Publicado em 10/01/2026
DESAFIO - O Zero Um: rejeição ao seu nome é igual à do pai e superior à dos governadores de oposição (Brenno Carvalho/Agência O Globo/.)
Há obstáculos bastante relevantes no seu caminho ao Palácio do Planalto — e, por isso, muitas dúvidas sobre se ele seria o nome certo para tentar vencer Lula
Por Anna Satie e Pedro Jordão | VEJA
Desde que anunciou que havia sido escolhido por Jair Bolsonaro para
representá-lo na disputa pela Presidência da República, há pouco mais de um
mês, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho primogênito do ex-presidente,
tem batido em várias portas. Encontrou-se com caciques do Centrão, fez duas
reuniões com empresários em São Paulo, procurou ex-ministros do pai,
buscou influenciadores, como Pablo Marçal, e peregrinou por templos
religiosos. A maratona visa dar mais consistência a sua candidatura, recebida
com muito ceticismo, não só no meio político, mas em endereços importantes
do establishment econômico. A despeito de as primeiras pesquisas o
colocarem em boa posição na corrida, ele saiu das reuniões com quase nada.
Embora tenha um sobrenome de peso e um contingente expressivo de
apoiadores à direita, há obstáculos bastante relevantes no seu caminho ao
Palácio do Planalto — e, por isso, muitas dúvidas sobre se ele seria o nome
certo para tentar vencer Lula em outubro.
Um dos pontos que mais despertam incertezas é se ele possui capacidade para
estender o seu eleitorado para além dos muros do bolsonarismo. Pesquisa
Genial/Quaest de dezembro mostra que ele tem 36% no duelo com Lula (que
teria 46%) no segundo turno — percentual semelhante ao dos governadores
Tarcísio de Freitas (SP) e Ratinho Junior (PR), que teriam 35%. O problema,
no entanto, é outro: o mesmo levantamento mostra que 60% do eleitorado não
votaria no senador de jeito nenhum, taxa igual à do pai e maior que a de todos
os outros, inclusive Lula (54%). “Começar com tanta rejeição é um desafio e
mostra que pode ter um teto para o crescimento dele”, aponta Márcia
Cavallari, diretora do Ipsos-Ipec.

Há mais de um motivo para justificar uma recusa tão alta. Muito se deve ao
sobrenome e ao fastio do eleitorado com a repetição de um duelo Lula x
Bolsonaro. Pesa também o histórico de suspeitas sobre Flávio, como o caso da
rachadinha quando era deputado no Rio, a compra de uma mansão em Brasília
em 2021 e as relações com nomes como o capitão Adriano da Nóbrega, morto
em 2020 e chefe da milícia Escritório do Crime (Flávio empregou a mãe e a
esposa dele em seu gabinete). “Além de Flávio ter um teto de vidro, também
tem o cansaço do eleitor moderado com o nome Bolsonaro e com a
polarização”, diz Yuri Sanches, diretor político da AtlasIntel. “O nome dele traz
um passivo reputacional. As pesquisas mostram o brasileiro cansado da
polarização. Quanto mais esticar essa corda, mais difícil será se eleger”, diz
Cavallari.
A recusa do eleitorado alavanca outra rejeição, esta mais pragmática: a do
sistema político. Partidos empenhados em construir uma alternativa a Lula
pela direita, como PP, PSD, União Brasil e Republicanos, não abraçaram a
candidatura. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira, diz que um apoio
dependeria de ele mostrar viabilidade. “Tenho muita lealdade e carinho por ele
e por Bolsonaro, mas meu compromisso é com o PP. A candidatura dele
favorece candidatos do PL, e nossos deputados não têm esse perfil, são mais de
centro”, afirmou. Em uma reunião, Ciro afirmou a Flávio que, para ganhar a
eleição, ele precisaria vir para o centro, que é, na visão dele, quem irá decidir a
eleição. “Também disse que ele precisava moldar o seu discurso agora”,
relembra o cacique do Centrão.

NO PÁREO - Tarcísio: apesar da candidatura de Flávio, ele segue sendo o preferido do empresariado, do agro e do mercado (Raquel Martins/Governo de SP//)
Difícil, no entanto, acreditar que Flávio irá levar sua pregação mais ao centro.
Nos EUA, em visita ao irmão exilado, sinalizou que pode indicar Eduardo
Bolsonaro à chefia do Itamaraty em caso de vitória. Na mesma viagem, deu
uma entrevista ao influenciador Paulo Figueiredo, neto do último presidente
da ditadura militar, general João Baptista Figueiredo, e denunciado pela trama
golpista no STF. Posicionado debaixo do retrato do ditador, Flávio tentou se
apresentar como “um Bolsonaro que se vacinou”, mas atacou o Supremo, o
ministro Alexandre de Moraes, a lisura da eleição de 2022 e, como o pai,
lançou dúvidas sobre as urnas eletrônicas. Também elogiou o modelo linhadura nas prisões adotado por Nayib Bukele, presidente de El Salvador. “Temos
que construir escola, mas temos que construir muitos presídios, porque as
pessoas têm que cumprir a pena a que foram condenadas”, disse.
Além do discurso radical bolsonarista, pouco se sabe sobre as ideias de Flávio
para o país. Nos últimos dias, ele tem dito que irá dar continuidade ao trabalho
de Paulo Guedes, ministro da Economia na gestão de seu pai, e vive repetindo
que irá aplicar “um tesouraço” em gastos e impostos. Para o senador Carlos
Portinho (PL-RJ), o problema é menor do que parece. “O eleitor que vota em
um Bolsonaro sabe o que esperar do governo: menos impostos, menos Brasília
e mais Brasil”, afirma. Aliados, porém, admitem que uma agenda própria de
campanha ainda está em construção. “Talvez seja o nosso grande desafio”, diz
o deputado Filipe Barros (PL-PR), que tem sugerido ideias a Flávio, como um
programa de reindustrialização do Nordeste, que é reduto eleitoral da
esquerda.

DESCRENTE - Silas Malafaia: lideranças evangélicas não apoiam a pretensão (Marina Uezima/Brazil Photo Press/AFP)
O sobrenome Bolsonaro, embora ajude a colocá-lo em boa posição para a
largada, também é um problema. Uma das fontes de desgaste é seu
irmão, Eduardo Bolsonaro, que perdeu o mandato de deputado e virou réu no
Supremo por conta de sua atuação contra o Brasil a partir dos Estados Unidos.
“Para parcela da população, Flávio é apenas o filho de Bolsonaro. Muitas
pessoas o confundem com o Eduardo”, diz o ex-ministro da Cidadania João
Roma, que vive na Bahia. Ele acredita que, à medida que os eleitores passarem
a distingui-lo do pai e dos irmãos, a rejeição ao senador irá diminuir.
O fato de estar ainda muito adernado à direita, porém, não ajuda Flávio a
dominar esse campo ideológico. O agronegócio rejeita a candidatura e chegou
a bancar uma pesquisa no ano passado testando outros nomes. Principal
organizador de manifestações bolsonaristas e um dos líderes evangélicos do
país, o pastor Silas Malafaia se opõe à pretensão do Zero Um. “A questão é:
qual é o melhor candidato para enfrentar esse momento político? Sou aliado,
mas não sou alienado”, diz. Outro ponto de atenção é a posição da ex-primeiradama Michelle Bolsonaro, que chegou a ser cotada como presidenciável, mas
perdeu a indicação para Flávio e não tem se envolvido na campanha do
enteado. Nos bastidores, ainda se discute uma chapa em que ela seja vice, de
preferência de Tarcísio. Além de Malafaia e Michelle, outros bolsonaristas
podem não ter abraçado o Zero Um, tanto que nas pesquisas ele não atinge os
percentuais de voto do pai. “Flávio pode ter uma rejeição maior que a do pai
por algumas razões. Uma bem simples: ele não é o pai. Aquilo que alguns
apoiadores atribuem ao pai como algo positivo, ele não possui”, avalia Mayra
Goulart, cientista política da UFRJ.
Uma preocupação adicional é que há uma certa satisfação no entorno de Lula
com o seu nome, uma vez que o consideram um candidato mais fácil de
derrotar. “Até agora, ninguém do PT atacou o Flávio. É como se estivessem
falando ‘venha, é o melhor para a gente’. Estão só esperando a eleição começar
para atacar”, aponta Malafaia. Um dos problemas para Flávio é a dificuldade
que ele teria para falar de corrupção, por exemplo, já que o tema da rachadinha
certamente será explorado pela esquerda. Há outros riscos para o Zero Um. “Se
Flávio não vencer, perde o foro privilegiado e fica exposto. Ele já tem o pai
preso e o irmão correndo risco de prisão”, diz um aliado da família.

PLANO B - Ciro Nogueira: o Centrão sonha com nome fora da polarização (Andressa Anholete/Ag. Senado)
Com tudo isso, cresce a inquietação no Centrão em buscar uma alternativa que
não seja repetir o duelo de rejeições entre lulismo e bolsonarismo que se viu
em 2022. Tarcísio segue sendo o nome mais cobiçado. Preferido do mercado
financeiro, do empresariado e do agronegócio, ele fez declarações protocolares
de apoio a Flávio, mas não o citou em um único post desde que ele virou
candidato. O governador tem 13 pontos a menos de rejeição que Flávio e, sem
ele no páreo, largaria com ao menos sete partidos: Republicanos, União Brasil,
PSD, PP, MDB, Podemos e PL. Mesmo de férias, o governador continuou de
olho na política nacional. “A fórmula é simples! Feliz 2026 = Fora PT”, postou
na virada do ano. Aliados de Flávio reconhecem o problema e acrescentam
que, além de fazer desaparecer a sombra do governador, será necessário
conseguir que ele se engaje na campanha de Flávio, visto que a votação em São
Paulo é fundamental ao projeto presidencial. “É a prioridade número 1, o
próprio Flávio tem falado sobre isso”, diz Filipe Barros.
Diante da incerteza sobre a candidatura de Tarcísio, no entanto, a direita não
bolsonarista se movimenta em busca de um plano B ou até um plano C. Além
do governador paranaense Ratinho Junior, que pode virar uma opção, o
Centrão tem flertado com outros nomes, como o da ex-ministra e
senadora Tereza Cristina (PP-MS). Os mais desesperados com a falta de
alternativas voltaram a falar no apresentador de TV Luciano Huck, que foi
especulado em 2022. “Eu tenho conversado com ele. Acho que poderia ser
uma opção. Só falei por telefone, ele está de férias, mas está disposto a
conversar”, conta o deputado Paulinho da Força, presidente do Solidariedade,
que disse que o nome de Huck será testado nas próximas pesquisas.
A definição sobre quem será o principal adversário de Lula em outubro não
deve demorar. Até o dia 2 de abril, governadores como Tarcísio e Ratinho
Junior terão de deixar o cargo se quiserem tentar a Presidência. Até lá, Flávio
terá de bater em muitas portas antes que elas se fechem de vez. Na última
semana, voltou a defender que sua candidatura é viável. “Você que está
apostando em um balão de ensaio, que é algo que ali no final de março,
começo de abril, eu vou voltar atrás: a chance é zero”, disse. A repetição
obrigatória do mantra de que não vai desistir é outra prova da fragilidade da
candidatura.

