Publicado em 01/03/2026
Aiatolá Alireza Arafi é escolhido para conduzir o processo de escolha de novo líder supremo para o Irã
Imagem: Reprodução
(Do UOL, em São Paulo)
O aiatolá Alireza Arafi foi eleito hoje como líder supremo interino do Irã para comandar o processo de escolha de um novo comandante para o país, informou a Reuters e as agências iranianas. O anúncio ocorre um dia após a morte de Ali Khamenei durante ataques ao Irã coordenados entre os Estados Unidos e Israel.
O que aconteceu
Arafi foi eleito o chefe do Conselho de Liderança do Irã com a tarefa de comandar o processo de escolha de um novo líder supremo. Arafi foi nomeado como membro jurista do conselho —um órgão também temporário encarregado de cumprir o papel atribuído ao líder supremo até que a Assembleia de Peritos eleja um novo líder.
O líder supremo temporário era membro clérigo do Conselho dos Guardiões. Agora, Arafi fará parte do conselho ao lado do presidente Masoud Pezeshkian e do chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei.
Como é a estrutura de poder no Irã
Sistema iraniano de poder reúne líderes eleitos, clérigos nomeados e militares. Existem conselhos não eleitos que exercem imenso poder e que são monitorados por órgãos eleitos ou semieleitos. O líder supremo Ali Khamenei estava no topo da hierarquia política e militar do Irã. Ele foi nomeado de forma vitalícia em 1989 pela Assembleia dos Peritos.
Aiatolá Ali Khamenei reunia o poder direto ou indireto sobre todos os assuntos do Estado —da política interna à externa. O artigo 110 da Constituição iraniana descreve os deveres e poderes do líder supremo. Ele nomeia os principais funcionários, incluindo os chefes da mídia estatal e do Judiciário, e tem representantes em quase todas as principais organizações.
Assembleia dos peritos é composta por 88 membros. É um órgão de clérigos islâmicos encarregado de nomear, supervisionar as atividades e, se necessário, destituir o líder supremo do Irã. Eles são eleitos pelo voto direto da população a cada oito anos. Apenas clérigos podem concorrer, e as candidaturas devem ser aprovadas pelo Conselho de Guardiães.
Eleito em 2024, presidente do Irã, Masoud Pezeshkian é conhecido por postura moderada. Ele venceu a eleição presidencial antecipada do Irã em julho de 2024, após a morte repentina do então presidente, Ebrahim Raisi, num acidente de helicóptero dois meses antes. Ele é o nono presidente da república islâmica e o segundo oficial mais graduado do país. Presidentes iranianos têm mandatos de quatro anos.
Conselho dos Guardiães tem função de garantir que a legislação aprovada pelo parlamento esteja em conformidade com a Constituição e com os princípios islâmicos. O órgão tem 12 membros —seis membros são clérigos islâmicos nomeados diretamente pelo líder supremo e os outros seis são juristas selecionados pelo Parlamento.
Conselho de Discernimento é a instituição encarregada de mediar disputas entre o Parlamento e o Conselho dos Guardiães. O órgão atua especialmente quando as leis propostas entram em conflito com a lei islâmica ou a Constituição. O órgão funciona também como uma extensão da autoridade do líder supremo, influenciando a política nacional e garantindo a continuidade do sistema político durante conflitos internos ou crises.
Guarda Revolucionária do Irã começou como uma milícia voluntária encarregada de proteger o novo regime. A guarda foi fundada após a Revolução Islâmica de 1979. Durante a Guerra Irã-Iraque, de 1980 a 1988, evoluiu para uma força militar paralela. Após o conflito, a Guarda Revolucionária expandiu sua influência e ampliou a presença nas esferas econômica e política do Irã.
Parlamento do Irã é conhecido como Majlis, ou ICA. Trata-se de uma legislatura unicameral de 290 membros eleitos para mandatos de quatro anos por meio de eleições nacionais diretas. As mais recentes foram realizadas em março de 2024. O presidente é Mohammad Bagher Qalibaf, eleito em 2020 e reeleito em 2025.
Morte do líder supremo do Irã
“O Líder Supremo da Revolução Islâmica do Irã foi martirizado”, divulgou a Irna, agência estatal de notícias. “A Deus pertencemos e a Ele retornaremos”, diz o texto. A morte do aiatolá também foi comunicada na rede de televisão. Khamenei morreu no escritório onde trabalhava, segundo a mídia estatal iraniana, informou a Reuters. O líder supremo “estava cumprindo suas funções designadas e estava presente em seu local de trabalho” quando foi morto.
Governo iraniano decretou 40 dias de luto e sete dias de feriado nacional. Uma nota oficial declara que Khamenei representava um “modelo de fé, jihad e resistência”, ressaltando que ele foi “martirizado após brutal ataque perpetrado pelo governo criminoso dos Estados Unidos e pelo regime sionista maligno [Israel]”.
Irã destacou que Khamenei marcou um capítulo de governança na história do Islã. Para eles, o líder supremo foi responsável por liderar a nação islâmica contra a descrença, a tirania e a arrogância até o último momento de “sua vida abençoada e histórica”.
Morte do líder supremo “jamais ficará impune”, disse governo. O texto afirma que o episódio marcará o início de uma nova página na história do mundo islâmico e do xiismo. “Desta vez também, com toda a nossa força e determinação, com o apoio da nação islâmica e dos povos livres do mundo, faremos com que os perpetradores e comandantes deste grande crime se arrependam.”
Mídia estatal confirmou a informação horas após Donald Trump ter anunciado que Khamenei estava morto. Pouco antes, em um breve pronunciamento, Benjamin Netanyahu disse que havia muitos sinais de que Khamenei “não estava mais entre nós”. O premiê israelense, porém, não confirmou explicitamente a morte.
Após o pronunciamento de Netanyahu, o chanceler do Irã chegou a negar a morte do aiatolá. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, afirmou à ABC News que o líder supremo do Irã estava “são e salvo”.
A filha, o genro e o neto do líder supremo do Irã também teriam sido mortos nos ataques conjuntos dos EUA e de Israel. Teerã ainda não se manifestou oficialmente. A informação foi publicada pelo site Al Jazeera, que cita a agência de notícias Fars, alinhada à Guarda Revolucionária Islâmica.
Entenda o ataque coordenado
Estados Unidos e Israel lançaram na madrugada de sábado (28) um ataque coordenado contra o Irã, que declarou ter retaliado atacando bases militares americanas no Oriente Médio. Trump disse que o objetivo da ação era defender o povo americano.
Outras autoridades iranianas também morreram, segundo agências de notícias. O comandante da Guarda Revolucionária do Irã, general Mohammad Pakpour, e o ministro da Defesa iraniano, Amir Nasirzadeh, estariam entre as vítimas dos bombardeios israelenses, segundo a Reuters. Autoridades de Israel também sustentam que ambos morreram. Sem citar nome, Araghchi disse que dois comandantes morreram nas ações, mas que os funcionários de alto escalão sobreviveram.
Explosões também foram ouvidas em outras quatro cidades do Irã (Isfahan, Qom, Karaj, Kermanshah). As autoridades suspenderam o tráfego aéreo no país, enquanto serviços de telefonia e internet apresentam falhas graves, segundo jornalistas locais.
Em resposta ao ataque, forças iranianas lançaram mísseis contra Israel, que imediatamente fechou o espaço aéreo e declarou estado de emergência. Por precaução, escolas e prédios públicos em Jerusalém permanecerão fechados até a tarde de segunda-feira (2). A Força Aérea de Israel informou que interceptou mísseis do Irã. Israel detectou o ataque após tomar medidas de segurança contra possíveis retaliações. “Neste momento, a Força Aérea está trabalhando para interceptar e atacar as ameaças”, informaram as Forças Armadas israelenses.
Irã retaliou instalações militares dos EUA, afirmou autoridade americana. Até o momento, foram alvejadas instalações localizadas no Qatar, no Kuwait, nos Emirados Árabes Unidos, no Bahrein, na Jordânia e no norte do Iraque.
*Com informações de Deutschewelle, BBC e Reuters.

