João Paulo CharleauxColunista convidado*| UOL
O general Augusto Heleno tinha desprezo pela carreira política que decidiu seguir.
Ele sempre acreditou que a farda usada até 2011, quando passou à reserva, o tornava tecnicamente mais competente e moralmente superior aos homens de terno e gravata com os quais passou a lidar a partir da campanha presidencial de 2018.
Foi essa crença na superioridade técnica e moral militar que o levou primeiro à política e depois à participação na trama golpista que culminou em sua condenação à pena de 21 anos de prisão.
Heleno e outros militares de alta patente envolvidos na trama golpista compartilhavam a
ideia segundo a qual a política é inerentemente suja e movida por interesses
mesquinhos, mas que os militares são dotados de características especiais que os
habilita a tomar atalhos institucionais para restituir o que seria o verdadeiro interesse
nacional.
Daí a ideia comum à caserna de que 1964 não foi um golpe, de que os 21 anos
transcorridos daí até 1985 não constituíram uma ditadura e, consequentemente, de que
o 8 de Janeiro não representou nenhuma ruptura da ordem democrática.
Duas passagens evidenciam esse pensamento: primeiro em 2008, quando Heleno,
ainda na ativa, era comandante militar da Amazônia, e, em uma palestra pública sobre
soberania nacional, criticou a política indigenista do governo ao qual devia obediência
como militar. O presidente à época era Lula que, então em seu segundo mandato, puniu
o general, designando-o a ocupar o discreto Departamento de Ciência e Tecnologia do
Exército em vez de nomeá-lo comandante da Força, com o que ele sonhava.
Mais tarde, em 2018, já como ministro de Jair Bolsonaro, Heleno disse, sobre o centrão,
que viria a compor a base de apoio do governo ao qual pertencia: “se gritar pega
ladrão, não fica um, meu irmão”.
As duas passagens mostram publicamente o que, em privado, é percebido de forma
ainda mais nítida: o total desprezo que o general sempre nutriu pela classe política da
qual passou a fazer parte.
O militar acreditava poder prescindir das engrenagens da política tradicional,
subvertendo seus mecanismos por dentro, ainda que, para isso, fosse necessário
extrapolar as prerrogativas da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) para espionar
adversários, plantar notícias falsas sobre suspeitas infundadas a respeito do sistema
eleitoral brasileiro e sabotar a transição de mando quando o governo do qual fez parte
foi derrotado nas urnas.
Como mostra o episódio da Amazônia, Heleno acreditava estar no topo, ainda que,
acima dele, houvesse um presidente civil. E como mostram as declarações sobre o
centrão, ele pensava estar acima daqueles que, na verdade, sempre estiveram a seu
lado.
Pessoas que conviveram com ele pessoalmente disseram ao UOL que essas distorções
na percepção da realidade foram provocadas por uma mistura de vaidade, arrogância e
ambição, que turbinou atitudes crescentemente insubordinadas e confrontadoras em
relação ao meio civil.
Só que “toda essa arrogância se mostrou inútil quando se tratou de entrar na política e
participar de um governo civil”, nota o historiador João Roberto Martins Filho, da Ufscar
(Universidade Federal de São Carlos), autor do livro “O Palácio e a Caserna – A
Dinâmica Militar das Crises Políticas na Ditadura (1964-1969)”.
Ele considera que Heleno e os outros militares de alta patente presos na trama
entraram nessa com “a esperança de controlar, de civilizar e de manipular Bolsonaro,
que mostrou ter uma personalidade que não era de ser controlada, civilizada ou
moderada por ninguém”. Para o historiador, “o mais surpreendente é eles tenham ficado
até o desastre final”, enquanto alegavam ser mais espertos que o capitão.
“Ele se acha mais inteligente que os outros” é a explicação simples dada por um civil
que trabalha no meio militar e acompanhou essa trajetória.
“Heleno sempre foi respeitado como grande estrategista e teve postos-chave no
Exército. Ele era visto como um grande comunicador, como alguém que não corria de
questões espinhosas. Na ascensão de Bolsonaro dentro do Exército, considerava-se
Heleno quase como seu tutor. Depois, viu-se que não controlava ninguém”, disse, sob
condição de anonimato.
A impressão é confirmada por outra fonte, que conviveu pessoalmente com Heleno na
época em que ele regressou do comando da Missão da ONU no Haiti, em 2005, e que
esteve com ele pela última vez após a posse de Lula, em 2023: “Ele sempre teve apreço
pelo poder, por protagonismo. Sempre gostou e buscou isso. Se o caminho era
democrático ou através de um golpe, pouco importa, desde que o resultado fosse estar
no centro da ação e do poder”.
Segundo essa tese, tanto faz para Heleno se o governo é democrático ou não, desde
que a ordem vigente o favoreça. Foi por isso que, mesmo sendo um adversário
ideológico natural de Lula, do PT e da esquerda em geral, Heleno alcançou seu cargo
mais expressivo, o comando dos capacetes azuis no Haiti, por indicação de um
presidente petista.
Da mesma maneira, o fato de ele ter sido nomeado, no início da carreira, em 1977,
ajudante de ordens do então ministro do Exército, Sylvio Frota —um linha-dura demitido
do cargo por Ernesto Geisel por conspirar contra a abertura política—, não o inviabilizou
para ocupar o comando da Amazônia em um governo petista, mais tarde.
Por fim, o embarque no governo Bolsonaro foi democrático, mas sua saída, dali para a
cadeia, foi por tentar um golpe.
Agora, Heleno, que sempre se pôs para cima, fragiliza pela primeira vez a própria
imagem, ao afirmar que tem Alzheimer desde 2018.
A revelação foi feita no exame de corpo de delito, com a intenção de requerer
relaxamentos na prisão, por um problema de saúde até então desconhecido. Pelo
menos duas pessoas ouvidas pelo UOL manifestaram surpresa e desconfiança com a
notícia: “como ele teria ocupado cargos tão importantes sem que ninguém ao redor
notasse as perdas que um Alzheimer acarreta?”, disse uma pessoa que esteve pela
última vez com o general em 2023 —portanto, cinco anos depois do início da doença,
segundo as contas do próprio militar.
O mistério em torno do Alzheimer de Heleno não deve durar muito, pois a medicina tem
os meios de revelar a verdade. Do ponto de vista político, o que surpreende é o recurso
a uma fragilidade de parte de alguém que, até então, vinha galgando degraus em sua
biografia graças à imagem de um militar duro, potente e inabalável.
João Paulo Charleaux é jornalista, autor da série “As Regras da Guerra”, publicada
pela Folha de S.Paulo, e do livro “Ser Estrangeiro – Migração, Asilo e Refúgio ao
Longo da História”, publicado pelo selo Claro Enigma, da Cia das Letras. Trabalhou
durante sete anos (2002-2009) no CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha). Foi
editor assistente de Internacional no jornal O Estado de S. Paulo e correspondente em
Paris do Nexo Jornal
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de
fatos e dados.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

