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sábado, 14 de março de 2026
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Vítima de Epstein detalha rotina de abusos em livro póstumo; leia trecho

Publicado em 14/03/2026

Foto: Virginia Roberts Giuffre, ainda adolescente, à época em que conheceu Jeffrey Epstein
Imagem: Arquivo pessoal

Adriana NegreirosDo UOL, em São Paulo

Num dos trechos mais chocantes de “Garota de Ninguém”, livro recém-lançado no Brasil
pela editora Objetiva, Virginia Roberts Giuffre conta seu primeiro encontro com Jeffrey
Epstein, o financista norte-americano que manteve uma rede de exploração sexual de
adolescentes.

Virginia tinha 16 anos e trabalhava como atendente no resort Mar-a-Lago, do agora
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quando conheceu Ghislaine
Maxwell, parceira de Epstein, e responsável por recrutar as meninas que seriam
oferecidas para empresários, políticos, escritores, intelectuais e integrantes da realeza
britânica.

Após atrair Virginia para a mansão de Epstein sob a promessa de contratá-la como
massoterapeuta, Ghislaine a apresentou para o financista. Ele estava nu, deitado numa
mesa de massagens.

A partir desse momento, a autora narra uma sequência de horrores, que culmina com a
própria em uma sauna, massageando os pés do homem –após ser forçada a fazer sexo
oral e vaginal com ele.

“Que fofo, ela ainda usa calcinha de criança”, teria dito Epstein, então com 47 anos, segundo o relato da autora, ao vê-la com roupa íntima estampada com pequenos corações.

“Só alguns anos mais nova do que minhas filhas”

Virginia não viu o livro (que escreveu com a ajuda da jornalista Amy Wallace) chegar às livrarias, em outubro de 2025 —ela se suicidou meses antes, aos 41 anos, em sua fazenda na Austrália, deixando órfãos de mãe os três filhos que teve com Robbie Giuffre, que ela acusaria de submetê-la a violência doméstica.

Deixou de acompanhar o impacto que suas revelações causaram na opinião pública mundial, num momento em que o governo Trump é acusado de censurar parte dos arquivos do caso nos EUA.

Virginia Giuffre (centro) apresentou foto como prova de que havia conhecido o príncipe Andrew (esq.) por meio de Ghislaine Maxwell (dir.) e Epstein Imagem: Reprodução

Os relatos de Virginia foram decisivos para levar Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein à prisão —onde ele se suicidou em agosto de 2019 (ela está presa).

Virginia também afirma ter sido abusada pelo agente francês Jean-Luc Brunel, que esteve no Brasil em 2019 para recrutar modelos (outro que se suicidou na prisão, em 2022), e pelo então príncipe Andrew, da Inglaterra, detido em fevereiro deste ano, suspeito de má conduta em cargo público em razão de seus vínculos com Epstein e solto horas depois.

No livro “Garota de Ninguém” (358 páginas, R$ 79,90, livro físico, e R$ 29,90, ebook), ela conta detalhes da ocasião em que afirma ter sido forçada a fazer sexo com o príncipe. Disse que, ao conhecê-lo, ouviu que ela, aos 17, era “só alguns anos mais nova” do que as filhas dele (que estava com 41). “Acho que vamos ter que trocá-la em breve”, teria respondido Epstein.

Ela permaneceu no esquema de exploração até os 19 anos, quando conseguiu fugir durante uma viagem a Chiang Mai, para onde foi enviada pelo casal com a missão de encontrar uma jovem tailandesa em quem Epstein estava interessado.

Capa do livro “Garota de Ninguém”, de Virginia Roberts Giuffre, recém-lançado no Brasil pela Objetiva Imagem: Reprodução

Leia trecho do livro:

Epstein gostava de compartilhar comigo o que ele insistia que eram justificativas “científicas” para o anseio dele por garotas jovens. Por exemplo, ele só fazia sexo com garotas que já tinham começado a menstruar. Por quê? Para ele poder ter certeza de que, como eram biologicamente capazes de gerar filhos, tinham “idade”. Eu ficava perplexa quando ele dizia essas coisas, mas ficava calada. Por mais nova que uma garota parecesse, ou por mais que fosse inexperiente sexualmente, se tivesse menstruado, ele achava que podia justificar o abuso como parte da ordem natural das coisas. Eu nunca sabia para quem ele se imaginava apresentando esse argumento: para as garotas? Para os sócios de trabalho? Para a polícia? Para si mesmo? Mas estava claro que ele tinha certa alegria no que via como uma brecha no código moral da sociedade.

O fato de diferentes nações e estados definirem a idade de consentimento de formas distintas (na Flórida é dezoito anos, em Nova York, dezessete, na Inglaterra é dezesseis) só dava mais munição para ele. Ele dizia que essas inconsistências provavam que aquelas leis eram arbitrárias e sem sentido; ninguém conseguia convencê-lo de que sexo com menores era errado porque ninguém conseguia concordar sobre o que era um menor de idade! Epstein também alegava que, como as mulheres, diferente dos homens, podem ter múltiplos orgasmos, isso significava que elas deviam ter múltiplos parceiros sexuais também. A lógica dele era torta, baseada em pseudociência, mas ele a apresentava como realidade. Eu nunca o questionei. Era mais fácil fingir que acreditava nele.
(…)

Uma coisa que ocorria cada vez mais era que eu estava sendo traficada sexualmente por Epstein e Maxwell. A segunda pessoa para quem eu fui emprestada foi um professor de psicologia cuja pesquisa Epstein estava ajudando a custear. Dessa vez peguei um voo comercial para Saint Thomas, depois fui levada de barco até a ilha de Epstein, onde o professor me encontrou. Ele era um homenzinho peculiar, de cabelo branco com uma parte calva em cima, e, pelo comportamento nervoso, parecia não estar acostumado a estar com mulheres. Sozinhos na ilha, exceto por uma empregada, passamos dois dias andando de jet ski, caminhando e nadando. O homem não pediu sexo diretamente, mas Epstein deixou claro que era isso que ele esperava que eu fizesse. “Deixe-o feliz, como você fez com o seu primeiro cliente”, disse ele.

Assim, quando o professor pediu em determinado momento “uma das suas famosas massagens, sobre as quais Jeffrey me contou tanto”, eu obedeci e o levei até uma cabana e fiz uma massagem que terminou com sexo. Mas foi só uma vez. Na noite seguinte, o homem me disse que queria ver filmes. Eu mostrei a ele como usar o controle remoto da maior televisão de Epstein e como desligar quando terminasse, depois fui dormir. Fiquei feliz pela noite de folga, mas lembro que fiquei com medo de ter decepcionado o professor de um jeito que ele contaria para Epstein.

O psicólogo foi só o primeiro de muitos acadêmicos de universidades de prestígio a quem fui forçada a atender sexualmente. Eu não sabia na época, mas havia anos Epstein trabalhava para estar sempre perto dos maiores pensadores do mundo e dos maiores best-sellers de livros de ciência, entre eles o f??sico que descobriu os quarks e o cientista de computação que deu consultoria para Stanley Kubrick no icônico filme “2001: Uma odisseia no espaço”.

Em determinado momento, Epstein até receberia o físico teórico Stephen Hawking, entre outros nomes, em um simpósio organizado em torno da pergunta “O que é gravidade?”. Epstein, que tinha abandonado a faculdade, tinha se convencido de que estava no mesmo nível de inovadores e teóricos diplomados, e como custeava muitos dos projetos de pesquisa deles e os levava para viajar em aviões particulares, era bem-vindo nesses grupos. E alguns deles recebiam um bônus: sexo com uma de nós. Nos meses seguintes, eu receberia ordens de atender a muitos homens que depois descobriria serem conhecidos em seus campos de pesquisa. Em uma noite ou outra, Epstein me mandava esperar na sala de massagem até um desses estranhos entrar, claramente esperando por sexo.

Epstein não usava seus recursos para ganhar acesso apenas entre os cientistas — e foi desse jeito que acabei sendo traficada para uma variedade de homens poderosos. Entre eles havia um candidato a governador que logo venceria a eleição em um estado do oeste americano e um antigo senador dos Estados Unidos. Como Epstein não costumava me apresentar para esses homens por nome, eu só descobriria quem eram alguns deles anos depois, quando olhei as fotografias dos parceiros de Epstein e reconheci o rosto daqueles com quem fui obrigada a transar.
(….)

Quando Maxwell e Epstein começaram a me traficar para homens estranhos, muitas vezes eu me perguntei o que eles ganhavam com isso. Uma teoria é que traficavam garotas para alguns conhecidos poderosos na esperança de que devessem favores para eles no futuro. A impressão que tive de muitos daqueles homens é que eles não sabiam abordar mulheres. Desajeitados e imaturos socialmente, era como se os cérebros enormes não tivessem a capacidade de interagir com outras pessoas. Ao dar a eles meninas obedientes, Epstein eliminava a necessidade de eles persuadirem ou atraírem potenciais parceiras, e eles ficavam gratos por isso. Outra teoria, que é apoiada pelo fato de as casas de Epstein terem câmeras em todos os cômodos, era que ele queria gravar homens em posições comprometedoras para chantageá-los depois. Não sei se é verdade, mas sei que Epstein tinha uma videoteca enorme com imagens filmadas nas casas dele. Na casa de Manhattan, o próprio Epstein me mostrou a sala em que monitorava e arquivava as imagens registradas.

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