, ela amplia desigualdades; quando é desenhada para distribuir oportunidades, ela promove bem-estar e crescimento. O progresso não é linear nem neutro: é produto de decisões humanas e institucionais.

Hoje, essa escolha se repete. A IA generativa redefine tarefas e papéis, mas também desafia o significado do trabalho. Ao automatizar o que antes expressava o talento humano, pode corroer o senso de competência. Ao impor processos padronizados, reduz a autonomia. E, ao substituir interações humanas por algoritmos, fragiliza o pertencimento.

São três dimensões que, segundo a psicologia do trabalho, sustentam o bem-estar e a produtividade. A IA pode encurtar o árduo percurso do aprendizado, aquele que desenvolve instinto, julgamento e experiência. A eficiência não deve substituir o amadurecimento.

As evidências são eloquentes. Pesquisas de Puntoni e outros autores mostram que trabalhadores avaliados por algoritmos demonstram menos empatia e disposição para ajudar colegas. Segundo testes estatísticos, consumidores, por sua vez, valorizam mais produtos quando percebem participação humana em sua criação.

A tecnologia é a mesma; o design da interação é que muda tudo. As escolhas sobre IA acontecem em várias camadas de decisão —das equipes aos conselhos, dos algoritmos à regulação. Torná-las explícitas é essencial para que a cultura se traduza em padrões éticos, e em métricas.

Mas a IA também pode abrir um novo ciclo de oportunidades. Como nos mostrou o prof. Christian Terwiesch, a IA generativa pode transformar o próprio processo de inovação. Em vez de restringir decisões a poucos, ela permite que mais pessoas criem, testem e proponham soluções apoiados por IA; o que ele chama de “torneios de inovação”. O papel humano, nesse contexto, seria o de curador, não de executor.

A GenAI ajuda a criar mais e melhores ideias, e mais rápido, mas continua precisando de gente para dar direção, propósito e juízo de valor. Empresas que souberem equilibrar essas forças entre a velocidade da máquina e o discernimento humano abrirão novos horizontes de vantagem competitiva.

O futuro da inovação, portanto, não pertence apenas à tecnologia, mas à cultura que a cerca. As companhias que combinarem processos estruturados de experimentação com liberdade para imaginar criarão não só produtos mas significado.

E talvez esta seja a verdadeira promessa da IA: devolver às pessoas o tempo e a energia de que elas precisam para pensar, criar e reinventar o que o progresso realmente deve ser. O avanço é veloz, e políticas de transição justa tornam-se urgentes, inclusive para apoiar quem será mais afetado e criar condições de reaprendizagem contínua.

Mas, em última instância, essas escolhas não se farão no vácuo. Elas serão moldadas pelos incentivos econômicos, pelas políticas públicas e pela forma como os mercados valorizam —ou não— o investimento em pessoas.

Se o sistema recompensar apenas ganhos de produtividade de curto prazo, o uso da IA tenderá à substituição e à concentração. Se, ao contrário, premiar a criação de valor humano e a difusão do conhecimento, o avanço tecnológico poderá se tornar um novo motor de prosperidade compartilhada. O equilíbrio econômico dessa nova era estará em unir produtividade com desenvolvimento humano; eficiência com aprendizado.

O desafio, portanto, não é apenas das empresas, mas também da regulação: fazer com que o progresso técnico caminhe ao lado do progresso econômico e social.

A inteligência artificial pode gerar abundância ou desigualdade. O que determinará o resultado não é o algoritmo, mas o conjunto de escolhas, incentivos e valores construídos em torno dele.

 

Compartilhe:

Artigos Relacionados

Santa Cruz e Atlético fazem um confronto de favoritos no Estadual da 2ª Divisão

Kevin Souza

Prefeito defende modelo de gestão privada para mercados de Rio Branco

Kevin Souza

Ato contra Dosimetria reúne 18,9 mil no RJ e 13,7 mil em SP, diz estudo

Raimundo Souza

Número de mortes causadas pelas chuvas no RS sobe para 169

Raimundo Souza

Celebrando o Dia do Servidor Público, Prefeitura de Rio Branco promove programação especial

Raimundo Souza

Jovem morre em grave acidente na BR-364, próximo ao aeroporto de Rio Branco

Redacao