Publicado em 03/01/2026
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. (Nicholas Kamm and Federico Parra/AFP)
Integrantes do Itamaraty veem ataque à Venezuela como precedente perigoso que expõe países da região à coerção militar
-Por Marcela Rahal | VEJA
O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, neste sábado (3), que
resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia
Flores, além de bombardeios na capital do país, provocou forte apreensão
entre diplomatas brasileiros. À coluna, embaixadores classificaram o episódio
como um fato sem precedentes recentes na América do Sul e avaliam que a
reação internacional ainda é incerta.
“Além de violar diretamente a Carta da ONU sobre regras uso da força entre
países, demonstra que ninguém mais está a salvo na região à ameaça e ao uso
da força militar e da coerção”, disse um integrante do Itamaraty.
Segundo o presidente dos Estados Unidos, o ditador está sob custódia em um
navio militar americano. O casal será julgado, em Nova York. Donald Trump
afirmou que o líder venezuelano e sua esposa responderão por acusações
relacionadas a narcoterrorismo e tráfico de drogas.
No âmbito diplomático, ainda não há definição sobre uma eventual
convocação de reunião de emergência da Organização dos Estados Americanos
(OEA). Segundo um diplomata, a via considerada mais provável é o Conselho
de Segurança da ONU, embora não esteja descartada uma discussão também
na OEA. “Embaixadores ainda aguardam instruções de seus governos, e uma
reunião na OEA tenderia a se limitar a discursos”.
Após a divulgação de um pronunciamento do presidente Lula nas redes
sociais, diplomatas indicaram que aquela manifestação reflete, por ora, a
posição oficial do governo. “Ainda não temos orientação específica sobre a
OEA, inclusive porque o tema é de competência prioritária da ONU. Seguimos
aguardando diretrizes”, disse um embaixador.
Na leitura desses interlocutores, a ação americana cria um precedente perigoso
ao demonstrar que nenhum país da região estaria imune à coerção militar.
Mesmo governos que hoje celebrem a ofensiva, por divergências ideológicas
com Caracas, poderiam no futuro ser afetados por decisões unilaterais
semelhantes, com perda de soberania e independência.
Diplomatas também alertam para o risco de maior instabilidade na Venezuela,
com possibilidade de agravamento do fluxo de refugiados e aumento do caos
regional. “Ninguém sabe ainda como reagir quando um dos países que foi
garantidor da ordem internacional do pós-guerra passa a ser visto como
sabotador dessa mesma ordem”.
Questionado sobre um possível isolamento do Brasil, um diplomata rejeitou
essa hipótese. Segundo ele, a defesa do direito internacional e das instituições
multilaterais pode, ao contrário, despertar outros países para os riscos do
desrespeito às regras básicas entre Estados. “Nossa arma é o direito, não o
poder militar. Seria miopia política apoiar a ação apenas por discordância
ideológica do governo venezuelano”, concluiu, citando precedentes como
Iraque, Afeganistão e Líbia.

