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Esportes

Como é a ‘Olimpíada’ em que vale até doping para quebrar recordes

Publicado em 21/02/2026

Imagem: Arte UOL/IA

Por Alexandre Araújo Do UOL, no Rio

O que acontece em Las Vegas não vai ficar em Las Vegas quando os Enhanced Games terminarem. Tanto que a competição, considerada a mais polêmica dos últimos anos, tem sido chamada de “Olimpíada do Doping”.

Entre 21 e 24 de maio de 2026, no Resorts World Las Vegas, alguns atletas que usam abertamente substâncias proibidas vão tentar quebrar recordes mundiais.

De acordo com o site do evento, serão quatro categorias na natação —50 m e 100 m livre, 50 m e 100 m borboleta—, três no atletismo —100 m sprint, 100 m e 110 m com barreiras—, e levantamento de peso.

A expressão “alguns atletas” é apropriada porque ninguém sabe quantos vão competir. A lista ainda é pequena (apenas 34 competidores aparecem no site), mas tem nomes importantes, como Ben Proud, vice-campeão olímpico nos 50 m livre, e Fred Kerley, campeão mundial e duas vezes medalhista olímpico nos 100 m rasos.

O que, porém, está por trás da iniciativa? A resposta passa pela caneta emagrecedora Ozempic, envolve o nome Trump e, como quase tudo, se resume a (muito) dinheiro.

Kristian Gkolomeev na piscina em evento do Enhanced Games Imagem: Divulgação site oficial

Vale tudo por recordes

Os Enhanced Games —Jogos Aprimorados, em tradução livre— adotam um discurso baseado na autonomia corporal, liberdade científica e transparência.

O objetivo é mostrar atletas com mais valências, e uma das maneiras para isso é quebrar recordes. Isso fica evidente nas declarações dos “reforços” do evento.

“Estou ansioso por este novo capítulo e por competir nos Enhanced Games. O recorde mundial sempre foi o objetivo da minha carreira. Agora, isso me dá a oportunidade de dedicar toda a minha energia a superar meus limites e me tornar o ser humano mais rápido que já existiu”, afirmou Fred Kerley.

O velocista tem 9s76 como melhor tempo nos 100 m e está em busca dos 9s58 de Usain Bolt, recorde mundial desde 2009.

O primeiro recorde já caiu

Um brasileiro se viu, indiretamente, envolvido nesse cenário. No ano passado, o nadador australiano James Magnussen —que havia se aposentado em 2019— virou notícia ao aceitar US$ 1 milhão para bater, turbinado, o recorde mundial dos 50 m livre, que pertence a César Cielo.

O brasileiro fez a prova em 20s91, marca estabelecida em dezembro de 2009 no Campeonato Brasileiro.

Magnussen encarou, por meses, um regime de treinos intensos comandado pelo australiano Brett Hawke, o mesmo que levou Cielo ao recorde.

Ao mesmo tempo, tinha um protocolo de uso de substâncias proibidas extenso. Quando entrou na piscina, estava muito mais musculoso do que quando nadava em provas controladas. Não conseguiu o recorde, mas Kristian Gkolomeev, outro atleta do Enhanced Games, conseguiu.

Em 25 de fevereiro, em meio às ações dos “Jogos Dopados”, o grego, sozinho na piscina e com um traje Jaked versão 2009 (o mesmo tipo usado por Cielo em seu recorde), nadou em 20s89, dois centésimos a menos que a marca do brasileiro.

Gkolomeev estava treinando e se dopando no mesmo protocolo que o de Magnussen, mas há menos tempo. Os Jogos Aprimorados registraram a marca em um documentário chamado “50 Meters to History: The First Superhuman” (“50 Metros para a História: o Primeiro Super-Humano”).

‘Não posso deixar passar’

A organização dos Jogos Aprimorados tem uma fórmula básica para seduzir os atletas: dinheiro. E a preocupação do mundo olímpico quanto ao assédio financeiro se mostra ainda mais genuína ao ouvir Ben Proud explicar sua presença no evento.

“Tenho 30 anos e a aposentadoria tem sido um assunto de discussão há alguns anos. Nós, atletas do programa olímpico, não ganhamos dinheiro suficiente para nos aposentar, e estou sempre buscando algo que me faça viver um pouco mais.”

-Proud à BBC Radio 5 Live

Ele foi o primeiro atleta britânico a assinar com o torneio, que já conta com outros cinco nadadores -a norte-americana Megan Romano, o grego Kristian Gkolomeev, o australiano James Magnussen, o ucraniano Andrii Govorov e o búlgaro Josif Miladinov.

“Se você analisar os fatos, levaria 13 anos conquistando títulos mundiais só para ganhar o que posso ganhar em uma competição nos Enhanced Games”, disse Proud ao jornal inglês The Guardian.

Fred Kerley foi o primeiro não nadador a aderir. O anúncio foi feito em 17 de setembro, pouco mais de um mês depois de ele ter sido suspenso provisoriamente por “não cumprir com suas obrigações de localização” do regulamento antidoping.

O nadador alemão Marius Kusch, que esteve em Tóquio-2020, foi anunciado em 24 de setembro. Dias depois, o pesista canadense Boady Santavy passou a integrar o quadro de atletas. Em outubro, foi a vez do segundo corredor, o velocista francês Mouhamadou Fall.

Cada evento individual nos Jogos Aprimorados terá prêmio total de US$ 500 mil (cerca de R$ 2,6 milhões), com US$ 250 mil concedidos ao primeiro colocado, além de pagamento por participação e US$ 1 milhão (R$ 5,2 milhões) para quem quebrar recordes mundiais nos 100 m rasos e nos 50 m livre.

Filho de Trump entre os financiadores

O projeto do evento surgiu em 2022, com o empresário australiano Aron D’Souza. Ele considera o controle antidoping ineficaz e que leva os atletas a usarem substâncias em segredo.

“No Enhanced Games, estamos tornando-o um campo justo, nivelado e transparente, para que a inovação possa ser ilustrada de forma bastante pública para apoiar o progresso tecnológico”, disse ele em maio.

Em janeiro de 2024, o torneio anunciou o fim da rodada inicial de investimento e a adesão de nomes como Peter Thiel, co-fundador da PayPal e primeiro investidor externo do Facebook.

Em fevereiro do ano passado, a 1789 Capital, empresa que tem Donald Trump Jr. como sócio, também se juntou ao projeto.

“Os Enhanced Games representam o futuro: competição real, liberdade real e recordes reais a serem quebrados. É sobre excelência, inovação e a dominação norte-americana no palco mundial. Tudo aquilo que envolve o movimento MAGA [Make America Great Again, o lema de campanha de Donald Trump].”

-Donald Trump Jr., filho do presidente dos Estados Unidos

Doping quer ser o novo Ozempic

Em um cenário mais amplo, os Enhanced Games estão no centro de um plano de negócios de venda de produtos que tem o Ozempic como grande inspiração.

A lógica é a seguinte: atletas levam o uso das substâncias ao limite, a ciência encontra as doses seguras e o público geral ganharia acesso a doping supostamente seguro. Da mesma maneira que as canetas emagrecedoras são um atalho para o emagrecimento, o doping gerado pelo Enhanced é um atalho para o corpo sarado.

“Basta olhar para a Dinamarca e a contribuição do Ozempic para o PIB do país para perceber que a medicina esportiva e a tecnologia antienvelhecimento serão os maiores motores econômicos do século 21”, diz o site da primeira Conferência sobre Aprimoramento Humano, no Reino Unido —o evento, realizado em fevereiro de 2023, faz parte da estratégia de divulgação dos Jogos.

“A medicina de desempenho, e o aprimoramento humano de forma mais ampla, é uma proposta de mudança paradigmática, na qual a saúde de um indivíduo é otimizada, ou ‘aprimorada’, conforme mensurado e monitorado por biomarcadores-chave. Dessa forma, doenças potenciais são tratadas assim que —ou mesmo antes que— se tornem uma ameaça crítica, reduzindo, consequentemente, a pressão sobre hospitais e o sistema de saúde curativo em geral”, diz trecho do texto.

Médico compara a nazistas e soviéticos

Pedro Guimarães Coscarelli, professor do Instituto de Educação Física e Desporto e médico do Hospital Universitário Pedro Ernesto, ambos da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), lembra que experimentos anteriores que não seguiram protocolos não deram resultados significativos.

“A experiência mostra que toda vez que alguém tentou burlar a ética, o interesse comum, tivemos problemas e não tivemos benefícios. Seja por experiências secretas de governos dos dois lados das ideologias, seja nos experimentos dos países nazistas durante a 2ª Grande Guerra. Diversos experimentos foram, por motivos diferentes, realizados com o objetivo de descobrir coisas que, por outros meios, talvez, não fossem conseguir. Resultado prático: zero de novidades foi descoberto. Na verdade, expôs pessoas de forma extremamente prejudicial”, disse.

Coscarelli ressalta que é possível obter respostas em curto ou médio prazo, mas desde que o experimento respeite os passos científicos.

“Você faz o experimento com todos os quesitos éticos preenchidos. No final, os resultados são relevantes. ‘Sim, isso funciona. Não, isso não funciona’. Na [epidemia de] Aids foi assim. É possível ter respostas rápidas. Na covid, foi de maneira rápida, mas a metodologia experimental conseguiu traçar informações importantíssimas do vírus”, afirma.

‘Ganho zero’

Coscarelli salientou ainda que, além de atropelos de protocolos que o evento pode apresentar, há um outro obstáculo: o trabalho com o esporte de alto rendimento.

Ele compara os Jogos às batalhas de gladiadores na Roma Antiga, nas quais os grandes riscos —e até as mortes— estavam inseridos no espetáculo.

“Quando você pensa em esporte de alto rendimento, é sempre complicado. Por que tem tão poucas substâncias que mostraram resultados? Não é fácil fazer ciência quando você não consegue reproduzir a coisa simples. Mesmo que o resultado exista, você não consegue ver, porque tem muitas outras variáveis e, em algumas modalidades, se está discutindo décimos de milésimos de segundo

-Pedro Guimarães Coscarelli, professor e médico da Uerj”

Em um artigo escrito em novembro, Travis Tygart, CEO da agência antidoping dos Estados Unidos, disse que os Jogos Aprimorados são um “circo perigoso”

“Embora os idealizadores dos Jogos Aprimorados possam estar buscando lucro rápido, esse lucro viria às custas de crianças ao redor do mundo que acreditam precisar se dopar para perseguir seus sonhos. Desejamos desesperadamente que esse investimento fosse feito nos atletas que atualmente treinam e competem de forma legítima e segura”, afirma.

UOL buscou profissionais da área de saúde para saber os riscos à saúde dos atletas no uso de substâncias anabolizantes, mesmo que em um ambiente controlado.

Flávia Magalhães, médica do esporte que atuou no controle de doping da Copa América de 2019 e dos Jogos Olímpicos Rio-2016, disse que “as consequências podem afetar praticamente todos os sistemas do corpo” e que já foram documentados prejuízos, inclusive, na saúde mental.

“Depressão, ansiedade, agressividade e até ideias suicidas estão entre os efeitos documentados. Em casos de uso injetável, somam-se ainda riscos infecciosos, como HIV e hepatites, além de complicações locais. Esses danos podem surgir rapidamente ou se manifestar anos após a interrupção do uso. A ideia de que ‘todo mundo usa’ não torna a prática menos perigosa, ao contrário, aumenta a pressão psicológica e o risco coletivo.”  

-Flávia Magalhães, médica do esporte

Ela aponta que a organização do evento também tem responsabilidade sobre os efeitos das substâncias e deve ter um protocolo para situações críticas, como infarto, AVC e mal súbito.

“O esporte só é verdadeiramente saudável quando promove desempenho aliado à segurança. O doping não representa evolução, mas uma armadilha que ameaça a saúde, a carreira e até a vida do atleta”, afirmou a médica.

Silvio Gioppato, cardiologista do HC da Unicamp, ressalta ainda que o ganho dos atletas que participam dos Jogos Aprimorados não é uma vantagem real, e sim algo temporário, enquanto os danos à saúde são permanentes.

“Estamos falando de AVCs, insuficiência cardíaca e outras complicações sérias. Não existe vantagem real ou duradoura no uso dessas drogas. O que se ganha em performance é temporário, mas o que se perde em saúde é permanente. A fatura é inevitável.”

-Silvio Gioppato, cardiologista

Após o anúncio de Ben Proud, Jane Rumble, diretora executiva da agência antidoping do Reino Unido, apontou que “é extremamente decepcionante que qualquer atleta britânico considere competir em um evento que vai contra o verdadeiro espírito do esporte (…) É um empreendimento que diminui, em vez de ‘engrandecer’, todos os envolvidos.”

Movimento olímpico tenta evitar deserções

“O mundo dos esportes está desconfiado porque o que acontece em Las Vegas costuma ser questionável. Diria que o mundo olímpico está ouvindo, mas encarando com reservas. Há, porém, uma preocupação em como isso pode afetar a imagem do esporte.”

A declaração foi feita por John Abramson, presidente do Comitê Olímpico das Ilhas Virgens, durante uma reunião da Panam Sports em Luque, Paraguai, às vésperas do início dos Jogos Pan-Americanos Júnior.

O assunto gera tanto desconforto no movimento olímpico que muita gente nem mesmo sabe como falar sobre o tema.

Abordados nesta mesma ocasião, alguns dirigentes de confederações, mesmo fora dos microfones, disseram não ter detalhes do projeto para opinar ou não serem as pessoas indicadas a dar declarações.

Os que toparam falar foram todos em uma mesma direção: a de repelir a ideia. Houve quem afirmasse “não se tratar de esporte”, como foi o caso de Julio César Maglione, presidente do Comitê Olímpico do Uruguai.

“É algo que não tem razão de ser. Quem se dopa mais ou quem se dopa menos, em vez de quem treina e quem se dopa. Para mim, não é esporte.”

“Esse tipo de competição está totalmente fora do que o movimento olímpico prega. Não tem alinhamento com os nossos objetivos, com o que os atletas fazem, que é sempre ter o jogo limpo e promovendo a saúde. Esse evento vai na contramão disso.”

-Marco La Porta, presidente do COB

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