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Política

Ação de Trump acirra retórica eleitoral com munição a bolsonaristas e cautela de Lula

Publicado em 04/01/2026

Montagem: da esq. para a dir., Donald Trump e Lula durante encontro na Malásia, em outubro; Nicolás Maduro Lula após entrevista coletiva no Palácio do Planalto, em Brasília, maio de 2023 – Ricardo Stuckert; Evaristo Sá/PR; AFP

  • Flávio e irmãos criticam comunismo e Foro de SP, e direita fala em apoio de americano na eleição de 2026 e tendência na América Latina

  • Esquerda quer reforçar defesa da soberania e da democracia e vê possível interferência americana no pleito presidencial

Por Carolina Linhares | Folha de São Paulo

São Paulo
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela neste sábado (3) acirrou o embate político-eleitoral com representantes do bolsonarismo e da direita usando o episódio para criticar o presidente Lula (PT), enquanto o petista busca um discurso cauteloso diante do tema que já vinha gerando desgaste para a esquerda em disputas passadas.

Políticos ouvidos pela reportagem afirmam que a ação militar de Donald Trump para derrubar o regime do ditador Nicolás Maduro deve ser um assunto explorado na disputa presidencial de outubro, em que Lula buscará se reeleger e que tem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro (PL), como pré-candidato.

Nomes da esquerda e da direita, porém, ponderam que os reflexos eleitorais dependem do desenrolar da situação incerta no comando do país vizinho, com Maduro capturado e Trump anunciando que os EUA governarão a Venezuela até uma transição.

A família Bolsonaro usou o ataque como gancho para ativar a retórica contra o comunismo e o Foro de São Paulo.

Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e outros governadores da direita, como Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Ratinho Jr. (PSD-PR), comemoraram a libertação da Venezuela de uma ditadura.

Todos esses são fiéis apoiadores de Bolsonaro, ex-presidente condenado e preso por ter liderado uma tentativa de golpe após a derrota nas eleições de 2022.

Já a esquerda investe em reforçar o discurso em defesa da soberania e da democracia, estratégia utilizada pelo governo Lula contra o tarifaço imposto por Trump. Deputados do campo apontam o interesse do americano pelo petróleo da Venezuela e veem risco de interferência dos EUA na eleição de outubro.

Ao comentar a queda de Maduro, Lula evitou mencionar o nome do ditador, a quem chama de presidente, e tampouco citou os EUA ou Trump diretamente. Deputados da direita afirmam que o petista tenta se desvencilhar de Maduro, mas não terá sucesso.

“Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, disse o petista no X.

“Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo”, completou.

Lula tem mantido boa relação com Maduro e o recebeu no Palácio do Planalto em maio de 2023. Em 2024, porém, o presidente não reconheceu a vitória do ditador venezuelano, que foi proclamado reeleito apesar das acusações de fraude.

Por outro lado, o petista também tem buscado uma boa posição junto a Trump, com quem se encontrou em outubro —depois disso, o americano voltou atrás em tarifas e sanções ao Brasil.

A proximidade de Lula com Maduro e a interpretação de que a queda do ditador na Venezuela pode ser um prenúncio do resultado da eleição de 2026 foram explorados por possíveis candidatos da oposição, como Tarcísio e Michelle Bolsonaro (PL).

“A Venezuela agora está vencendo a esquerda e que, no final do ano, o Brasil também vença”, publicou o governador em vídeo.

Ao falar sobre os efeitos da ditadura, o post exibe imagens da reunião entre Lula e Maduro. “Tudo isso só foi possível ao longo do tempo porque houve conivência, omissão e até apoio explícito de quem insistiu em chamar um ditador de companheiro”, diz.

Em nota, Michelle diz que Lula é amigo de Maduro e que seus governos se parecem ao defenderem traficantes e perseguirem a oposição num disfarce de defesa da democracia.

“A operação americana […] é, também, um aviso para todos os poderosos de outros países da América do Sul que, fazendo parte do mesmo grupo e alinhados ao narcoditador venezuelano, tentam copiar em seus países o modus operandi de Maduro. […] O recado foi bastante claro: Ditadores disfarçados de democratas e defensores de traficantes, coloquem a ‘Barba’ de molho”, diz.

“A América Latina se cansou da esquerda”, afirma o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL), apontando que a tendência é vista na Bolívia, Chile e Argentina. “A esquerda não teve a capacidade de rever conceitos ultrapassados de socialismo e comunismo.”

Sóstenes afirma ainda que apontar o flerte da esquerda com a ditadura será uma das prioridades de Flávio na campanha e que, apesar da recente afinidade entre Lula e Trump, o americano “terá um posicionamento claro a favor do candidato da direita” em outubro.

Flávio e os irmãos Carlos e Eduardo reforçaram a munição contra Lula a partir do episódio. O senador afirmou que o comunismo não traz prosperidade e que as ditaduras caem “quando os povos escolhem a liberdade”.

Também atacou indiretamente o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), alvo dos bolsonaristas após a derrota de 2022. “Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas…”

Na opinião do deputado Jilmar Tatto (SP), vice-presidente nacional do PT, a direita não vai conseguir desgastar Lula porque a ação americana vai fortalecer a defesa da soberania e da democracia.

“Só o Lula consegue liderar essa frente democrática na América Latina. Então, se os bolsonaristas quiserem fazer esse debate, vão perder mais uma”, diz.

Pressionado entre Trump e Maduro, o caminho de Lula será o de pregar soberania. “O presidente Lula, como o PT, tem uma posição histórica pela autodeterminação dos povos e soberania de cada país”, afirma Tatto.

Para a presidente do PSOL, Paula Coradi, a soberania será uma questão da eleição de 2026, dado que Trump deixou claro seu plano de intervenção na América Latina. “Devemos nos preparar para a interferência direta de Trump nas eleições do Brasil. A direita não defende a soberania, é subserviente, como foi no tarifaço.”

“Não importa o que pensamos do governo Maduro, não tem a ver com o tipo de democracia que existe ou não na Venezuela. O que aconteceu foi um ataque a um país pacífico e soberano”, diz Coradi.

Na mesma linha de Lula, o posicionamento do PT não cita Trump e tampouco critica o regime de Maduro. “O bombardeio em Caracas e o sequestro do presidente configuram a mais grave agressão internacional registrada na América do Sul no século 21”, diz.

“A soberania dos povos, a solução pacífica das controvérsias e o respeito ao direito internacional constituem princípios centrais da política externa do PT”, completa.

Em resposta à estratégia da esquerda, Flávio ironizou o fato de haver “gente no Brasil preocupada com a ‘soberania’ da Venezuela”.

“Não se trata de soberania. Trata-se de opressão, medo e assassinato de adversários políticos. Quem relativiza isso não está defendendo povos. Está defendendo ditaduras”, publicou.

Entre quem se manifestou criticando igualmente a ditadura de Maduro e o ataque de Trump, estão o governador Eduardo Leite (PSD-RS) e os partidos PSB e PSDB.

 

 

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