Torcedores de Flamengo e Palmeiras em frente ao ônibus que os leva a Lima, rumo a final da Libertadores
Imagem: Adriano Delgado/UOL
Felipe CruzDo UOL, em Lima (Peru)
“A felicidade está na jornada e não no destino”. Esse aforismo não saiu da minha
cabeça nos últimos seis dias. Nesse período, repeti para mim mesmo que a felicidade
estava, sim, na rota de 6.500 km e 144 horas que separam o Rio de Janeiro de Lima, no
Peru, e não no destino final: o estádio Monumental U, palco da final da Libertadores
entre Palmeiras e Flamengo.
Meu objetivo era acompanhar a epopeia de mais de 40 torcedores de ambos os times
que dividiram, durante quase uma semana, o mesmo veículo na linha de ônibus mais
extensa do mundo.
Atravessamos seis estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato
Grosso, Rondônia e Acre; dois fusos horários — o do Centro-Oeste e o do Acre — e
diferentes biomas: Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal e Amazônia. No Peru, subimos (e
descemos) os 4.725 metros de altitude da Cordilheira dos Andes, fomos surpreendidos
por uma nevasca e cruzamos as Linhas de Nazca e o deserto de Huacachina até,
finalmente, chegar a Lima faltando poucas horas para o jogo começar. E com um
detalhe: muitos dos torcedores viajavam sem hospedagem e sem ingressos, na
esperança de comprarem na chegada. Eu e o fotógrafo e cinegrafista Adriano Delgado
estávamos entre os que ainda não tinham ingressos.
Eu já tinha o desejo de fazer essa viagem há algum tempo. O trajeto é mais longo e demorado do que uma hipotética viagem entre Lisboa e Bagdá. A chance surgiu nos últimos dias, quando a Trans Acreana, empresa responsável pela rota, abriu um carro extra para atender à demanda.
Dia 1 — Domingo, 23 de novembro
Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP)
Meu embarque ocorreu na noite de domingo, na Rodoviária do Tietê, em São Paulo. O
ônibus já estava na estrada havia pelo menos oito horas, desde que saiu do Rio de
Janeiro com 25 torcedores flamenguistas que embarcaram na capital fluminense. Em
São Paulo, embarcaram mais 16 torcedores: dez palmeirenses e oito flamenguistas,
além de duas venezuelanas que vivem em Lima e estavam voltando para casa. Milagros
Villarroel, 41 anos, e sua filha, Lelimar, 18, compraram as passagens sem saber que
teriam tantos torcedores como acompanhantes. Como se trata de uma linha regular, as
passagens estavam abertas a todos —inclusive passageiros comuns como elas.
Viemos ao Brasil a turismo para visitar meu pai e estamos voltando para casa. Achamos curioso ter tantos torcedores. A viagem está animada.
-Lelimar Villarroel, companheira de viagem de palmeirenses e flamenguistas.
O restante dos passageiros embarcou nas outras capitais até lotar o ônibus.
Todos se apresentaram em clima de amizade logo no portão de embarque. Viajamos em um ônibus double deck e, no andar de baixo, a disputa era por quem sabia mais curiosidades sobre futebol. No andar de cima rolavam jogos de cartas, valendo o almoço do dia seguinte. As condições do ônibus também ajudaram: poltronas leito, ar-condicionado, internet via satélite, água, cortina para dividir os assentos e cilindro de oxigênio para quem passasse mal nos Andes.
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Com viagens iniciando sempre às quintas-feiras, a linha Trans Acreana costuma ser
utilizada por mochileiros, turistas que querem conhecer o interior do Brasil e peruanos
que precisam transportar bagagens que não caberiam em um avião. Com a recente
divulgação do trajeto no exterior, um dos diretores da empresa me contou que muitos
europeus também passaram a incluir a aventura em seus planos. A rota original segue
até Cusco, ponto de partida para Machu Picchu. Mas, no nosso caso, como era um
carro extra para atender torcedores, houve um desvio por Arequipa para tornar o trajeto
mais rápido.
Dia 2 — Segunda-feira, 24 de novembro
Presidente Epitácio (SP), Campo Grande (MS) e Cuiabá (MT)
Amanhecemos em Presidente Epitácio, cidade às margens do Rio Paraná, onde
tomamos café da manhã. Atravessamos a extensa ponte Hélio Serejo, de 2,5 km, rumo
ao Mato Grosso do Sul, e atrasamos os relógios em uma hora na nossa primeira
mudança de fuso. Por volta das 12h30, chegamos a Campo Grande para a primeira
parada para banho e almoço, em uma churrascaria que teve a melhor comida de toda a
viagem. Mas o banho foi corrido —e gelado. Pelo menos era gratuito. Devido ao calor
insuportável, adotei o estilo dos cariocas a bordo e passei a usar chinelo e bermuda.
De volta ao ônibus, a resenha continuou. Os torcedores penduraram suas toalhas com
escudos dos clubes entre as cortinas, e o interior do veículo virou um misto de cortiço
com arquibancada. Pelo menos não cheirava mal.
Descobri que muitos não tinham ingresso nem hospedagem. Eles aproveitavam o tempo
livre para tentar reservar um Airbnb e buscar ingressos. “Vai dar certo, lá na porta tem
muita gente vendendo”, disse Marcos Vianna. Outro tema do dia foi a revolta dos
flamenguistas com a suposta ingratidão palmeirense com o técnico Abel Ferreira. “Um
desses lá no Flamengo e ninguém jamais ganharia da gente”, gritou alguém do fundão.
Todos os flamenguistas ali diziam ser pés-quentes e enumeravam vitórias que viram in
loco.
Quando a turma estava desanimada, resolvi organizar um “quiz da paz” para ver quem sabia mais sobre seu time na Libertadores. Do lado alviverde, o escolhido foi Luiz Felipe (que recebeu esse nome em homenagem a Luiz Felipe Scolari). Do lado rubro-negro, quem se apresentou foi Chico Esteves, apelidado de Marcos Braz por sua semelhança com o ex-dirigente. Por 5 a 4, os palmeirenses venceram, mas não sem reclamações e pedidos de VAR.
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Enquanto isso, Adriano e eu improvisamos uma mini-redação nas primeiras poltronas,
usando as tomadas do ônibus para carregar os equipamentos. Dali, tínhamos uma visão
privilegiada da paisagem do Centro-Oeste, com plantações de cana, soja e criações de
gado. Chegamos ao Mato Grosso por volta das 19h20, entre as cidades de Sonora e
Bonfim. De lá seguimos até Cuiabá, onde chegamos por volta da meia-noite de terçafeira.
Todos dormiam, e praticamente ninguém viu o embarque dos amigos Felipe Cavalcante,
43, Itamir Santos, 41, e João Francisco, 69, flamenguistas que viajavam havia dois dias,
desde que saíram de carro de Sergipe para Salvador. De lá, embarcaram em um voo
para Campinas e, no mesmo dia, seguiram para Cuiabá.
Dia 3 — Terça-feira, 25 de novembro
Cuiabá (MT), Vilhena (RO) e Ouro Preto do Oeste (RO)
Acordei exausto e bateu um leve arrependimento de ter sugerido essa reportagem.
Cansaço, dor nas costas e o desconforto natural dessas viagens começaram a cobrar o
preço —e ainda faltavam três dias.
Mas esse dia prometia ser divertido. Caso o Flamengo vencesse o Atlético Mineiro e o Palmeiras perdesse para o Grêmio, o time carioca seria campeão brasileiro. A comemoração seria a bordo.
Finalmente chegamos a Rondônia após 48 horas de viagem. Almoçamos em Vilhena e tomamos o segundo banho da viagem, em um banheiro relativamente limpo. A chuveirada gelada de sete minutos, cronometrada, custava R$ 10. Com calor de 30 graus, ninguém reclamou. Enquanto esperávamos a partida, consegui uma bola emprestada e organizei um torneio de embaixadinhas, mais uma vez vencido pelos palmeirenses.
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Ainda em Vilhena, conheci Jefferson e seu filho Gustavo, de 10 anos. Eles viajavam
pela primeira vez ao exterior. “Eu não estou cansado”, disse o menino. O pai
discordava, mas a felicidade do passeio parecia revigorá-lo. Também conheci o
paulistano Maxwell, que viajou incentivado pelo chefe —que foi de avião. No caminho,
ele trabalhava, já que sua função como técnico de TI permitia fazer home-office; ou
melhor, road-office.
O grande momento do dia chegou às 20h30, quando a turma improvisou um suporte no
teto do ônibus para que todos assistissem ao jogo. Quem estava no fundão
acompanhou pelo próprio celular. No andar de baixo ficaram os palmeirenses. Com dez
minutos de partida, o motorista parou o veículo em um restaurante para o jantar. O gol
do empate do Grêmio fez os flamenguistas vibrarem, mas o time carioca entrou no
segundo tempo perdendo por 1 a 0.
Não dava para ficar muito tempo parado, e o segundo tempo foi acompanhado de
dentro do ônibus. Assim, os rubro-negros vibraram com o gol de empate de Bruno
Henrique que, se não garantiu o título, deixou o Flamengo muito próximo da conquista.
O grito de “É campeão!” ficou entalado.
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Dia 4 — Quarta-feira, 26 de novembro
Porto Velho (RO), Rio Branco (AC), Assis Brasil (AC) e Iñapari (Peru)
A chegada a Porto Velho foi atribulada. Devido às péssimas condições da estrada e a uma tempestade, a viagem atrasou quase três horas. Chegamos de madrugada. Foi um trajeto difícil. Apesar dos avisos dos motoristas para que as pessoas só fizessem necessidades “mais pesadas” nas paradas, muita gente não aguentou. Resultado: um cheiro terrível de esgoto dominava o ônibus cada vez que alguém dava descarga.
No meio dessa algazarra, as torcedoras do Flamengo Thuane Farias, 30, e Açucena Souza, 30, lidavam relativamente bem com a situação. Thuane viajava sozinha — ou melhor: “Eu, Deus e a minha paixão pelo Mengão”, frisou. “No começo, fiquei com receio de viajar sozinha, mas já fui muitas vezes ao Maracanã e sei como é a torcida”, afirmou. Açucena, criadora de conteúdo sobre o Flamengo, viajava com outra colega. A carioca não se importou em ser uma das poucas mulheres a bordo.
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Seguimos direto, sem parada, até Rio Branco, capital do Acre, onde atrasamos os relógios novamente por conta do fuso. O ônibus passou por uma limpeza geral dos assentos e, felizmente, do banheiro, além de manutenção como troca de filtro de combustível e reabastecimento. Tomamos café da manhã e almoçamos. Também tomamos o último banho até Nazca.
Enquanto esperávamos, a turma encontrou uma loja de conveniência em um posto e assistiu à reprise de Flamengo x Palmeiras pelo Brasileirão, vencido pelo clube carioca. Em clima de final, os flamenguistas torceram como se fosse ao vivo.
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Por volta das 12h, seguimos rumo a Assis Brasil, último destino no Brasil, onde
atravessamos a fronteira para o Peru, na cidade de Iñapari.
Chegamos à fronteira às 18h, uma hora após o fechamento da aduana. Mas os oficiais
haviam sido avisados do atraso e aguardaram nossa chegada para evitar que
esperássemos até o dia seguinte.
Dia 5 — Quinta-feira, 27 de novembro
Puerto Maldonado, Andes, Juliaca e Arequipa
As primeiras horas no Peru foram durante a madrugada. Ninguém viu o trajeto até
Puerto Maldonado e, como já era tarde, não seguimos direto até o topo da Cordilheira
dos Andes. Amanhecemos com a deslumbrante paisagem da Floresta Amazônica
durante a subida.
O perrengue começou mesmo quando atingimos o topo, a 4.750 metros de altitude. Vimos os cumes nevados e, empolgados, muitos torcedores ignoraram as precauções contra os sintomas da altitude. Lá em cima, os flamenguistas fizeram questão de tirar fotos de bermuda e chinelo e até ensaiaram bater uma bolinha.
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No caminho, cruzamos um comboio de quatro ônibus fretados por flamenguistas que
saíram do Acre e do Amazonas. Os veículos não eram adequados para a subida e um
deles quebrou. Coincidentemente, passamos por um posto da polícia enquanto
estávamos logo atrás do comboio e tivemos nossa placa registrada. Dali em diante, uma
viatura passou a nos acompanhar e tentou impedir nossa entrada em cidades para
banho, abastecimento e alimentação. Felizmente, alguns quilômetros depois, nos
liberaram.
O problema maior veio na descida. Como estávamos sem paradas desde o Acre, a água
do banheiro acabou, assim como a água potável. Não encontramos lugar para tomar
café da manhã ou banho. Com dores de cabeça, náusea e vômitos, o ônibus ficou
insalubre. Felizmente, ninguém precisou do cilindro de oxigênio.
Entre os passageiros, havia apenas um médico, torcedor do Palmeiras. “É ele quem
decide quem vive e quem morre”, gritou um flamenguista. “Ele fez um juramento”, disse
outro, tentando tranquilizar. “Sou cria de Bangu, não vou passar mal com altitude”,
brincou Dearson Luiz, 29, apelidado de Plata pela semelhança com o atacante do
Flamengo. Ironicamente, foi um dos poucos que não sentiram nada.
A primeira refeição do dia só ocorreu às 18h, em Juliaca, a 3.800 metros de altitude, às
margens do lago Titicaca. Comemos em um restaurante cujo carro-chefe era sopa de
pé-de-galinha. Disseram ser revigorante — e foi. O local não tinha estrutura para tanta
gente, e o banheiro não suportou a demanda — muitos ainda estavam mal por causa da
altitude.
Só conseguimos deixar a cidade por volta das 21h, após encontrar um local para
abastecer e reabastecer os 500 litros de água do banheiro.
Dia 6 — Sexta-feira, 28 de novembro
Nazca e Lima
Amanhecemos na Estrada do Pacífico, com o Oceano Pacífico à esquerda e o deserto
de Huacachina à direita. No ônibus, a expectativa era enorme. A primeira parada foi
apenas às 13h, para café e almoço. Estávamos todos sem banho havia dois dias, e a
situação não melhorou muito. O local escolhido não tinha estrutura para receber tantos
torcedores ao mesmo tempo e contava com apenas dois chuveiros (na prática, apenas
canos com água gelada) e vasos sanitários imundos. Bateu uma saudade do Graal,
rede de postos do Sudeste e Sul do Brasil.
Mas não havia alternativa, já que o motorista precisou se “esconder” dos comboios de
Palmeiras e Flamengo que encontrava pelo caminho. Alguns conseguiram tomar banho
(eu incluso). Outros enfrentaram o banheiro imundo. O almoço foi frenético, com pratos
populares do Peru, como arroz chaufa e lomo saltado, sem glamour e zero
instagramável.
Finalmente, Nazca estava à frente. Paramos em um mirante para ver parte das linhas
que ficam à beira da rodovia. E, mais uma vez, sobraram brincadeiras dos flamenguistas
chamando-as de “linhas do Zico”. Diziam que a sonoridade era semelhante. Será?
Mais de 144 horas e 2.800 litros de combustível depois, chegamos ao Terminal
Rodoviário de Lima. Durante os 6.500 km percorridos, estranhos se tornaram amigos e
rivais se tornaram irmãos. Em tempo: consegui comprar o ingresso durante a viagem. E
se me perguntarem se faria tudo de novo? É claro que sim

