24.3 C
Rio Branco
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
O RIO BRANCO
Brasil

Ataque dos EUA à Venezuela desafia diplomacia de Lula em ano eleitoral

Publicado em 04/01/2026

Lula ao lado de Mauro Vieira, ministro de Relações Exteriores
Imagem: Ricardo Stuckert / PR

Por Victoria BecharaDo UOL, em São Paulo

A ação dos Estados Unidos na Venezuela impõe desafios à diplomacia do governo Lula
(PT) em ano eleitoral. O presidente brasileiro, que busca a reeleição em 2026, terá de
se equilibrar entre a defesa da soberania venezuelana e a manutenção da relação com
o governo de Donald Trump.

O que aconteceu

Crise entre EUA e Venezuela deixa Lula em posição delicada. O presidente tem se
aproximado de Trump e conseguiu negociar a retirada da maioria das sanções contra o
país, incluindo o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros e a aplicação da Lei
Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Lula condenou bombardeio em Caracas e captura de Nicolás Maduro. O
presidente disse que a ação representa “uma afronta gravíssima à soberania da
Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade
internacional.” No entanto, evitou críticas diretas a Trump.

Situação exigirá muita habilidade diplomática do governo, avalia Marsílea
Gombata. Professora de relações internacionais na FAAP, ela afirma que o Brasil terá
de agir de forma estratégica para não fechar os canais de diálogo com os EUA. Ao
mesmo tempo, o país deve ficar em uma corda bamba, tentando se impor como a maior
economia da América Latina, sem abrir mão da tradição diplomática de mediação, não
interferência e defesa da soberania.

Tema deve ter impacto eleitoral. Na campanha de 2022, bolsonaristas tacharam Lula
como defensor de Maduro e da ditadura venezuelana. “O Brasil deve apoiar a soberania
e autonomia venezuelana, mas com muita cautela, porque esse é um assunto que dá
munição e combustível à oposição”, afirma Regiane Bressan, professora de relações
internacionais na Unifesp.

“Lula paga um preço pelo alinhamento ideológico que tem com a Venezuela”,
diz cientista político. Para Leandro Consentino, professor do Insper, o petista não
costuma ser firme ao condenar a postura de líderes de esquerda como Maduro. O
desafio do presidente brasileiro, afirma o professor, é criticar os ataques à Venezuela
sem passar a imagem de que é condescendente com uma ditadura.

Lula viu sua popularidade cair nas vezes em que falou sobre o tema. Em 2024,
pesquisas de opinião apontaram que a avaliação de Lula foi impactada negativamente
após ele afirmar que existia democracia na Venezuela, por exemplo. Nos últimos meses,
o presidente calibrou o discurso —ele não reconheceu o resultado das últimas eleições
e cobrou Maduro por mais transparência.

“Essa situação gera um ambiente de cautela para o governo”, diz Denilde
Holzhacker, cientista política e professora de relações internacionais
da ESPM. “Nos últimos meses, o governo Lula tentou se distanciar do Maduro
exatamente porque sabe que esse tem um impacto eleitoral interno e mobiliza a opinião
pública”, opina.

“Lula não pode se arriscar muito, tem que levar em conta o cálculo político, mas não
pode deixar de se posicionar —seria um grande erro, levando em conta o histórico da
diplomacia brasileira.”

-Marsílea Gombata, professora de relações internacionais na FAAP

Próximos passos

Reação do Brasil dependerá da transição na Venezuela. Para os especialistas
ouvidos pelo UOL, ainda há muitas incertezas sobre a reação interna no país. Ainda
não há definição sobre quem vai assumir o comando após a queda de Maduro e por
quanto tempo o país ficará sob intervenção do governo americano.

“Neste momento ainda há muitas incertezas sobre como vai ser a reação interna na
Venezuela, se os grupos de apoio a Maduro vão se posicionar, como os americanos
vão fazer esse processo de intervenção. Tudo isso vai ditar o caminho e quais vão ser
as ações não só do Brasil, mas de todos os países da região que já se posicionaram
contrários.”

-Denilde Holzhacker, cientista política e professora de relações internacionais
da ESPM .

Governo fez duas reuniões de emergência ontem. Lula, que está no Rio de
Janeiro, participou por videoconferência. Após a discussão, o governo brasileiro disse
que considera que a vice-presidente, Delcy Rodríguez, está no comando da Venezuela
na ausência de Maduro.

Brasil vai participar de reunião do Conselho de Segurança da ONU. O encontro
acontece na segunda-feira, quando o Brasil vai reiterar sua posição a favor da
soberania da Venezuela. Só então deve acontecer também algum contato com o
governo dos EUA, segundo a diplomata Maria Laura da Rocha, secretária-geral do
Ministério das Relações Exteriores.

Compartilhe:

Artigos Relacionados

Prazo para pagar taxa de inscrição do Enem 2025 termina hoje

Marcio Nunes

Ator Ney Latorraca morre aos 80 anos no Rio de Janeiro

Jamile Romano

Lula só reinstalou comissão de mortos e desaparecidos após ordem judicial

Raimundo Souza

Novas regras de segurança do Pix entram em vigor; veja mudanças

Marcio Nunes

Operação Hagnos: Polícia Civil do Acre promove ações em defesa de crianças e adolescentes

Raimundo Souza

STF vota hoje sobre perda do mandato de Carla Zambelli

Kevin Souza