Publicado em 03/04/2026
José Roberto de Toledo e Thais Bilenky Colunistas do UOL
Os brasileiros estão atolados em dívidas atrasadas como jamais estiveram. No ano
passado, a concessão de crédito explodiu graças a um mercado agressivo — que cobra
juros muito acima da Selic e parece pouco preocupado com o que acontece depois que
o dinheiro entra na conta do cliente.
O tema é um dos destaques do episódio desta semana do A Hora, podcast de notícias
do UOL com os jornalistas Thais Bilenky e José Roberto de Toledo, disponível nas
principais plataformas. Ouça aqui.
O aumento da oferta de empréstimos bancários e de financeiras, do consignado, do
rotativo do cartão de crédito e de outras modalidades caras leva primeiro ao
crescimento do endividamento e, meses depois, ao aumento da inadimplência.
Pesquisadores como Lauro Gonzalez já descreveram esse processo como uma dinâmica de “oferta predatória de crédito”: quando o mercado expande rapidamente modalidades caras e arriscadas, mas deixa para as famílias a conta dos juros e do atraso.
Segundo a série histórica da Serasa, o Brasil começou 2026 com 81,3 milhões de consumidores inadimplentes, o equivalente a metade da população adulta. É uma Alemanha de devedores.
Em média, cada inadimplente tinha 4,02 dívidas negativadas, com ticket médio de R$ 1,6 mil por dívida e dívida média total de R$ 6.453,29 por CPF.
A inadimplência financeira — cartão, empréstimos e financiamentos — está na raiz do problema, mas ela transborda para a vida cotidiana. Em janeiro de 2026, contas de água, luz e gás respondiam por 22% das dívidas em atraso. Não à toa, em 2025, 17 milhões de consumidores tiveram sua luz cortada por falta de pagamento.
A inadimplência vai mais longe. Telefonia respondia por 5%, prestações do varejo (8,3%) e de serviços (11,8%) são responsáveis por outro quarto da inadimplência. Juntos, esses quatro grupos somavam praticamente metade das dívidas.
Mas o problema não começou agora. Vem de longe.
Lá atrás, no fim do governo Michel Temer, o Brasil saía lentamente da recessão de 2015 e 2016. A economia voltava a crescer, mas devagar. O desemprego ainda era alto, a renda das famílias seguia comprimida e os bancos retomavam o crédito com cautela. Mesmo assim, a inadimplência já começava a subir. Em março de 2016, eram cerca de 59 milhões de inadimplentes. No fim de 2018, já eram mais de 62 milhões.
A história se acelera no governo Jair Bolsonaro.
Antes da pandemia, entre 2019 e o começo de 2020, a economia crescia pouco, mas o crédito avançava mais rápido. O saldo total das dívidas das famílias começou a subir de forma mais inclinada, puxado por empréstimos, financiamentos e cartão de crédito.
Então veio a pandemia.
A crise sanitária provocou um fenômeno raro: pela única vez em dez anos, a inadimplência caiu. E isso aconteceu justamente quando o PIB despencou, o desemprego explodiu e a renda caiu.
À primeira vista, parece contraditório. Afinal, não seria lógico imaginar que mais desemprego e menos renda gerassem mais inadimplência?
Mas os dados mostram outra coisa: quando a pandemia travou a economia, ela também travou o crédito.
Os bancos ficaram mais cautelosos. As famílias passaram a evitar novas dívidas. Houve auxílio emergencial, renegociação de contas, carência em financiamentos e menos consumo. O resultado foi uma freada brusca nas novas concessões de crédito. Sem tanto crédito novo entrando no sistema, o estoque de dívidas cresceu mais devagar e a inadimplência caiu temporariamente.
Foi uma melhora artificial. Não porque as famílias tivessem ficado financeiramente mais saudáveis, mas porque estavam tomando menos crédito.
Terminada a pandemia, a lógica se inverteu novamente.
A partir de 2021, o crédito voltou a crescer muito forte. O saldo das dívidas subiu de forma praticamente contínua. As concessões mensais de crédito mais do que dobraram em relação a 2016. E a inadimplência voltou a subir — primeiro devagar, depois cada vez mais rápido.
Esse é um ponto importante: a inadimplência não reage imediatamente. Ela vem depois.
Primeiro, o banco libera crédito. Depois, as famílias ampliam consumo e assumem prestações. Em seguida, parte dessas famílias começa a atrasar parcelas. Só depois aparece a explosão dos negativados.
Foi exatamente isso que aconteceu entre 2022 e 2025.
No governo Luiz Inácio Lula da Silva, o mercado de trabalho melhorou, a renda cresceu e o desemprego caiu. Mas, ao contrário do que muita gente imagina, isso não levou automaticamente à redução da inadimplência.
Na prática, emprego e renda melhores deram às famílias mais acesso ao crédito. Mais gente passou a conseguir empréstimos, financiamento, limite no cartão e parcelamento. E isso alimentou um novo ciclo de endividamento.
Os testes que nós fizemos com as séries históricas sugerem exatamente isso: o efeito direto de renda e emprego sobre a inadimplência parece ser fraco. O efeito mais forte parece ser indireto.
Menor desemprego parece levar a mais concessão de crédito. Mais crédito parece levar a mais endividamento. Mais endividamento leva, algum tempo depois, a mais inadimplência.
Ou seja: a melhora do mercado de trabalho pode acabar aumentando a inadimplência, porque aumenta a capacidade de tomar dívida.
É importante deixar claro que isso ainda não é uma verdade definitiva. É uma conclusão dos testes que fizemos com os dados históricos, e que ainda precisa ser validada por estudos acadêmicos e por especialistas. Mas os números apontam fortemente nessa direção.
Isso ajuda a entender por que a inadimplência continuou subindo mesmo com desemprego baixo, PIB crescendo e renda melhorando.
Também ajuda a entender o papel do Programa Desenrola Brasil.
O Desenrola teve efeito importante, mas temporário. Ele ajudou milhões de pessoas a renegociar dívidas, limpar o nome e voltar ao mercado de crédito. Só que, ao mesmo tempo, isso abriu espaço para que parte dessas famílias voltasse a se endividar.
Por isso, o programa reduziu a pressão no curto prazo, mas não resolveu a dinâmica estrutural do problema.
No ano passado, duas modalidades de crédito cresceram de forma explosiva.
O estoque do crédito rotativo do cartão cresceu cerca de 35%. E o saldo do consignado para trabalhadores do setor privado cresceu mais de 90%.
São justamente duas das modalidades mais perigosas para quem já está apertado.
No rotativo do cartão, os juros médios chegaram perto de 450% ao ano. Em outras palavras: uma dívida pequena pode virar uma bola de neve em poucos meses.
Já no consignado para trabalhadores do setor privado, os juros ficaram próximos de 60% ao ano, muito acima do que muita gente imagina quando escuta a palavra “consignado”.
A expansão explosiva de modalidades com juros predatórios lançou um monte de peixinhos de aquário num mar de tubarões.
No fim de 2025 e começo de 2026, aparece um sinal novo.
As concessões de crédito tiveram um pico muito forte e depois começaram a perder fôlego. Mas a média móvel de 12 meses mostra que o crédito ainda segue em nível historicamente muito elevado. Isso significa que ainda não há evidência clara de travamento do crédito. O que parece existir é uma acomodação depois de uma expansão excessiva.
E isso tem implicações políticas importantes.
Se a população sente que:
o emprego melhorou, mas o dinheiro continua faltando;
o salário entra, mas vai embora em juros, parcelas e cartão;
e metade do país continua negativada;
então o governo pode ter dificuldade para converter bons indicadores econômicos em sensação de melhora real de vida.
Porque, para a maioria das famílias, o que importa não é apenas ter emprego.
É conseguir fechar o mês.
É por isso que, mesmo com crescimento do PIB e desemprego baixo, a sensação de aperto financeiro continua forte.
E essa talvez seja a principal história econômica do bolso do brasileiro na última década:
o país saiu da recessão, atravessou a pandemia, voltou a crescer e gerou empregos. Mas, no caminho, substituiu renda insuficiente por crédito caro. E agora está pagando a conta.
O Brasil está devendo. Como nunca esteve. E pagando juros que, na média do crédito livre para pessoas físicas, já passam de 60% ao ano — e, no caso do rotativo do cartão, passam de 400%.
Não são apenas os inadimplentes que vão pagar essa conta atrasado. Ela também vai bater no caixa dos governos — e, sobretudo, nas urnas.
Porque, quando metade do país está com o nome sujo ou com medo de sujar o nome, a dívida deixa de ser só um problema financeiro. Ela vira um problema político.
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