Publicado em 08/01/2026

Um estudo acadêmico desenvolvido na Universidade de Montreal, no Canadá, aponta que a forma como os estados brasileiros responderam à pandemia de Covid-19 esteve diretamente relacionada à capacidade estatal acumulada antes da crise sanitária, e não apenas às decisões adotadas durante a emergência. Nesse cenário, o Acre figura entre os estados que apresentaram respostas mais fragmentadas e instáveis ao longo do período, ao lado do Amapá, em contraste com unidades da federação como São Paulo e Ceará, que conseguiram estruturar estratégias mais consistentes.
A pesquisa foi conduzida pela pesquisadora Maria Alejandra Costa, em parceria com o professor de ciência política Éric Montpetit, e analisou de forma comparativa as ações dos governos estaduais brasileiros diante da pandemia. Segundo os autores, desigualdades históricas na estrutura da saúde pública ajudam a explicar as diferenças observadas na capacidade de enfrentamento da crise.
De acordo com o estudo, a chamada capacidade estatal corresponde ao conjunto de recursos, estruturas administrativas, rotinas técnicas e competências institucionais que permitem ao poder público responder de maneira eficaz a crises de saúde. Trata-se de um acúmulo construído ao longo do tempo, que não pode ser improvisado em situações emergenciais, como ocorreu durante a Covid-19.
No caso do Acre, a pesquisa indica que a ausência de investimentos contínuos em saúde pública e vigilância epidemiológica antes da pandemia resultou em respostas mais irregulares, marcadas por mudanças frequentes de estratégia e menor coordenação entre órgãos técnicos. Em contrapartida, estados que já haviam enfrentado epidemias anteriores, como malária e dengue, com maior fortalecimento institucional, ingressaram na pandemia com estruturas operacionais consolidadas, equipes experientes e sistemas confiáveis de produção e uso de dados.
Esses estados conseguiram aprimorar políticas já existentes, adotar decisões baseadas em evidências científicas e garantir maior protagonismo a especialistas em saúde pública. Em contextos como o do Acre, porém, a fragilidade da base de dados e das rotinas institucionais levou os governos a recorrerem com mais intensidade a informações provenientes do setor produtivo e a comitês voltados principalmente aos impactos econômicos da crise, reduzindo o peso da lógica sanitária nas decisões.
Um dos conceitos centrais apresentados pela pesquisa é o de “bolhas políticas” na área da saúde pública. Diferentemente das bolhas financeiras, essas se formam quando governos concentram recursos de forma intensa e recorrente em determinadas áreas ao longo do tempo, especialmente durante crises. Quando bem-sucedidas, essas bolhas não se desfazem com o fim da emergência, deixando legados institucionais duradouros.
Segundo os pesquisadores, onde essas bolhas não se consolidaram — como em estados com menor capacidade institucional — os efeitos da crise tendem a aprofundar desigualdades preexistentes. A pandemia de Covid-19 evidenciou como decisões tomadas em crises anteriores moldam as alternativas disponíveis no presente e influenciam quais atores têm voz nos processos decisórios.
Embora o estudo não proponha soluções imediatas, ele acende um alerta para o Acre e outros estados com menor acúmulo institucional. Sem investimentos contínuos em saúde pública, vigilância epidemiológica e produção de dados, as respostas a futuras emergências — como novas ondas de dengue, epidemias regionais ou até outra pandemia — tendem a reproduzir os mesmos padrões de fragilidade observados durante a Covid-19.
O estudo completo está disponível AQUI.

