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Fifa se cala, e intervenção dos EUA na Venezuela não deve impactar a Copa

Publicado em 10/01/2026

Gianni Infantino, presidente da Fifa, ao lado de Donald Trump, presidente dos EUA
Imagem: Leah Millis/Reuters

A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela dificilmente terá impacto direto na Copa do Mundo. O evento será entre 11 de junho e 19 de julho deste ano e terá como anfitriões os estadunidenses, além de México e Canadá.

Apesar da complexidade do cenário geopolítico, a avaliação no futebol internacional é que não há, neste momento, qualquer indicativo concreto de sanção que atinja os EUA — tanto no âmbito da federação de futebol quanto na organização do evento.

No sábado (3), uma operação sob as ordens de Donald Trump capturou o mandatário venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa. O presidente dos Estados Unidos anunciou, nos dias seguintes, que coordenará um governo de transição no país sul-americano.

Na última semana, governos e organismos multilaterais discutem possíveis violações de soberania, mas as tensões não se traduziram em consequências no futebol.

Historicamente, a Fifa só se move quando conflitos externos passam a interferir diretamente na organização de competições, no funcionamento das federações ou na viabilidade de jogos oficiais — o que, até aqui, não ocorreu.

Donald Trump recebe prêmio da paz da Fifa durante sorteio da Copa do Mundo de 2026 Imagem: SAUL LOEB/AFP

O que diz o estatuto

O Estatuto da Fifa prevê a possibilidade de suspensão de membros, mas estabelece critérios claros. Pelo artigo 16, uma federação só pode ser suspensa se houver violação grave de suas obrigações, decisão que cabe ao Congresso — por maioria qualificada — ou, de forma provisória, ao Conselho.

Não há previsão de punição automática por guerras, intervenções militares ou decisões de política externa tomadas por Estados nacionais. O foco do Estatuto está em temas como interferência estatal direta nas federações, discriminação, descumprimento de deveres institucionais e ameaça à integridade das competições.

O texto também reforça princípios como neutralidade política, promoção de relações amistosas e respeito aos direitos humanos, mas sem atribuir à Fifa o papel de árbitra da política internacional.

Na prática, a Fifa age quando o futebol deixa de funcionar.

“Se a Fifa aplicasse seu Estatuto à risca, já poderia ter punido, por exemplo, Qatar, Arábia Saudita e China, só para citar alguns, devido ao fato de que, na prática, as federações nacionais destes países não têm independência dos Estados e, em última instância, quem manda é o poder governamental, o que fere diretamente a exigência de não intervenção estatal nas federações previstas no Estatuto da Fifa”, afirma advogado Eduardo Carlezzo, especialista em direito esportivo.

Sobre a hipótese de punição aos Estados Unidos, Carlezzo é categórico. “A possibilidade da federação norte-americana de futebol ser punida devido aos fatos que presenciamos na Venezuela é nenhuma, por uma série de razões. A primeira, e mais óbvia, é a Copa do Mundo neste ano. Além disso, não podemos esquecer que Infantino e Trump mantêm uma relação muito próxima, a Fifa premiou Trump com o seu ‘Nobel da paz’, a Fifa possui um escritório fixo em Miami (transferiu todo seu departamento jurídico da Suíça para os EUA) e os Estados Unidos não são a Rússia”.

Atacante Smolov, da Rússia, durante a Copa de 2018, a última do país Imagem: Reprodução/SporTV

Por que a Rússia foi punida?

A suspensão da seleção e dos clubes da Rússia, em 2022, costuma ser usada como referência, mas o contexto foi diferente.

A decisão não ocorreu apenas pela invasão da Ucrânia — até porque o conflito começou em 2014, quatro anos antes do Mundial de 2018, na própria Rússia. O fator determinante, neste caso, foi a ameaça concreta de boicote.

Polônia e Suécia, adversárias dos russos na repescagem europeia para a Copa do Mundo de 2022, anunciaram que não entrariam em campo. Com jogos inviabilizados e o calendário em risco, a Fifa suspendeu a Rússia dois dias depois.

Foi uma medida com uma motivação muito mais esportiva do que política: o futebol, naquele momento, deixou de funcionar.

Torcedores da seleção de Israel durante as Eliminatórias para a Eurocopa de 2024 Imagem: Francesco Scaccianoce – UEFA/UEFA via Getty Images

A questão de Israel

No caso de Israel, apesar de críticas públicas, protestos e posicionamentos políticos de algumas federações, nunca houve ameaça direta de boicote a partidas marcadas.

A Espanha chegou a declarar que não disputaria uma Copa do Mundo caso Israel se classificasse, mas tratava-se de uma hipótese futura, sem impacto imediato no calendário. Como Israel não conquistou uma vaga no Mundial, a hipótese de um encontro entre as duas seleções está descartada.

A Noruega, um dos países mais vocais contra os ataques a Gaza, optou por reverter a renda do jogo contra Israel, pelas Eliminatórias, para as vítimas do conflito. Mas, em nenhum momento, a realização da partida foi colocada em risco. Sem jogos ameaçados, a Fifa manteve sua postura de neutralidade.

Israel disputa as Eliminatórias da Uefa, contra rivais europeus, por uma questão política: seria inviável jogar na Ásia, diante do boicote de vários adversários. No passado, a seleção também já fez parte da confederação da Oceania. Em 1970, na única vez em que se classificou para a Copa, teve de ser sorteada em um grupo diferente de Marrocos, que ameaçava boicotar o torneio.

Omid Norafkan e Saman Ghoddos celebram a classificação do Irã para a Copa do Mundo de 2026 Imagem: AFP

Sem boicote, sem problemas

No caso dos Estados Unidos, o cenário é ainda mais distante de qualquer sanção. Não há ameaça de boicote à Copa do Mundo, nem mesmo por seleções que poderiam ter razões políticas para isso, como Irã ou Haiti. Nenhum jogo está em risco, e a organização do Mundial segue normalmente.

Antes do sorteio dos grupos, em dezembro, a imprensa mexicana chegou a noticiar que o Irã seria sorteado no grupo do México, para não ter que jogar nos Estados Unidos durante a primeira fase. As bolinhas colocaram os iranianos no Grupo G, com Bélgica, Egito e Nova Zelândia, e três jogos nos EUA.

A Fifa foi procurada pela reportagem para comentar se a escalada de tensão entre EUA e Venezuela poderia ter reflexos esportivos ou disciplinares. Até o fechamento deste texto, a entidade não respondeu. O espaço segue aberto para manifestação.

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