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Política

Votação do PL Antifacção expõe estratégia do PT e governo para barrar propostas no Congresso

Publicado em 16/11/2025

O relator do PL antifacção, Guilherme Derrite (PP-SP), ao lado do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e outros deputados em entrevista à imprensa

  • Com minoria no plenário, esquerda passou a apostar na pressão social para influenciar Legislativo

  • Tática da PEC da Blindagem foi repetida, mas deputados se dividem quanto ao efeito da campanha

Por Carolina Linhares e Victoria Azevedo | Folha de São Paulo
Brasília

A tramitação do PL Antifacção na Câmara dos Deputados expôs mais uma vez a estratégia da esquerda, do PT e do governo Lula (PT) de incentivar uma campanha em discursos e redes sociais para enfrentar o Congresso e repetir a mobilização que barrou a PEC (proposta de emenda à Constituição) da Blindagem.

Com minoria no plenário em relação ao centrão e à oposição bolsonarista, a esquerda passou a apostar na pressão social para tentar influenciar o debate público e as votações no Legislativo.

Na opinião de opositores, os embates têm a eleição de 2026 como pano de fundo. Eles alertam que fomentar o discurso contra o Congresso pode ter ganhos para o governo a curto prazo, mas traz o risco de, ao mesmo tempo, inviabilizar a relação entre Executivo e Legislativo.

Com ou sem sucesso, a tática foi adotada neste ano na PEC da Blindagem, no tarifaço de Donald Trump, na anistia aos condenados do 8 de Janeiro, na isenção do Imposto de Renda, na MP (medida provisória) do aumento de impostos e agora no PL Antifacção, em uma virada do governo após derrotas no decreto do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e no licenciamento ambiental.

Em todos os casos, o Congresso, por vezes chamado de “inimigo do povo”, foi alvo das críticas. As campanhas se baseiam em um alinhamento dos discursos das autoridades do governo e de aliados e uma ação coordenada nas redes, com foco em vídeos.

Deputados de diferentes campos viram efeito no argumento do PT e do governo de que o relator Guilherme Derrite (PP-SP) pretendia limitar a ação da Polícia Federal e, assim, proteger parlamentares investigados. O PL Antifacção passou a ser chamado de nova PEC da Blindagem.

Como resultado, o secretário de Segurança Pública do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) acabou recuando sobre a PF e desistindo de medidas caras para a direita, como equiparar facções a terroristas. Além disso, a votação foi adiada, e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), teve que sair em defesa da PF pessoalmente.

Como a Folha mostrou, grupos ligados ao PT em aplicativos de mensagens intensificaram a ofensiva contra o relatório afirmando que ele fortalece o crime organizado e mirando o centrão.

Na sexta-feira (14), Motta minimizou os efeitos da repercussão. “O debate sobre o Marco Legal de Combate ao Crime Organizado tomou conta do Brasil. Está nas rodas de conversa, nas redes e na imprensa e isso é ótimo. É o sinal de uma democracia viva! Os partidos podem brigar por narrativas, a direita ou a esquerda podem dizer que venceram a disputa das redes. Essa disputa não me move”, escreveu no X.

Parte dos deputados, por outro lado, diz que a campanha atual não furou a bolha da esquerda e não se compara à PEC da Blindagem, que ensejou até protestos de rua. No tema da segurança, dizem, a opinião pública respalda a linha-dura da direita.

Um deputado do PT afirma que o governo acertou a fórmula ao encampar a retórica da luta entre ricos contra pobres e da “taxação BBB” (bilionários, bets e bancos), que tem respaldo na sociedade. A tendência é usá-la em qualquer matéria impopular apoiada pela direita e pelo centrão.

Segundo deputados da base, assim como os motes de soberania e justiça tributária serviram para que governo saísse das cordas, o embate com Derrite ajudou a recompor a gestão petista em um terreno de fragilidade, a segurança pública.

Até então, o Planalto acumulava uma série de reveses no contexto da operação policial que deixou 121 mortos no Rio, com declarações polêmicas de Lula, a união de governadores da direita e, finalmente, a escolha por Motta de Derrite como relator do projeto do Executivo.

Oposicionistas reconhecem que o vaivém de Derrite no texto e a questão da PF ajudaram a frear críticas antes direcionadas ao governo.

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, por exemplo, divulgou vídeos explicando o texto de Derrite ponto a ponto. O Palácio do Planalto também escalou ministros para falarem com a imprensa, reforçando o discurso de que Derrite propôs fragilizar a PF.

Integrantes do governo apontam que o alinhamento político prévio de vários ministérios na construção do PL Antifacção permitiu que a mensagem também fosse unificada.

A brecha para a ofensiva da esquerda, afirmam aliados e detratores de Derrite, foi aberta pelo erro político do relator, descrito como açodado e inexperiente.

Um deputado do centrão diz que Derrite, ao contrário do governo, não se preparou do ponto de vista da comunicação, e prevaleceu a percepção de que ele queria tutelar a PF, instituição com credibilidade na população. Outro parlamentar do mesmo campo afirma que o adiamento da votação passa a imagem de um Congresso atrapalhado ou covarde.

Um cardeal do grupo aponta ainda que a imagem de Motta também saiu desgastada —junto à opinião pública e também internamente, ao demonstrar fragilidade.

Do outro lado, houve reação por parte do presidente da Câmara, que escalou líderes aliados para defenderem a escolha de Derrite e sua competência. Motta e representantes de sete partidos chegaram a participar ao lado do relator de uma entrevista à imprensa.

A defesa da PF por parte de Motta e o recuo de Derrite, segundo aliados do presidente da Casa, serviu para frear o efeito pretendido pelo PT na opinião pública.

Um interlocutor de Motta afirma que o movimento de ataque ao Congresso vai cobrar um preço. Ele diz enxergar uma postura do Executivo de que a eleição de 2026 já está ganha e, por isso, houve descuido na relação com o Parlamento. O deputado diz que, no fim do dia, o governo precisará mais da Câmara do que a Câmara do governo.

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