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Política

Caetano, Chico e Gil resgatam caráter político da canção enquanto esquerda tem dificuldade de mobilizar

Publicado em 21/09/2025

Montagem , Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil. Credito Aline Fonseca/Divulgação ////// Chico Buarque no Instagram ///// Greg Salibian/Folhapress

  • Campo progressista só se organiza recorrendo aos grandes artistas da década de 1960

  • Trio se uniu em 1968, na Passeata dos Cem Mil, contra a repressão do regime militar

Por Gustavo Zeitel da (Folha da São Paulo)
São Paulo

Nos momentos em que a conjuntura histórica apresentou um impasse à democracia brasileira, a canção esteve lá. No século 20, os cancionistas elevaram a música popular como a expressão da sensibilidade da população, querendo ser consenso em um país marcado pela heterogeneidade.

A sigla MPB, que hoje tem o sentido banalizado, abrigou, nos anos 1960, um projeto ideológico de enfrentamento à ditadura. A tropicália, criticada por tantos à época, modernizou as artes e ofereceu novos horizontes para a própria esquerda.

Por tudo isso, a participação de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil em um protesto contra a PEC da Blindagem e a anistia aos golpistas do 8 de janeiro de 2023, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pode ser um marco na conjuntura política. A manifestação, que ocorre neste domingo (21), na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, inclui também um ato musical. Protestos com o mesmo teor acontecerão em outras capitais.

É possível depreender alguns aspectos da união de Chico, Caetano e Gil, entre outros artistas. O primeiro deles é a dimensão simbólica de um evento cuja pauta é capaz de mobilizar os três compositores mais importantes do país. Não se trata apenas de popularidade, mas de prestígio social e intelectual.

O protesto pode até não mudar o curso das negociações do centrão, mas é improvável que os parlamentares não confrontem a natureza impopular da matéria. A PEC da Blindagem, aprovada na Câmara, dificulta a investigação de deputados e senadores. O texto estipula que um parlamentar só poderá ser alvo de processo com autorização do Legislativo. Nesse caso, haveria também voto secreto para a autorização.

O tema foi capaz de trazer Chico de volta aos holofotes. Embora seu engajamento político nunca tenha esmorecido, o autor de “Deus Lhe Pague” recolheu-se, nas décadas recentes, em sua elegante discrição. Nesse aspecto, a última vez que se apresentou em um comício foi em 2018, quando cantou “Cálice”, ao lado de Gil, para protestar contra a prisão de Lula (PT), de quem é amigo e apoiador de primeira hora. A manifestação deste domingo vai incluir também a pauta contra a anistia a golpistas, cerzida agora no Congresso Nacional.

Também é sintomático que a manifestação de esquerda, com maior repercussão nas redes sociais, seja protagonizada por esses artistas. Em entrevista à Folha, a ex-deputada Manuela D’Ávila enumerou dificuldades para o campo progressista, sobretudo o desafio de chamar a militância para as ruas.

Em contraste, o bolsonarismo segue ocupando as principais avenidas do país. Nesse cenário, torna-se evidente a ausência de novas lideranças da esquerda e, sobretudo, a incapacidade de mobilizar as massas. O último recurso, nesse sentido, é escorar-se na sensibilização estética, em especial aquela feita por artistas que conciliaram as ambições artísticas com a indústria de massa.

Coube a Caetano, por meio da organização 342, convocar a população e a própria classe artística. Por fim, o protesto de agora resgata o sentido político da música popular brasileira. Para os estudiosos do tema, é bem evidente que o trabalho com a forma canção no Brasil nunca se restringiu à composição musical.

Já nos anos 1930, a canção despontou como a forma artística que refletiu as principais questões da sociabilidade brasileira, como as mazelas sociais dos centros urbanos (Noel Rosa) ou a promessa utópica de um país destinado ao futuro (Ary Barroso). Na década de 1960, Gil, Chico e Caetano enfrentaram o regime militar, marchando juntos na Passeata dos Cem Mil.

Reforçaram ainda o sentido de intervenção da forma canção: “Eu organizo o movimento”, entoava Caetano em um famoso verso de “Tropicália”. Passada a força bruta, Chico se aliou, uma vez mais, ao piano de Francis Hime para criar o hino da redemocratização, “Vai Passar”.

Para a esquerda, o cenário promete ainda ser pior: os artistas mais jovens não devem ter a mesma dimensão política, dado que a canção não ocupa o mesmo lugar na sociedade. Já para a geração de 1960, ir às ruas para falar de anistia não deixa de ser um grande déjà-vu.

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