Publicado em 22/02/2026
ACENO - Lula na sanção do projeto em novembro: com a medida, expectativa é chegar ao eleitor da classe média (Diogo Zacarias/MF//)
Mais uma vez o país pode sofrer com efeitos colaterais da tentativa dos governos petistas de turbinar a economia somente à base do incremento do consumo
Por Juliana Elias | Isabella Alonso Panho | VEJA
Desde 1º de fevereiro, cerca de 15 milhões de trabalhadores, aposentados e pensionistas brasileiros passaram a receber a sua remuneração mensal com menos ou nenhum Imposto de Renda descontado. Promessa de campanha do presidente Lula, a isenção do IR para quem ganha até 5 000 reais foi aprovada em outubro no Congresso Nacional e passou a valer neste ano. Quem recebe de 5 000 a 7 350 reais também ganhou um desconto gradual do tributo. Como os pagamentos referentes a janeiro só começaram a ser feitos recentemente, é também daqui para frente que os contemplados e, com eles, toda a economia devem começar a sentir os efeitos dos bilhões de reais a mais que vão deixar de ir para os cofres públicos e ficarão nas mãos das pessoas. Até então, eram isentos os que ganhavam até 3 036 reais, e todos com salário superior a 4 664 reais já pagavam a alíquota máxima da tabela, que é de 27,5%.
Houve um alargamento considerável nas faixas do piso e que implica vários potenciais impactos. O primeiro deles é para os contribuintes beneficiados, que, na média, terão um bônus de 200 reais na conta todo mês. O segundo é para a economia. A estimativa do Ministério da Fazenda é que, ao todo, serão 31 bilhões de reais a mais para essas pessoas no ano. O terceiro efeito é político, dado que a isenção do Imposto de Renda é uma das principais apostas de Lula para a reeleição. “A isenção do IR é um tema central que vai para a disputa política”, diz o deputado federal José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Câmara. “Ela ainda não surtiu o efeito esperado, mas é só questão de tempo.”
Se todos os efeitos vão se concretizar conforme o desejo do Planalto, ainda é cedo para dizer. Mas os números confirmam a necessidade de atenção. Apesar do volume de programas sociais criados ou relançados neste terceiro mandato, a aprovação ao governo está estagnada desde a posse, com o apoio em torno de metade do eleitorado. Em relação à redução de IR, o alcance ainda é modesto, frustrando quem esperava um efeito mais imediato nos humores da população. Um levantamento da Genial/Quaest feito no início de fevereiro mostra que apenas 3% dos entrevistados apontaram a medida como a iniciativa federal de maior impacto em suas vidas. “Não é muito, mas qualquer dinheiro ajuda”, diz Cristina Aparecida de Jesus, uma professora de 46 anos de Salvador. Com um salário de 6 300 reais, ela terá cerca de 140 reais a mais por mês, o que deve ajudar a inteirar a condução dos filhos para a escola. Mal compensa, porém, os quase 2 000 reais que ela tem descontados em folha todo mês dos sete consignados que já contratou para completar as contas.
A mesma pesquisa da Quaest também revelou que o governo tem tido dificuldade para emplacar novas bondades no gosto do eleitor. Nenhum dos novos programas de Lula 3 — o Pé-de-Meia, o Gás do Povo ou a nova CNH — atinge mais de 6 pontos percentuais na avaliação dos entrevistados, muito abaixo do Bolsa Família, que chega a 63%. O problema é que os programas sociais mais antigos também já não têm o mesmo impacto nas urnas. “Os eleitores não veem mais o Bolsa Família como algo do PT, ele já virou uma política permanente”, diz Eduardo Grin, cientista social e professor da Fundação Getulio Vargas.
Ciente da necessidade de renovar a agenda, a equipe de Lula reforçou a artilharia sobre a redução do IR. No perfil oficial do governo no Instagram, as três primeiras publicações fixadas no topo são peças relativas ao tema. No YouTube, há seis vídeos publicitários sobre o benefício. Neste mês, os cidadãos também passaram a receber mensagens na conta pessoal do Gov.br e do WhatsApp informando o início da nova faixa de isenção. “O desempenho de Lula é tradicionalmente melhor na renda mais baixa, mas esses já eram isentos”, avalia Yuri Sanches, diretor do instituto de pesquisas AtlasIntel. “Com a ampliação das faixas, o governo tenta chegar a uma parcela da classe média que foi ficando cada vez mais vinculada ao bolsonarismo.” O assédio ao novo público é tanto que até entrou na mira da oposição — o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) anunciou que vai acionar o Tribunal Superior Eleitoral para apurar o caráter eleitoral da medida. “Querem mesmo que a gente acredite que isso é ‘comunicação institucional’ e não campanha antecipada?”, afirma.
Na frente econômica, a largada está dada e o impacto não é desprezível. “A atividade está em desaceleração e o agronegócio não vai ter o mesmo avanço de dois dígitos do ano passado”, diz Italo Franca, chefe de política fiscal do banco Santander. “Por isso, a isenção do Imposto de Renda acaba sendo uma das medidas mais importantes para o crescimento de 2026.” A estimativa é de que o produto interno bruto (PIB) cresça entre 1,5% e 2% neste ano. Nas contas do Santander, até 0,3% disso deve vir do aumento de consumo decorrente do benefício tributário. É o maior peso no resultado vindo de uma medida só. Para Braz Ferreira, um aposentado de 64 anos, o plano é transformar o dinheiro extra em lazer. “Eu gosto de ir a restaurantes, ao cinema, viajar, e é isso que devo fazer”, afirma. Ele ganha 5 300 reais por mês do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e terá uma sobra mensal de 270 reais.
O despejo de bilhões de reais na economia, entretanto, tem efeitos colaterais que não podem ser desprezados dentro da atual conjuntura. “É um choque de demanda que faz as empresas produzirem e contratarem mais”, diz Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence. “Mas, com o mercado de trabalho apertado, os salários sobem e pressionam ainda mais a inflação.” A taxa de juros básica Selic está hoje em 15% ao ano, uma dose cavalar de desestímulo aos investimentos. Ela deve finalmente começar a ser cortada pelo Banco Central em março, mas de maneira lenta. As expectativas do mercado são de que a Selic encerre 2026 perto dos 12%, uma taxa ainda bastante amarga.
A projeção da 4intelligence é de que, sem o estímulo bilionário do IR, a taxa poderia cair até 0,9 ponto percentual mais que isso. Já a inflação, que está girando em torno dos 4% ao ano, poderia terminar o ano até 0,6 ponto menor — e chegar bem mais depressa à meta de 3%, que não é alcançada há anos. Com os juros mais altos por mais tempo, o resultado pode ser um PIB ainda mais deprimido em 2027. O Santander estima um crescimento de apenas 1% para o ano que vem, quando os efeitos da isenção do IR já terão se diluído.
Com isso, mais uma vez o país pode ver novamente o mesmo filme: o dos efeitos colaterais da tentativa dos governos petistas de turbinar a economia somente à base do incremento do consumo, desprezando totalmente consequências negativas como o endividamento e a inflação. Para o Palácio do Planalto, no entanto, o futuro que importa é o horizonte das eleições de 2026.

