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Análise Gilberto Gil se despede com vigor e ‘gente de casa’ no palco: ‘A vida é por aqui’

Publicado em 29/03/2026

O cantor Gilberto Gil se apresentou no Allianz Parque na noite deste sábado, 28, na despedida da turnê ‘Tempo Rei’ Foto: Taba Benedicto/ Estadão

O encerramento da turnê ‘Tempo Rei’ — a última grandiosa do compositor — teve a família em cena e uma homenagem a Preta Gil

Análise por Danilo Casaletti | Repórter de Cultura do Estadão

Muitos clichês poderiam surgir do show de despedida de Gilberto Gil da turnê Tempo Rei, a última grandiosa da carreira no músico baiano, apresentado na noite deste sábado, 28, no Allianz Parque: “Tempo rei, oh tempo rei”. “Aquele abraço, Gilberto Gil”. “Não me adianta nem me abandonar, Gil”. Todos eles, pela definição, são banais, ficam no raso, no senso comum. Nenhum serve para expressar o que é assistir, ali, diante de seus olhos, um artista como Gil colocar um ponto final em uma parte importante de sua carreira.

Mais do que um ‘fazedor’ de música, ou ‘musgueiro’, como ele, quando criança, respondia o que desejava ser quando adulto, Gil é nome fundamental na cultura brasileira. Canções, acordes, opiniões, prisão, exílio, silêncios, discursos e entrevistas do artista ajudam também a contar a história do Brasil nos últimos 60 anos. Não é pouca coisa.

Ao ouvir os primeiros acordes de Palco, música que abre o show, na qual Gil celebra justamente seu prazer de estar em cena, a vontade é de pedir para que o músico se demore um pouco mais nele. Que Gil espere ao menos mais um bocado para dar à geração atual que está descobrindo suas canções agora o prazer de ver seu fogo que parece eterno espantando o inferno para longe daqui. Mas, há o tempo: quase 84 anos. O tempo não admite metáforas.

Na noite deste sábado, em um estádio quase lotado, Gil estava, sobretudo, feliz — e vigoroso, como mostrou ao dançar, em vários momentos, como o em que seu filho Ben Gil puxa na guitarra o riff de João Sabino, canção dos anos 1970. A voz, que se mostrou um pouco cansada ao longo da turnê, estava firme, mesmo em tons mais baixos em certos momentos.

Mais do que as estripulias vocais de velhos tempos, o que vale é ouvir o que Gil tem a dizer. A trilogia Re: Refazenda (suas raízes nordestinas), Refavela (a cultura diáspora) e Realce (o direito à festa) são três pontos altos do show, que manteve praticamente o mesmo roteiro da primeira apresentação, com exceção da exclusão de Rock do Segurança, rock sensacional lançado por ele em 1983 no álbum Raça Humana, mas menos conhecido em meio aos demais hits.

A Novidade, parceria dele com Os Paralamas do Sucesso, mostra que é possível falar e entender sobre a desigualdade social brasileira por meio de uma figura tão grotesca quanto apetitosa que tem forma de sereia com rabo de baleia. Não Chores Mais e Cálice relembram um tempo em que havia “hipócritas disfarçados, rondando ao redor” de quem ousava pensar diferente.

Ao contrário do que ocorreu em toda a turnê, Gil não recebeu amigos para cantar com ele — Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Jorge Ben Jor, Djavan, Lenine, Fafá de Belém, Marisa Monte e Liniker foram alguns dos convidados. Para o encerramento, Gil chamou “gente de casa”, como ele definiu.

Com Fran Gil, filho de Preta Gil (1974-2025), e a cantora Mãeana, sua nora, mulher de Ben, cantou Queremos Saber, música dele que ficou associada com a interpretação de Erasmo Carlos (1941-2022). “Queremos saber o que vão fazer com as novas descobertas / Queremos notícia mais séria / Sobre a descoberta da antimatéria / E suas implicações / Na emancipação do homem“. Era Gil, nos anos 1970, tentando prever o futuro.

Gil sempre teve esse olhar para o que não está aqui. Em Se Eu Quiser Falar Com Deus, outro momento do show, diz que a busca às vezes pode dar em algo tão óbvio: nada do que pensamos encontrar.

Homem que fala também de religiosidade e do extra mundo, Gil — no momento em que os Gilsons (trio formado pelo filho de Preta, Fran, com João e José, respectivamente neto e filho de Gil) homenageiam Preta com Nossa Gente, samba reggae do Olodum — diz que não é possível afirmar com precisão se a filha que morreu está em algum lugar ou simplesmente deixou de existir. “A vida é por aqui. Vamos fazendo-a“, diz.

E Gil faz. Com a neta, Flor Gil, ele cantou Estrela. Com a adesão de outro neto, Bento, cantaram A Paz. Ao ver a bisneta Sol de Maria no palco, brincou que, quem sabe, ainda poderá ser tataravô. “Os filhos valeram, os netos valem mais ainda”. Ao se despedir dos palcos, passa o bastão para os seus.

Logo que anunciou a turnê Tempo Rei, Gil conversou com o Estadão, em julho de 2024 — foi a primeira entrevista do compositor sobre a despedida dos palcos para um veículo impresso. Na ocasião, falou que “não é mais o artista da vez”. De lá para cá, fez 30 shows da turnê, passou por 10 capitais, apresentando-se para quase 10 milhões de pessoas. Em setembro, estará no Rock in Rio, no mesmo dia que Elton John.

Essa preocupação de Gil, de não “ser o da vez”, parece a atualização de uma canção que ele fez em 1966, Lunik 9, infelizmente fora do roteiro de Tempo Rei. Nela, Gil aborda a chegada soviética à Lua. “A mim me resta disso tudo uma tristeza só / Talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção / O que será do verso sem luar? / O que será do mar, da flor, do violão?”. O que será da geração da era pré-streaming agora que o tempo dela se esgota?

A produtora de Tempo Rei, a 30e, fez um mural com o rosto de Gil em um prédio em frente a uma das entradas do Allianz Parque, casa que por mais vezes recebeu a turnê de despedida do compositor. Gil está lá, pintado, em meio a gérberas, flores que têm origem africana.

Um dia a pintura vai desbotar ou um dos muitos prédios horrendos que surgem em São Paulo em questão de dias vai tapar a visão do rosto de Gil. Restará, então, a cuca de quem poderá, em um clique ou qualquer outra nova descoberta de como ouvir música, tocar uma composição de Gilberto Gil.

 

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