Publicado em 03/04/2026
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ); e o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (Carlos Moura/Agência Senado/Bruno Peres/Agência Brasil/Divulgação)
Por José Casado | VEJA
Traços, cores e contornos do retrato de desalento, fadiga ou tédio dos eleitores se repetem nas pesquisas. Mas governo e oposição fingem não entender por que seis em cada dez eleitores se declararam desanimados e até com receio do futuro, como mostrou o Datafolha.
Lula, por exemplo, dá sinais de estar atordoado com a desaprovação alta e crescente nos últimos quinze meses. Foi nesse período que ele multiplicou os subsídios estatais para a maioria pobre do eleitorado, beneficiária do vasto repertório assistencialista (Gás do Povo, Crédito do Trabalhador e Agora Tem Especialistas, entre outros). Na contabilidade da Casa Civil, o governo ajudou quase 12 milhões (7% da população) a sair da pobreza extrema e indigência.
Anúncios e slogans, no entanto, agora são insuficientes: mais da metade dos eleitores continua avaliando Lula III de forma duramente crítica e acha que ele conduz o país na direção errada.
Na galeria dos mais rejeitados, se equipara somente aos adversários Jair Bolsonaro, preso e inelegível, e Flávio Bolsonaro, candidato presidencial do Partido Liberal.
Novos e antigos ministros ouviram de Lula, em Brasília, na semana passada, a sua receita básica para a travessia do primeiro trimestre de campanha:
* Criar os próprios fatos e governar as versões: “Vamos dedicar alguns minutos das nossas vidas a construir as nossas próprias notícias”;
* Usar o poder de repressão do Estado para expor no palanque alguns empresários como vilões do aumento de preços dos combustíveis na esteira da guerra no Oriente Médio: “Tem muito malandro, tem gente tão safada nesse país que é capaz de querer ganhar dinheiro com o enterro da mãe. Nós vamos ter que colocar alguém na cadeia”;
* Amplificar as críticas ao governo dos Estados Unidos na tentativa de atrair Donald Trump ao jogo eleitoral. O tarifaço sobre exportações brasileiras para os EUA, no primeiro semestre de 2025, demonstrou que a reação da Casa Branca pode acabar sendo útil para dar vivacidade à imagem de Lula na defesa da “soberania”.
“Lula e Flávio Bolsonaro coincidem no vazio de ideias para modernização do país”
Está ruim para o governo e, também, para a oposição, que se fragmenta depois de sucessivos fracassos na organização das forças de centro e de direita para disputar a Presidência. A seis meses da eleição, o cenário está dominado pela alta rejeição a Lula e ao senador Flávio Bolsonaro, que agora disputa votos à direita com Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás. Quase metade do eleitorado repete, em diferentes sondagens, o temor da reeleição de Lula ou a reedição do bolsonarismo com o filho senador no Palácio do Planalto.
Não se conhecem as ideias de Flávio Bolsonaro, apenas a maquiagem política que adotou no esforço para se apresentar “moderado”, diferente do pai e do irmão autoexilado nos Estados Unidos. Dias atrás, diante de uma plateia de aliados de Trump, ele resgatou uma antiga proposta de Jair Bolsonaro — aliança integral com os EUA contra a China, que é o principal parceiro econômico brasileiro. “O Brasil será o campo de batalha”, ele acha, “onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução para os EUA deixarem de depender da China”. Sem fontes importantes de suprimento de minerais, como terras-raras, acrescentou, “a segurança nacional americana se torna vulnerável”.
Flávio Bolsonaro e Lula, por enquanto, estão coincidindo no vazio de ideias sobre a modernização do país, a rota para sair da armadilha da baixa renda que governa os brasileiros há praticamente meio século.
Está claro o divórcio entre a elite política e o eleitorado. Provavelmente porque a sociedade está “mais à direita do que parece”, arriscou o banqueiro André Esteves, do grupo BTG Pactual, numa conversa com executivos paulistas na semana passada. Esse tipo de análise, comum em reuniões empresariais, se espraia pelas quase 10 000 entrevistas em que o pesquisador Felipe Nunes, da Quaest, se baseou para escrever o livro O Brasil no Espelho. O pressuposto é de que a elite política escolheu se manter em cegueira deliberada sobre a dimensão e as consequências da revolução em curso no mercado de trabalho. Um terço dos brasileiros ocupados trabalha como autônomo — são 33,2 milhões na informalidade, segundo o IBGE.
Uma das características desse grupo, captada em pesquisas desde a pandemia, é a insistência em menor intervenção estatal, sobretudo quando traduzida numa carga tributária mais baixa, combinada à cobrança de melhores padrões nos serviços públicos de segurança e saúde. Por falta de sintonia política com esse novo mundo, concluiu o banqueiro, “não apareceu uma alternativa ‘matadora’”. Talvez tenha razão.
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